Regional

Mulas e cavaleiros rumo a Barretos

Tânia Fonseca
| Tempo de leitura: 4 min

Em plena era de máquinas modernas e possantes por que alguém iria de Avaí a Barretos montado no lombo de uma mula ou burro? Bem, espírito aventureiro, esportividade e disposição para o inesperado podem responder à pergunta. Mas para um grupo de rapazes, a viagem terá um caráter ainda mais inusitado e por que não nobre: eles vão acompanhar um amigo no pagamento de uma promessa.

A história começou há sete anos quando o encarregado de transporte Ulisses Genaro D’Avila sofreu um grave acidente de moto e quase perdeu a perna direita que sofreu oito fraturas. Foram momentos de aflição e ansiedade, diz ele. “O médico chegou a acenar com a possibilidade de amputação e disse que provavelmente eu nunca mais poderia montar a cavalo”.

Não poder mais cavalgar, segundo Ulisses, seria uma das piores conseqüências do acidente. “A vida inteira eu mexi com animais. Sempre fui apaixonado por isso”, conta.

Antes do acidente, ele fazia apartação e treinava quarto-de-milha num haras da região. Era difícil perder uma festa de peão. “Já conhecia a festa de Barretos e achava tudo muito bonito”.

Mas o acidente de moto interrompeu as atividades. O tratamento médico era rigoroso e se estendeu por meses. Ulisses conta que algum tempo depois, quando passou a caminhar devagar e ainda usava muletas, voltou à festa de Barretos, “só para apreciar”, já que seu restabelecimento ainda não era total.

Quando começou o desfile de cavaleiros, uma das atividades mais tradicionais e emocionantes da festa de Barreto, Ulisses disse que não se conteve, parou e falou consigo mesmo: “Se Deus me der a oportunidade de cavalgar outra vez, farei o trajeto montado num animal”.

Fé em Deus e muita vontade de vencer, ressalta Ulisses, foram suas armas.

No ano seguinte, já livre das muletas, começaram os preparativos para a grande cavalgada. “Pensei em ir sozinho, mas comentando com os amigos, eles também se animaram”. Seria um misto de solidariedade e diversão, confessa o grupo.

A viagem, que segundo cálculos do grupo deve demorar pouco mais de uma semana, será uma espécie de reencontro com a paz. “Haverá tempo para meditação, lazer e agradecimentos”, diz Ulisses.

Mulas e burros

A escolha de mulas e burros não foi à toa. Esses animais, explica o comerciante Giovani Guerrisi, morador de Boracéia, são muito resistentes e se bem tratados, como está no programa de viagem do grupo, fariam o trajeto tranqüilamente.

A partida da tropa está marcada para as 5h do dia 10 de agosto. Até ontem, o grupo contava com sete integrantes que vão cavalgar. Uma equipe de apoio seguirá os cavaleiros viajando em carro e caminhão. “Serão pessoas prontas para prestar algum socorro tanto para nós como para os animais”, explicam.

A intenção é levar animais para o revezamento. Assim, sem forçar as mulas e burros, será possível, segundo eles, avançar uma média de 40 quilômetros por dia.

Outra preocupação desde que a viagem foi acertada, no começo do ano, foi quanto ao preparo físico dos animais que vão participar da comitiva. Eles estão recebendo um tratamento especial. “Foram vermifugados e estão sendo alimentados com rações especiais”, garante Guerrisi.

À moda tropeira

A viagem, além de cumprir sua finalidade primeira, será também uma forma de relembrar as andanças dos tropeiros que, há alguns anos, eram comuns em muitas partes do País.

O escriturário Vinícius Slaguinaufi diz que, assim como acontecia na época dos tropeiros, a comitiva que seguirá para Barretos também terá seu cozinheiro que, estando um pouco à frente da tropa, ficará encarregado de preparar as refeições. “Um pouco diferente, é verdade. O nosso (encarregado pela comida) vai de caminhão e não precisará se distanciar tanto”.

Arreando as mulas

A comitiva quer levar os arreios completos dos animais. Porém, para que as mulas e burros não fiquem sobrecarregados, parte dos apetrechos seguirão por caminhão. Em cada cidade que a tropa entrar, haverá uma espécie de curta exibição. “Aí sim vamos arrear as mulas de acordo, com o figurino completo”, contam.

Entre a comitiva que seguirá para Barretos, onde a festa está programada para acontecer entre 15 e 25 de agosto, estão moradores de Bauru, Boracéia e até de São Caetano, como é o caso de Maurício Rufato que vem especialmente para acompanhar os amigos.

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