Era meu terceiro dia na cidade de Ouro Preto. Apesar de ter estado somente algumas vezes neste patrimônio histórico, sempre tive a sensação de “estar em casaâ€. Talvez seja o ambiente rústico e antigo, o clima romântico e artístico, as inúmeras repúblicas de estudantes e seus estilos de vida bem alternativos e livres que fazem com que eu me identifique tanto com esta cidade.
Eu estava hospedado na república “Bavieraâ€, bem perto da Praça Tiradentes e, enquanto esperava um grupo de amigos para fazer uma caminhada, resolvi dar uma olhadinha nas lojas que comercializam pedras.
Ao entrar em uma delas, o vendedor imediatamente colocou sobre o balcão diversas pedras, uma mais linda que a outra. Cada pedra possuía um brilho particular e intenso. Apenas uma era feia e opaca, totalmente desinteressante e sem brilho.
Ao vê-la, fiquei curioso e resolvi brincar com o vendedor: “Você me mostrou pedras lindíssimas, mas junto delas colocou esta aqui, sem cor e sem brilho. Você não está com a esperança de me vendê-la, está?â€
Com um sorriso de especialista, o vendedor pegou a pedra e a aqueceu em suas mãos. Depois de alguns segundos, ele abriu sua mão e, como que por um milagre, a pedra brilhava muito mais do que todas as outras que estavam no balcão. Fiquei fascinado pela pedra e acabei levando-a.
Como era prazeroso estar no colo de nossos pais quando éramos crianças; como faz bem sentir aquele “tapinha nas costas†de um amigo quando nos encontramos em uma situação difícil; como é importante um forte abraço quando estamos nos sentindo sozinhos, aquele beijo e contato prolongado com quem amamos em um momento de medo e de carência ou, até mesmo, um forte aperto de mão quando precisamos de um apoio ou encorajamento.
Nós, seres humanos, sentimos o mundo à nossa volta não simplesmente de uma forma mental ou espiritual, mas principalmente através do contato físico. Graças a Deus, nós não somos somente cérebros que utilizam seus corpos para locomoção. Nós entendemos o mundo e nos compreendemos nele através do corpo e de seu contato com tudo aquilo que está em nosso universo.
O toque com o mundo e com os seres que nos circundam é sinal de vida. Não é por menos que Michelangelo representa a criação de Adão, na Capela Sistina, através da imagem do toque entre Deus e o homem.
O toque físico não é apenas agradável e prazeroso. Ele é também necessário para a vida. Sem o contato físico com o mundo nós nos sentimos isolados, sozinhos, nos tornamos frios e perdemos muito de nossa humanidade. Desde os nossos primeiros momentos de vida, é necessário o contato com outro ser humano para que possamos nos desenvolver como pessoa.
A criança que não possui este calor humano dos adultos começa a correr risco de vida. Pesquisas científicas já demonstraram que a estimulação pelo toque é absolutamente necessária para o nosso bem-estar, tanto físico quanto emocional. Hoje em dia, em vários centros de medicina, é ensinado o “toque terapêutico†para profissionais de enfermagem.
O toque físico é usado para aumentar a vontade de viver dos pacientes, para ajudar bebês prematuros que ficaram privados do toque materno nas incubadeiras a crescer e a desabrochar.
O que é mais importante é que este toque, no início da infância, aumenta a “imunoglobina Aâ€, ou seja, a célula de proteção do organismo, melhorando também a capacidade respiratória e a freqüência cardíaca.
Segundo as pesquisas médicas, o bebê tem uma sensação prazerosa ao ser tocado, o que faz produzir uma substância anestésica natural, a endorfina.
Esta substância faz melhorar não somente o quadro físico das crianças, como também ajuda a diminuir a depressão de adultos. Sendo em crianças ou em adultos, o fato é que o toque físico nos faz sentir melhor com nós mesmos e com o ambiente a nossa volta. Ele possui um efeito positivo sobre o desenvolvimento da linguagem e sobre o QI das crianças.
O toque entre as pessoas provoca mudanças fisiológicas mensuráveis não somente naquele que toca, mas também naquele que é tocado, pois o contato físico não é somente uma expressão de carinho e de amor, mas sem dúvida alguma uma troca dos mesmos. Desde o aperto de mão, o abraço caloroso até a relação sexual, o contato corporal produz para todos a saúde tanto física como mental.
Portanto, é importante libertar-se de certas convenções morais e compartilhar verdadeiramente, pois o contato de carinho produz a felicidade e esta é um perfume que você não pode passar aos outros sem que o cheiro fique um pouco em suas mãos. Tanto para quem faz uso do toque como para quem é tocado, o contato humano faz milagres.
Espero que nunca cheguemos a afirmar que “desde que nos tornamos tão cerebrais não suportamos tocar ou sermos tocados.
Desde que somos tão cerebrais estamos humanamente fora de contato. E assim temos que continuar. Pois se, intelectualmente, nos forçarmos ao toque, ao contato físico e carnal, nós nos violamos, ficamos depravados†(D.H. Lawrence). Chegar a tal conclusão é renegar umas das mais belas e prazerosas chances de sermos felizes e saudáveis: o prazer do toque.