Se você tivesse a chance - ou o privilégio - de optar entre uma Ferrari 2002 e um veículo nacional produzido na década de 80 para ocupar a garagem de casa, certamente sua escolha recairia pela primeira alternativa.
Entretanto, para o casal bauruense Márcio Alberto Costa e Paula Polido o veredito seria a favor do segundo. Principalmente quando o objeto do desejo em questão tratar-se de um Hofstetter, um automóvel, acima de tudo, raro e diferente.
Batizado com o nome de seu construtor, o milionário brasileiro Mário Hofstetter, o carro foi inspirado num protótipo feito na Itália sobre o chassi do Alfa Romeo 33, que teve o nome de Carabo. A produção deste não vingou, mas muitas de suas soluções ressurgiriam mais tarde em um outro projeto, o Lamborghini Countach, com o qual guarda boa semelhança.
Apenas 19 unidades do modelo foram produzidas no Brasil e uma delas está em Bauru com o casal, que o comprou há cerca de um mês em São Paulo. “Foi a realização do maior sonho da minha vida. Iguais a esse existem mais 18 no mundo; um está em Miami, outro em Roraima e três no Rio de Janeiro, enquanto os restantes encontram-se espalhados pela Capital de São Paulo. O único do Interior é o meuâ€, afirma Márcio, com orgulho.
É impossível não notar o Hofstetter, pois trata-se de um veículo literalmente “fora-de-sérieâ€. De convencional somente o design esportivo, ressaltado pelo capô em forma de cunha. No restante, não faltam diferenciações. A começar pelas enormes janelas laterais, que deixa o corpo de seus ocupantes quase totalmente à mostra. A carroceria possui cortes retos e perfil baixo e as portas abrem para cima, como duas asas de gaivota.
Por dentro, o Hofstetter, que possui lugar apenas para dois ocupantes, do casal bauruense só não conta com o velocímetro original. No resto, lá estão os grossos carpetes subindo pelas laterais das portas, volante acolchoado e ar-condicionado para fazer seus passageiros esquecerem que as janelas não abrem.
O motor é um 1.8 a álcool do Gol GT, que fica instalado entre eixos atrás do motorista. A suspensão é o resultado de uma combinação inusitada: na frente a de um Chevette e na traseira a do Passat. Os freios são a disco nas quatro rodas e os pneus possuem dimensões dignas para um esportivo: 225/55 VR13.
História de amor
A história de amor do casal com o Hofstetter iniciou-se quando ambos ainda nem se conheciam. O então jovem Márcio, na época com 20 anos, leu uma reportagem em uma revista nacional especializada em automóveis que trazia o test-drive do Hofstetter. Resultado: paixão à primeira vista. “Me apaixonei pelo carro, negociei a revista com um amigo e a guardei até hoje, pois sempre achei que um dia teria um veículo igualâ€, afirma Márcio.
Entretanto, acrescenta ele, os anos foram passando e o modelo acabou ficando um tanto “esquecido†por Márcio. “Além de poucas unidades terem sido fabricadas, quem as tinha não vendia, Por isso, o carro foi ficando cada vez mais distante para mimâ€, revela o bauruense.
O tempo passou e os dois acabaram se conhecendo e iniciando o namoro. Mas, graças a uma mera brincadeira entre o casal, o desejo pelo automóvel foi reacendido em Márcio. “Estávamos assistindo a um filme que mostrava um Porsche 911. A Paula gostou do carro e disse que iria comprar um igual para passear nos finais de semana. Falei que se fosse para isso era melhor comprar um Hofstetterâ€, relembra ele.
A partir deste momento, o Hofstetter passou a dominar as ações e o cotidiano da vida do casal, que iniciou uma “batalha†incansável pelo modelo. “Queria mostrar o carro para ela, mas não encontrava a revista. Procurei na internet e descobri um site dedicado a ele. Ela gostou e passou a idealizar a compra dele junto comigo. Resolvi entrar em contato com o Mário Hostetter, que tinha três, mas não vendia nenhum.â€
Entretanto, o empresário forneceu o telefone de um rapaz de São Paulo que talvez topasse comercializá-lo. Era o início de uma longa negociação.
Primeiras voltas
A chegada de Márcio a Bauru com o Hofstetter, trazido na carreta de uma F-4000, mereceu até registro fotográfico. Um dia depois, após alguns ajustes no câmbio, o carro já estava na estrada com destino a Itápolis. O objetivo era mostrá-lo ao filho de Márcio que estava na cidade.
Entretanto, por ser um “showcarâ€, o modelo chamou a atenção até mesmo da Polícia Rodoviária. “Fomos parados por eles e pensei que tivesse excedido a velocidade. Entretanto, os guardas queriam mesmo é ver o automóvel e saber seu nome, o motor e o combustível utilizadosâ€, conta Paula.
As primeiras voltas no carro, segundo o casal, exigiram certa adaptação às dimensões e aos comandos, mas sobretudo aos olhares curiosos. “Temos de ter jogo de cintura e muita irreverência para sair com ele, pois somos vítimas constantes da curiosidade públicaâ€, ressalta Márcio.
Ele realmente não exagera. Ao ser levado para uma sessão de fotos em frente ao Parque Vitória Régia, o Hofstetter despertava a atenção de quem o avistava. Crianças e adultos se aglomeraram em volta do modelo para conhecê-lo de perto. Carros chegavam até a parar no meio da rua. Por isso, ser dono de um Hofstetter é garantia de não passar despercebido onde quer que se esteja.
Mesmo estando com o veículo há pouco mais de um mês, o casal já coleciona situações curiosas e engraçadas. “Certa vez, ao passarmos pela Getúlio, os jovens cantaram a música do Batman. Outro dia estávamos no centro de Bauru e o Márcio desceu para comprar algo. Era cerca de meio-dia na rua Primeiro de Agosto e uma pessoa chegou até a trombar em um poste de tanto ficar olhando o Hofstetterâ€, frisa Paula.
A possibilidade de vendê-lo não é sequer cogitada pelo casal. “Penso em pintá-lo, não sei de que cor ainda, e instalar o turbo. Assim que deixá-lo do jeito que quero não o venderei por dinheiro nenhumâ€, garante Márcio. Já Paula afirma ter afeto ao carro. “Não existe nada que pague a sensação de tê-lo na garagemâ€, finaliza ela.
A negociação
A ansiedade tomava conta de Márcio e Paula, que mal conseguiam dormir. De posse do endereço do dono do Hofstetter em São Paulo, o casal madrugou em pleno sábado e, às 7h15 da manhã, já batia à porta da residência na Capital paulista.
“Apesar de tê-lo acordado, o carro não estava lá. Então, ele nos levou até a casa da mãe dele, local onde estava o veículo. Naquela hora, a sensação foi de total realização, pois até então só havia visto o Hofstetter pela revista e nunca pessoalmenteâ€, destaca Márcio.
Começava ali a negociação pelo automóvel dos sonhos do casal, que mexeu com os nervos de todos. “Ele e o Márcio tremiam, pois um não queria se desfazer do carro e o outro estava doido para comprá-loâ€, ressalta Paula. “O mais engraçado é que o então proprietário repetia várias vezes a mesma coisa. Ele nos perguntava se tínhamos certeza que queríamos o veículo, pois ele o considerava uma encrencaâ€, acrescenta Paula.
Segundo o casal, ele justificou que o Hofstetter é um carro que se transforma no centro das atenções por onde passa. “Ele falou que eu era louco de trazer a namorada para vê-lo, pois revelou que estava tendo problemas com a esposa por causa do automóvelâ€, ressalta Márcio.
Como o proprietário do Hofstetter mostrava-se irredutível em sua posição de não vende-lo, Márcio e Paula retornaram a Bauru. Mas, apesar do negócio não ter sido concretizado naquela ocasião, o casal acabou vencendo-o quase que “na marraâ€. “Ele falou que não iria anunciá-lo em jornal e que se eu estivesse interessado teria de pagar uma determinada quantia, que não era barataâ€, diz o bauruense, sem revelar o valor.
Apostando nisso e confiando na insistência, Márcio efetuou uma tarefa “hercúlea†a fim de angariar recursos para comprar o Hofstetter. Para isso, vendeu uma caminhonete cabine dupla a diesel e uma motocicleta, dinheiro que juntou às economias na poupança e a um empréstimo.
“Assim, mesmo sem garantia nenhuma e mal o conhecendo, depositei em uma terça-feira o dinheiro na conta dele. Logo na sexta-feira fui buscar o carro, quando ele já havia se arrependido. Mas aí ele já era meuâ€, enfatiza ele, realizando um sonho acalentado desde a juventude.