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Reflexões na hora amarga - Certas exigências da lógica


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O avassalador poder da propaganda é tal, que mesmo as mais evidentes infidelidades ao bom-senso passam sem reparo algum, e transitam como verdades e, até, como ideais a que todos devem servir. Por isso mesmo, talvez, é que Michael Novak, em seu “O Espírito do Capitalismo Democrático”, declarou ser sua maior preocupação nos dias atuais, a prevalência de idéias sobre fatos, mesmo quando estes as desmentem de maneira frontal.

Em boa lógica, qualquer que seja a escola filosófica adotada, é verdade evidente, que nada pode ser, simultaneamente, sujeito e objeto em alguma coisa. Por exemplo, o que pensaria deste escriba um leitor de nome José, se este escriba lhe dissesse: o empregado de José é José, e o patrão de José é José. Certamente haveria de supor o leitor, e com toda a razão, que estariam frouxos alguns parafusos na cabeça do escriba, ou que este estava zombando da sua inteligência. A mesma reação, entretanto, não ocorre, quando lhe dizem que na democracia o povo governa o povo. É, o povo surge, simultaneamente, como sujeito e objeto, tal e qual como no exemplo do hipotético José, acima mencionado. E por que o homem comum não percebe a contradição em termos que lhe é impingida, não apenas como verdade que não pode ser discutida, mas como sacrossanto ideal a que todos, sem qualquer análise devem servir? De nossa parte, entendemos, propomos à consideração pela inteligência do leitor, que por duas razões: uma, a avalancha esmagadora de propaganda, produzindo o sortilégio a que se referiu Novak; outra, o fato da contradição servir de afago no ego popular.

Caso não se tratasse de engodo exigente de reexame e análise crítica, como explicar, por exemplo, que a nossa dívida externa nos impõe, somente de juros, a sangria de algumas dezenas de bilhões de dólares, a quanto têm montado os tais juros, enquanto continuou a crescer o nosso endividamento, o montante da nossa dívida? E isto, a despeito da internacionalização, por vezes claramente suspeita ou criminosa da nossa economia física, tudo sem contrapartida minimamente proporcional de realizações na infraestrutura e na área social? Como explicar a presença de cerca de um terço do povo vivendo abaixo da linha da pobreza? Como explicar o requinte da zombaria da nossa inteligência, quando brotam como cogumelos, aos milhares - sim, o leitor leu bem, aos milhares - ONG’s, em sua maioria esmagadora sustentadas com financiamento externo - quando é mais do que sabido que o significado da sigla ONG corresponde a “Organização Não governamentais”? Se na democracia quem governa o povo é o povo, não parece claro que ONG’s são organizações que atuam sem considerar o povo? Percebe o leitor até que ponto temos sido, todos, desrespeitados? Significará o que estamos dizendo que somos contra a democracia? Por forma alguma. Ela, como ideal de organização de superestruturas político-administrativas, o mais e o melhor possível, aptas a proteger, a defender e, subsidiariamente, a promover os interesses justos e as aspirações legítimas daqueles que irão viver sob sua jurisdição, é algo universal e eterno, por ser o único, na matéria, compatível com a racionalidade e o livre arbítrio humanos. O que ocorre, porém, é que os mecanismos implantados e, hoje, impostos até pela força pelo poder mundial cada vez mais evidente e, por isso mesmo, cada vez mais desesperado, pois sua força continua a depender da ignorância, pela maioria, de que ele efetivamente existe, tentacular e insaciável, tais mecanismos, repetimos, pouco ou nada têm a ver com o ideal eterno a que fizemos referência.

Pelos frutos os conhecereis. Observamos os frutos que a gigantesca fraude tem produzido. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC. E-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)

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