Atravessar o Brasil como ninguém jamais conseguiu até hoje. Esse é o sonho que atualmente move a vida de quatro estudantes bauruenses unidos por laços de uma grande amizade e duas paixões em comum: o amor pela natureza e a aventura.
Wendel Monteiro da Silva, 20, Osney Cesetti Rodrigues Júnior, 19, Tiago Godoy Tarcinalli, 22 e Miguel Angelo Maldonado Rosa, 19, estão em fase inicial de planejamento de uma viagem de cerca de 20 mil quilômetros que pretende cruzar o País em 30 dias passando pelos seus principais pontos turísticos. O roteiro inclui percorrer até mesmo, em toda sua extensão, a famosa e temida Rodovia Transamazônica.
“Nosso objetivo é mostrar para muitos um País que poucos conhecem, de rara beleza e riquezas inigualáveis. Um Brasil que é nosso e nada conhecemos deleâ€, ressalta Wendel. Além disso, eles fazem questão de enfatizar que a viagem, com partida prevista para 26 de dezembro, é muito mais do que uma simples aventura.
“Muitos pensarão que queremos apenas curtir a viagem, mas também pretendemos mostrar para quem não conhece o que temos no Brasil, que às vezes é até inexplorado. Não queremos realizá-la simplesmente para passar o tempo, pois não somos um bando de aventureiros reunidos. Estaremos fazendo o que gostamos e, além disso, documentaremos tudo com fotos e vídeosâ€, destaca Miguel. E acrescenta: “Também elaboraremos um diário de bordo.â€
Wendel defende o ineditismo da viagem argumentando que o diferencial será a forma como irão realizá-la. “Até hoje não vi uma pessoa cruzar o Brasil mostrando os principais pontos turísticos. A Chapada Diamantina, por exemplo, não a conheço, mas já vi documentários sobre ela, Entretanto, desconheço alguém que tenha ido lá para fazer o que estamos querendo, com direito até a diário de bordoâ€, diz ele.
Os pais, segundo os estudantes, acabam incentivando a idéia. “Quando falei para minha mãe da nossa intenção, ela me disse que eu era um louco. Mas eles estão apoiandoâ€, garante Wendel.
Maiores desafios
Apesar do espírito aventureiro, os estudantes têm consciência dos enormes e muitos desafios que terão de superar para concretizar e concluir a viagem. Um dos maiores será a travessia da Rodovia Transamazônica, naturalmente já complicada.
Entretanto, a época trará um agravante: as chuvas. “Nunca vi ninguém atravessá-la por completo. É extremamente difícil, pois iremos na temporada das cheias dos rios, mas não é impossível. Por isso, já conversei até com um casal de índios que evangelizam na região para saber de detalhes do localâ€, afirma Wendel.
Osney acrescenta que, não raro, é necessário até apoio aéreo para atravessá-la. “Se o carro quebrar no meio da Transamazônica, a única maneira de resgate é através do GPS (sistema de localização via satélite), equipamento que já estamos quase conseguindoâ€, frisa ele.
Mas o problema maior para os estudantes está literalmente “off-roadâ€: falta de patrocínio. Eles estimam que o custo total da viagem gire em torno dos R$ 50 mil, necessários para os gastos com alimentação, hospedagem, pedágios e soluções de prováveis avarias mecânicas. “Estamos dando o sangue para conseguir os recursos. Se tivéssemos condições de bancá-la, não pediríamos para ninguémâ€, enfatizam eles.
Apesar da ausência de recursos, o grupo de amigos não desanima. “Se chegar na data e não tivermos dinheiro poderemos até adiá-la, porém nunca desistiremosâ€, sustenta Miguel. Além disso, os estudantes salientam que o carro escolhido para a viagem, uma caminhonete a diesel, tem um inconveniente: possui apenas tração 4x2. “O ideal seria uma 4x4. Mas, se não conseguirmos outra, a equiparemos e iremos mesmo assimâ€, garante Wendel.
Mas os estudantes confiam e apostam na amizade e nos conhecimentos adquiridos de cada um durante a vida como o maior trunfo para transpor os obstáculos. Nesse sentido, um dos pontos fortes será Tiago, um verdadeiro mecânico. “A viagem não comporta a presença de pessoas estressadas e que não saibam viver em grupo. Por isso, estarão indo quatro pessoas com a cabeça fria e dispostas até a dormir no meio do nada. Pé na lama e meio do mato é com a gente.â€
A Transamazônica
A Rodovia Transamazônica, também conhecida como BR 230, teve sua construção iniciada no início da década de 70 com um objetivo ambicioso: ligar o oceano Atlântico ao Pacífico e garantir a ocupação da Região Norte.
Entretanto, o sonho não chegou nem à metade, pois os anos de abandono praticamente a fizeram desaparecer engolida pela mata. Tanto que há até divergências para saber onde realmente é o seu início, se nos municípios de Altamira (PA) ou Picos (PI). O certo é que a Transamazônica termina em Lábrea (AM), depois de passar por Estados como o Piauí, Maranhão, Pará e sul do Amazonas.
Estima-se que a BR 230 tenha cerca de quatro mil quilômetros, dos quais apenas 300 seriam asfaltados. Por isso, viajar por via terrestre na Amazônia, onde poucas rodovias são pavimentadas, ainda é um desafio. Na maioria das estradas, em determinados períodos do ano, o tráfego é feito com muita dificuldade. Os rios e a chuva, no período da cheia, transformam as estradas em lodaçais.
Além disso, muitas rodovias foram planejadas e nunca saíram do papel. Algumas possuem trechos implantados, mas a maioria está ainda em fase de planejamento, e mesmo em alguns trechos já utilizados as condições de tráfego não são boas, já que, por falta de conservação, voltaram a ser ocupadas pela mata.
O trajeto
O trajeto da expedição dos estudantes pelo Brasil planeja sair de Bauru e percorrer, primeiramente, toda a costa litorânea do País. “Pegaremos a rodovia SP 300 e seguiremos até São Paulo. De lá, desceremos para Santos e acessaremos a BR 101 até Natal, continuando pela BR 116 em direção a Fortalezaâ€, conta Wendel. “Tentaremos também fazer uma passagem pelo arquipélago de Fernando de Noronhaâ€, acrescenta ele.
Já em Fortaleza, os jovens planejam pegar a BR 020 até Picos (PI), cidade onde supostamente inicia-se a Rodovia Transamazônica. “Queremos cruzá-la inteiramente, passando pelo Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazônia até chegarmos às rodovias BR 413 e BR 411 e à cidade de Cruzeiro do Sul (AM).â€
Na seqüência, o destino dos estudantes é seguir pela BR-364 até Vilhena (RO), para depois passarem para a BR-174 até Cáceres (MT) e às seguintes estradas: BR 070, BR 163 e BR 359 até Corumbá, cruzando assim todo o Pantanal matogrossense.
“Em Corumbá pegaremos as BRs 262, 419 e 267 com direção a Rio Brilhante. De lá, continuaremos pelas BRs 163 e 487 até o famoso Pontal do Tigre (PR). Então, acessaremos uma rodovia de ligação, que nos levará até a BR 158 em Porto Lucena e onde pegaremos as BRs 472 e 293, chegando assim a Pelotasâ€, explica Wendel.
Nesta, a viagem dos bauruenses entrará em sua fase final. Pela BR 116, eles pretendem contornar a Lagoa dos Patos até a BR 101, que os levará até Florianópolis, ponto de encerramento da aventura.