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Desbravando o Brasil

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Atravessar o Brasil como ninguém jamais conseguiu até hoje. Esse é o sonho que atualmente move a vida de quatro estudantes bauruenses unidos por laços de uma grande amizade e duas paixões em comum: o amor pela natureza e a aventura.

Wendel Monteiro da Silva, 20, Osney Cesetti Rodrigues Júnior, 19, Tiago Godoy Tarcinalli, 22 e Miguel Angelo Maldonado Rosa, 19, estão em fase inicial de planejamento de uma viagem de cerca de 20 mil quilômetros que pretende cruzar o País em 30 dias passando pelos seus principais pontos turísticos. O roteiro inclui percorrer até mesmo, em toda sua extensão, a famosa e temida Rodovia Transamazônica.

“Nosso objetivo é mostrar para muitos um País que poucos conhecem, de rara beleza e riquezas inigualáveis. Um Brasil que é nosso e nada conhecemos dele”, ressalta Wendel. Além disso, eles fazem questão de enfatizar que a viagem, com partida prevista para 26 de dezembro, é muito mais do que uma simples aventura.

“Muitos pensarão que queremos apenas curtir a viagem, mas também pretendemos mostrar para quem não conhece o que temos no Brasil, que às vezes é até inexplorado. Não queremos realizá-la simplesmente para passar o tempo, pois não somos um bando de aventureiros reunidos. Estaremos fazendo o que gostamos e, além disso, documentaremos tudo com fotos e vídeos”, destaca Miguel. E acrescenta: “Também elaboraremos um diário de bordo.”

Wendel defende o ineditismo da viagem argumentando que o diferencial será a forma como irão realizá-la. “Até hoje não vi uma pessoa cruzar o Brasil mostrando os principais pontos turísticos. A Chapada Diamantina, por exemplo, não a conheço, mas já vi documentários sobre ela, Entretanto, desconheço alguém que tenha ido lá para fazer o que estamos querendo, com direito até a diário de bordo”, diz ele.

Os pais, segundo os estudantes, acabam incentivando a idéia. “Quando falei para minha mãe da nossa intenção, ela me disse que eu era um louco. Mas eles estão apoiando”, garante Wendel.

Maiores desafios

Apesar do espírito aventureiro, os estudantes têm consciência dos enormes e muitos desafios que terão de superar para concretizar e concluir a viagem. Um dos maiores será a travessia da Rodovia Transamazônica, naturalmente já complicada.

Entretanto, a época trará um agravante: as chuvas. “Nunca vi ninguém atravessá-la por completo. É extremamente difícil, pois iremos na temporada das cheias dos rios, mas não é impossível. Por isso, já conversei até com um casal de índios que evangelizam na região para saber de detalhes do local”, afirma Wendel.

Osney acrescenta que, não raro, é necessário até apoio aéreo para atravessá-la. “Se o carro quebrar no meio da Transamazônica, a única maneira de resgate é através do GPS (sistema de localização via satélite), equipamento que já estamos quase conseguindo”, frisa ele.

Mas o problema maior para os estudantes está literalmente “off-road”: falta de patrocínio. Eles estimam que o custo total da viagem gire em torno dos R$ 50 mil, necessários para os gastos com alimentação, hospedagem, pedágios e soluções de prováveis avarias mecânicas. “Estamos dando o sangue para conseguir os recursos. Se tivéssemos condições de bancá-la, não pediríamos para ninguém”, enfatizam eles.

Apesar da ausência de recursos, o grupo de amigos não desanima. “Se chegar na data e não tivermos dinheiro poderemos até adiá-la, porém nunca desistiremos”, sustenta Miguel. Além disso, os estudantes salientam que o carro escolhido para a viagem, uma caminhonete a diesel, tem um inconveniente: possui apenas tração 4x2. “O ideal seria uma 4x4. Mas, se não conseguirmos outra, a equiparemos e iremos mesmo assim”, garante Wendel.

Mas os estudantes confiam e apostam na amizade e nos conhecimentos adquiridos de cada um durante a vida como o maior trunfo para transpor os obstáculos. Nesse sentido, um dos pontos fortes será Tiago, um verdadeiro mecânico. “A viagem não comporta a presença de pessoas estressadas e que não saibam viver em grupo. Por isso, estarão indo quatro pessoas com a cabeça fria e dispostas até a dormir no meio do nada. Pé na lama e meio do mato é com a gente.”

A Transamazônica

A Rodovia Transamazônica, também conhecida como BR 230, teve sua construção iniciada no início da década de 70 com um objetivo ambicioso: ligar o oceano Atlântico ao Pacífico e garantir a ocupação da Região Norte.

Entretanto, o sonho não chegou nem à metade, pois os anos de abandono praticamente a fizeram desaparecer engolida pela mata. Tanto que há até divergências para saber onde realmente é o seu início, se nos municípios de Altamira (PA) ou Picos (PI). O certo é que a Transamazônica termina em Lábrea (AM), depois de passar por Estados como o Piauí, Maranhão, Pará e sul do Amazonas.

Estima-se que a BR 230 tenha cerca de quatro mil quilômetros, dos quais apenas 300 seriam asfaltados. Por isso, viajar por via terrestre na Amazônia, onde poucas rodovias são pavimentadas, ainda é um desafio. Na maioria das estradas, em determinados períodos do ano, o tráfego é feito com muita dificuldade. Os rios e a chuva, no período da cheia, transformam as estradas em lodaçais.

Além disso, muitas rodovias foram planejadas e nunca saíram do papel. Algumas possuem trechos implantados, mas a maioria está ainda em fase de planejamento, e mesmo em alguns trechos já utilizados as condições de tráfego não são boas, já que, por falta de conservação, voltaram a ser ocupadas pela mata.

O trajeto

O trajeto da expedição dos estudantes pelo Brasil planeja sair de Bauru e percorrer, primeiramente, toda a costa litorânea do País. “Pegaremos a rodovia SP 300 e seguiremos até São Paulo. De lá, desceremos para Santos e acessaremos a BR 101 até Natal, continuando pela BR 116 em direção a Fortaleza”, conta Wendel. “Tentaremos também fazer uma passagem pelo arquipélago de Fernando de Noronha”, acrescenta ele.

Já em Fortaleza, os jovens planejam pegar a BR 020 até Picos (PI), cidade onde supostamente inicia-se a Rodovia Transamazônica. “Queremos cruzá-la inteiramente, passando pelo Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazônia até chegarmos às rodovias BR 413 e BR 411 e à cidade de Cruzeiro do Sul (AM).”

Na seqüência, o destino dos estudantes é seguir pela BR-364 até Vilhena (RO), para depois passarem para a BR-174 até Cáceres (MT) e às seguintes estradas: BR 070, BR 163 e BR 359 até Corumbá, cruzando assim todo o Pantanal matogrossense.

“Em Corumbá pegaremos as BRs 262, 419 e 267 com direção a Rio Brilhante. De lá, continuaremos pelas BRs 163 e 487 até o famoso Pontal do Tigre (PR). Então, acessaremos uma rodovia de ligação, que nos levará até a BR 158 em Porto Lucena e onde pegaremos as BRs 472 e 293, chegando assim a Pelotas”, explica Wendel.

Nesta, a viagem dos bauruenses entrará em sua fase final. Pela BR 116, eles pretendem contornar a Lagoa dos Patos até a BR 101, que os levará até Florianópolis, ponto de encerramento da aventura.

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