Cultura

Sobre mundos - O toque que gera vida

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

Era meu terceiro dia na cidade de Ouro Preto. Apesar de ter estado somente algumas vezes neste patrimônio histórico, sempre tive a sensação de “estar em casa”. Talvez seja o ambiente rústico e antigo, o clima romântico e artístico, as inúmeras repúblicas de estudantes e seus estilos de vida bem alternativos e livres que fazem com que eu me identifique tanto com esta cidade.

Eu estava hospedado na república “Baviera”, bem perto da Praça Tiradentes e, enquanto esperava um grupo de amigos para fazer uma caminhada, resolvi dar uma olhadinha nas lojas que comercializam pedras.

Ao entrar em uma delas, o vendedor imediatamente colocou sobre o balcão diversas pedras, uma mais linda que a outra. Cada pedra possuía um brilho particular e intenso. Apenas uma era feia e opaca, totalmente desinteressante e sem brilho.

Ao vê-la, fiquei curioso e resolvi brincar com o vendedor: “Você me mostrou pedras lindíssimas, mas junto delas colocou esta aqui, sem cor e sem brilho. Você não está com a esperança de me vendê-la, está?”

Com um sorriso de especialista, o vendedor pegou a pedra e a aqueceu em suas mãos. Depois de alguns segundos, ele abriu sua mão e, como que por um milagre, a pedra brilhava muito mais do que todas as outras que estavam no balcão. Fiquei fascinado pela pedra e acabei levando-a.

Como era prazeroso estar no colo de nossos pais quando éramos crianças; como faz bem sentir aquele “tapinha nas costas” de um amigo quando nos encontramos em uma situação difícil; como é importante um forte abraço quando estamos nos sentindo sozinhos, aquele beijo e contato prolongado com quem amamos em um momento de medo e de carência ou, até mesmo, um forte aperto de mão quando precisamos de um apoio ou encorajamento.

Nós, seres humanos, sentimos o mundo à nossa volta não simplesmente de uma forma mental ou espiritual, mas principalmente através do contato físico. Graças a Deus, nós não somos somente cérebros que utilizam seus corpos para locomoção. Nós entendemos o mundo e nos compreendemos nele através do corpo e de seu contato com tudo aquilo que está em nosso universo.

O toque com o mundo e com os seres que nos circundam é sinal de vida. Não é por menos que Michelangelo representa a criação de Adão, na Capela Sistina, através da imagem do toque entre Deus e o homem.

O toque físico não é apenas agradável e prazeroso. Ele é também necessário para a vida. Sem o contato físico com o mundo nós nos sentimos isolados, sozinhos, nos tornamos frios e perdemos muito de nossa humanidade. Desde os nossos primeiros momentos de vida, é necessário o contato com outro ser humano para que possamos nos desenvolver como pessoa.

A criança que não possui este calor humano dos adultos começa a correr risco de vida. Pesquisas científicas já demonstraram que a estimulação pelo toque é absolutamente necessária para o nosso bem-estar, tanto físico quanto emocional. Hoje em dia, em vários centros de medicina, é ensinado o “toque terapêutico” para profissionais de enfermagem.

O toque físico é usado para aumentar a vontade de viver dos pacientes, para ajudar bebês prematuros que ficaram privados do toque materno nas incubadeiras a crescer e a desabrochar.

O que é mais importante é que este toque, no início da infância, aumenta a “imunoglobina A”, ou seja, a célula de proteção do organismo, melhorando também a capacidade respiratória e a freqüência cardíaca.

Segundo as pesquisas médicas, o bebê tem uma sensação prazerosa ao ser tocado, o que faz produzir uma substância anestésica natural, a endorfina.

Esta substância faz melhorar não somente o quadro físico das crianças, como também ajuda a diminuir a depressão de adultos. Sendo em crianças ou em adultos, o fato é que o toque físico nos faz sentir melhor com nós mesmos e com o ambiente a nossa volta. Ele possui um efeito positivo sobre o desenvolvimento da linguagem e sobre o QI das crianças.

O toque entre as pessoas provoca mudanças fisiológicas mensuráveis não somente naquele que toca, mas também naquele que é tocado, pois o contato físico não é somente uma expressão de carinho e de amor, mas sem dúvida alguma uma troca dos mesmos. Desde o aperto de mão, o abraço caloroso até a relação sexual, o contato corporal produz para todos a saúde tanto física como mental.

Portanto, é importante libertar-se de certas convenções morais e compartilhar verdadeiramente, pois o contato de carinho produz a felicidade e esta é um perfume que você não pode passar aos outros sem que o cheiro fique um pouco em suas mãos. Tanto para quem faz uso do toque como para quem é tocado, o contato humano faz milagres.

Espero que nunca cheguemos a afirmar que “desde que nos tornamos tão cerebrais não suportamos tocar ou sermos tocados.

Desde que somos tão cerebrais estamos humanamente fora de contato. E assim temos que continuar. Pois se, intelectualmente, nos forçarmos ao toque, ao contato físico e carnal, nós nos violamos, ficamos depravados” (D.H. Lawrence). Chegar a tal conclusão é renegar umas das mais belas e prazerosas chances de sermos felizes e saudáveis: o prazer do toque.

Comentários

Comentários