Em plena era de máquinas modernas e possantes por que alguém iria de Avaí a Barretos montado no lombo de uma mula ou burro? Bem, espírito aventureiro, esportividade e disposição para o inesperado podem responder à pergunta. Mas para um grupo de rapazes, a viagem terá um caráter ainda mais inusitado e por que não nobre: eles vão acompanhar um amigo no pagamento de uma promessa.
A história começou há sete anos quando o encarregado de transporte Ulisses Genaro D’Avila sofreu um grave acidente de moto e quase perdeu a perna direita que sofreu oito fraturas. Foram momentos de aflição e ansiedade, diz ele. “O médico chegou a acenar com a possibilidade de amputação e disse que provavelmente eu nunca mais poderia montar a cavaloâ€.
Não poder mais cavalgar, segundo Ulisses, seria uma das piores conseqüências do acidente. “A vida inteira eu mexi com animais. Sempre fui apaixonado por issoâ€, conta.
Antes do acidente, ele fazia apartação e treinava quarto-de-milha num haras da região. Era difícil perder uma festa de peão. “Já conhecia a festa de Barretos e achava tudo muito bonitoâ€.
Mas o acidente de moto interrompeu as atividades. O tratamento médico era rigoroso e se estendeu por meses. Ulisses conta que algum tempo depois, quando passou a caminhar devagar e ainda usava muletas, voltou à festa de Barretos, “só para apreciarâ€, já que seu restabelecimento ainda não era total.
Quando começou o desfile de cavaleiros, uma das atividades mais tradicionais e emocionantes da festa de Barreto, Ulisses disse que não se conteve, parou e falou consigo mesmo: “Se Deus me der a oportunidade de cavalgar outra vez, farei o trajeto montado num animalâ€.
Fé em Deus e muita vontade de vencer, ressalta Ulisses, foram suas armas.
No ano seguinte, já livre das muletas, começaram os preparativos para a grande cavalgada. “Pensei em ir sozinho, mas comentando com os amigos, eles também se animaramâ€. Seria um misto de solidariedade e diversão, confessa o grupo.
A viagem, que segundo cálculos do grupo deve demorar pouco mais de uma semana, será uma espécie de reencontro com a paz. “Haverá tempo para meditação, lazer e agradecimentosâ€, diz Ulisses.
Mulas e burros
A escolha de mulas e burros não foi à toa. Esses animais, explica o comerciante Giovani Guerrisi, morador de Boracéia, são muito resistentes e se bem tratados, como está no programa de viagem do grupo, fariam o trajeto tranqüilamente.
A partida da tropa está marcada para as 5h do dia 10 de agosto. Até ontem, o grupo contava com sete integrantes que vão cavalgar. Uma equipe de apoio seguirá os cavaleiros viajando em carro e caminhão. “Serão pessoas prontas para prestar algum socorro tanto para nós como para os animaisâ€, explicam.
A intenção é levar animais para o revezamento. Assim, sem forçar as mulas e burros, será possível, segundo eles, avançar uma média de 40 quilômetros por dia.
Outra preocupação desde que a viagem foi acertada, no começo do ano, foi quanto ao preparo físico dos animais que vão participar da comitiva. Eles estão recebendo um tratamento especial. “Foram vermifugados e estão sendo alimentados com rações especiaisâ€, garante Guerrisi.
À moda tropeira
A viagem, além de cumprir sua finalidade primeira, será também uma forma de relembrar as andanças dos tropeiros que, há alguns anos, eram comuns em muitas partes do País.
O escriturário Vinícius Slaguinaufi diz que, assim como acontecia na época dos tropeiros, a comitiva que seguirá para Barretos também terá seu cozinheiro que, estando um pouco à frente da tropa, ficará encarregado de preparar as refeições. “Um pouco diferente, é verdade. O nosso (encarregado pela comida) vai de caminhão e não precisará se distanciar tantoâ€.
Arreando as mulas
A comitiva quer levar os arreios completos dos animais. Porém, para que as mulas e burros não fiquem sobrecarregados, parte dos apetrechos seguirão por caminhão. Em cada cidade que a tropa entrar, haverá uma espécie de curta exibição. “Aí sim vamos arrear as mulas de acordo, com o figurino completoâ€, contam.
Entre a comitiva que seguirá para Barretos, onde a festa está programada para acontecer entre 15 e 25 de agosto, estão moradores de Bauru, Boracéia e até de São Caetano, como é o caso de Maurício Rufato que vem especialmente para acompanhar os amigos.