Até os 14 anos de idade, brincar é a atividade física mais indicada para as crianças. Espontaneamente, elas trabalham todas as partes do corpo, andando, saltando, correndo, escalando, gritando, gargalhando, arremessando coisas, girando o corpo, agachando, dando piruetas, cambalhotas e até caindo. Se pudessem seguir a natureza, elas não parariam nem para comer.
“Se você observar, no mundo animal, todo mamífero brinca. A brincadeira é fundamental no crescimento, porque é nela que você trabalha seu corpo, que você se socializa, cria laços afetivos, descobre sua força, aprende a defender-se, a dividir o que tem. Quando você corta isso, você estimula a individualidade e a limitaçãoâ€, comenta o professor de educação física da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Henrique Luiz Monteiro.
Só que, antigamente, as crianças podiam fazer tudo isso nos quintais ou nas ruas, o que é inviável, hoje, para a maioria das famílias. Naquela época, elas estavam sempre cercadas de amigos, mas livres da fiscalização do adulto. Brincavam, faziam “arteâ€, caíam, machucavam-se e iam aprendendo naturalmente. A mãe só se aproximava quando ouvia algum choro.
Quando os perigos urbanos aumentaram, as mães começaram a acompanhar seus filhos mais de perto e passaram a enxergar os riscos que eles corriam em suas estripulias. Começou o “não pode†para subir em árvores, pular muros, balançar nos galhos, arremessar pedras e muitos outros.
As cidades cresceram e as casas foram ficando menores, os quintais se perderam, os apartamentos ganharam a predileção das pessoas como opção de moradia. Se em espaços abertos já havia o “não podeâ€, dentro de casa essa situação tornou-se esmagadora.
Ali, a criança não pode correr porque vai derrubar as coisas e incomodar o vizinho. Não pode chutar bola, porque suja as paredes, não pode, não pode e não pode.
Ao invés de brincar e movimentar-se, a criança é incentivada a ligar o televisor ou computador e passar horas diante da tela, quase inerte. Pior que isso: na maior parte das vezes, essa atitude é regada a refrigerantes e acompanhada de bolachas e salgadinhos. O resultado disso são crianças apáticas, lentas, preguiçosas, sonolentas e obesas.
Segundo lugar
Uma pesquisa recente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e do Ministério da Saúde (MS) mostrou que 15% dos meninos e meninas brasileiros menores de 10 anos são obesos. Esse índice coloca o Brasil em segundo lugar no ranking mundial da obesidade infantil, perdendo apenas para os Estados Unidos, onde 20% das crianças são obesas.
As organizações atribuem esse quadro ao sedentarismo das crianças, que ficam confinadas em casa diante dos monitores e comendo guloseimas hipercalóricas e vazias de nutrientes.
Uma alimentação que tem resultado nos também altos índices de anemia infantil. Estima-se que 46% das crianças menores de 10 anos no Brasil sejam anêmicas. Este dado é similar ao da Índia (53%), onde as pessoas não comem carne por questões religiosas.
O excesso de peso na infância pode atrapalhar o crescimento da criança, além de sobrecarregar a coluna e as articulações, que podem ficar malformadas. Já a anemia deixa a criança fraca, cansada, indisposta e, em casos graves, pode interferir no desenvolvimento intelectual dela.