A crise financeira que atingiu o Brasil agravou-se nos últimos dias. A sensação de que a candidatura do senador José Serra entrou em colapso criou uma onda de pânico nos mercados financeiros. Seus participantes mais importantes, principalmente no Exterior, estavam muito confiantes na vitória do candidato do governo e na manutenção do rumo macroeconômico, dos últimos anos. Em um cenário econômico muito difícil os riscos de uma nova experiência administrativa e política na condução dos rumos do País são muito grandes.
Para uma economia que precisa de US$ 50 bilhões anuais para financiar suas contas externas, essa falta de confiança é mortal. O cenário de uma nova moratória na nossa dívida externa, por incrível que pareça, passou a ser considerado muito provável para 2003. É questão de tempo para que uma renegociação de sua dívida aconteça!
Uma nova moratória 15 anos após a terrível experiência de 1996 no governo José Sarney terá conseqüências terríveis sobre nossa economia. A interrupção dos fluxos financeiros, inclusive de créditos comerciais de curto e médio prazo, vai provocar uma queda importante da atividade econômica e dos níveis de emprego e renda. O novo presidente que tomará posse em janeiro, seja ele Lula ou Ciro Gomes, vai ter que enfrentar uma situação política terrível. Suas promessas de campanha serão irrealistas e a opinião pública vai cobrar duramente seus sonhos não realizados.
Tenho sido cobrado com insistência de que minhas previsões sobre 2003 refletem mais uma frustração pessoal com o fracasso do governo FHC, no qual eu trabalhei no primeiro mandato, do que uma análise fria da situação atual. Infelizmente isso não é verdade! Sempre fui um crítico duro do que se chama hoje de malanismo, mesmo quando era membro da equipe econômica de FHC. Sabíamos, eu e meus colegas do chamado grupo dos desenvolvimentistas, que os rumos da política econômica dos últimos oitos anos nos levariam, em algum momento, à situação de estrangulamento externo que estamos vivendo. Era uma questão de tempo. Não se pode colocar o futuro de uma nação de mais de 170 milhões de pessoas na dependência de um céu de Brigadeiro perene na economia mundial.
Agora que isso está acontecendo, é necessário muito sangue frio e capacidade analítica. Infelizmente, o clima eleitoral que estamos vivendo é pouco propício para que isso ocorra. Os partidos da oposição estão jogando toda a culpa no governo e esquecendo-se de que será o vencedor das próximas eleições, que terá a responsabilidade de enfrentar a crise. (Luiz Carlos Mendonça de Barros é economista)