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Nas asas da gaivota

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 7 min

Se você tivesse a chance - ou o privilégio - de optar entre uma Ferrari 2002 e um veículo nacional produzido na década de 80 para ocupar a garagem de casa, certamente sua escolha recairia pela primeira alternativa.

Entretanto, para o casal bauruense Márcio Alberto Costa e Paula Polido o veredito seria a favor do segundo. Principalmente quando o objeto do desejo em questão tratar-se de um Hofstetter, um automóvel, acima de tudo, raro e diferente.

Batizado com o nome de seu construtor, o milionário brasileiro Mário Hofstetter, o carro foi inspirado num protótipo feito na Itália sobre o chassi do Alfa Romeo 33, que teve o nome de Carabo. A produção deste não vingou, mas muitas de suas soluções ressurgiriam mais tarde em um outro projeto, o Lamborghini Countach, com o qual guarda boa semelhança.

Apenas 19 unidades do modelo foram produzidas no Brasil e uma delas está em Bauru com o casal, que o comprou há cerca de um mês em São Paulo. “Foi a realização do maior sonho da minha vida. Iguais a esse existem mais 18 no mundo; um está em Miami, outro em Roraima e três no Rio de Janeiro, enquanto os restantes encontram-se espalhados pela Capital de São Paulo. O único do Interior é o meu”, afirma Márcio, com orgulho.

É impossível não notar o Hofstetter, pois trata-se de um veículo literalmente “fora-de-série”. De convencional somente o design esportivo, ressaltado pelo capô em forma de cunha. No restante, não faltam diferenciações. A começar pelas enormes janelas laterais, que deixa o corpo de seus ocupantes quase totalmente à mostra. A carroceria possui cortes retos e perfil baixo e as portas abrem para cima, como duas asas de gaivota.

Por dentro, o Hofstetter, que possui lugar apenas para dois ocupantes, do casal bauruense só não conta com o velocímetro original. No resto, lá estão os grossos carpetes subindo pelas laterais das portas, volante acolchoado e ar-condicionado para fazer seus passageiros esquecerem que as janelas não abrem.

O motor é um 1.8 a álcool do Gol GT, que fica instalado entre eixos atrás do motorista. A suspensão é o resultado de uma combinação inusitada: na frente a de um Chevette e na traseira a do Passat. Os freios são a disco nas quatro rodas e os pneus possuem dimensões dignas para um esportivo: 225/55 VR13.

História de amor

A história de amor do casal com o Hofstetter iniciou-se quando ambos ainda nem se conheciam. O então jovem Márcio, na época com 20 anos, leu uma reportagem em uma revista nacional especializada em automóveis que trazia o test-drive do Hofstetter. Resultado: paixão à primeira vista. “Me apaixonei pelo carro, negociei a revista com um amigo e a guardei até hoje, pois sempre achei que um dia teria um veículo igual”, afirma Márcio.

Entretanto, acrescenta ele, os anos foram passando e o modelo acabou ficando um tanto “esquecido” por Márcio. “Além de poucas unidades terem sido fabricadas, quem as tinha não vendia, Por isso, o carro foi ficando cada vez mais distante para mim”, revela o bauruense.

O tempo passou e os dois acabaram se conhecendo e iniciando o namoro. Mas, graças a uma mera brincadeira entre o casal, o desejo pelo automóvel foi reacendido em Márcio. “Estávamos assistindo a um filme que mostrava um Porsche 911. A Paula gostou do carro e disse que iria comprar um igual para passear nos finais de semana. Falei que se fosse para isso era melhor comprar um Hofstetter”, relembra ele.

A partir deste momento, o Hofstetter passou a dominar as ações e o cotidiano da vida do casal, que iniciou uma “batalha” incansável pelo modelo. “Queria mostrar o carro para ela, mas não encontrava a revista. Procurei na internet e descobri um site dedicado a ele. Ela gostou e passou a idealizar a compra dele junto comigo. Resolvi entrar em contato com o Mário Hostetter, que tinha três, mas não vendia nenhum.”

Entretanto, o empresário forneceu o telefone de um rapaz de São Paulo que talvez topasse comercializá-lo. Era o início de uma longa negociação.

Primeiras voltas

A chegada de Márcio a Bauru com o Hofstetter, trazido na carreta de uma F-4000, mereceu até registro fotográfico. Um dia depois, após alguns ajustes no câmbio, o carro já estava na estrada com destino a Itápolis. O objetivo era mostrá-lo ao filho de Márcio que estava na cidade.

Entretanto, por ser um “showcar”, o modelo chamou a atenção até mesmo da Polícia Rodoviária. “Fomos parados por eles e pensei que tivesse excedido a velocidade. Entretanto, os guardas queriam mesmo é ver o automóvel e saber seu nome, o motor e o combustível utilizados”, conta Paula.

As primeiras voltas no carro, segundo o casal, exigiram certa adaptação às dimensões e aos comandos, mas sobretudo aos olhares curiosos. “Temos de ter jogo de cintura e muita irreverência para sair com ele, pois somos vítimas constantes da curiosidade pública”, ressalta Márcio.

Ele realmente não exagera. Ao ser levado para uma sessão de fotos em frente ao Parque Vitória Régia, o Hofstetter despertava a atenção de quem o avistava. Crianças e adultos se aglomeraram em volta do modelo para conhecê-lo de perto. Carros chegavam até a parar no meio da rua. Por isso, ser dono de um Hofstetter é garantia de não passar despercebido onde quer que se esteja.

Mesmo estando com o veículo há pouco mais de um mês, o casal já coleciona situações curiosas e engraçadas. “Certa vez, ao passarmos pela Getúlio, os jovens cantaram a música do Batman. Outro dia estávamos no centro de Bauru e o Márcio desceu para comprar algo. Era cerca de meio-dia na rua Primeiro de Agosto e uma pessoa chegou até a trombar em um poste de tanto ficar olhando o Hofstetter”, frisa Paula.

A possibilidade de vendê-lo não é sequer cogitada pelo casal. “Penso em pintá-lo, não sei de que cor ainda, e instalar o turbo. Assim que deixá-lo do jeito que quero não o venderei por dinheiro nenhum”, garante Márcio. Já Paula afirma ter afeto ao carro. “Não existe nada que pague a sensação de tê-lo na garagem”, finaliza ela.

A negociação

A ansiedade tomava conta de Márcio e Paula, que mal conseguiam dormir. De posse do endereço do dono do Hofstetter em São Paulo, o casal madrugou em pleno sábado e, às 7h15 da manhã, já batia à porta da residência na Capital paulista.

“Apesar de tê-lo acordado, o carro não estava lá. Então, ele nos levou até a casa da mãe dele, local onde estava o veículo. Naquela hora, a sensação foi de total realização, pois até então só havia visto o Hofstetter pela revista e nunca pessoalmente”, destaca Márcio.

Começava ali a negociação pelo automóvel dos sonhos do casal, que mexeu com os nervos de todos. “Ele e o Márcio tremiam, pois um não queria se desfazer do carro e o outro estava doido para comprá-lo”, ressalta Paula. “O mais engraçado é que o então proprietário repetia várias vezes a mesma coisa. Ele nos perguntava se tínhamos certeza que queríamos o veículo, pois ele o considerava uma encrenca”, acrescenta Paula.

Segundo o casal, ele justificou que o Hofstetter é um carro que se transforma no centro das atenções por onde passa. “Ele falou que eu era louco de trazer a namorada para vê-lo, pois revelou que estava tendo problemas com a esposa por causa do automóvel”, ressalta Márcio.

Como o proprietário do Hofstetter mostrava-se irredutível em sua posição de não vende-lo, Márcio e Paula retornaram a Bauru. Mas, apesar do negócio não ter sido concretizado naquela ocasião, o casal acabou vencendo-o quase que “na marra”. “Ele falou que não iria anunciá-lo em jornal e que se eu estivesse interessado teria de pagar uma determinada quantia, que não era barata”, diz o bauruense, sem revelar o valor.

Apostando nisso e confiando na insistência, Márcio efetuou uma tarefa “hercúlea” a fim de angariar recursos para comprar o Hofstetter. Para isso, vendeu uma caminhonete cabine dupla a diesel e uma motocicleta, dinheiro que juntou às economias na poupança e a um empréstimo.

“Assim, mesmo sem garantia nenhuma e mal o conhecendo, depositei em uma terça-feira o dinheiro na conta dele. Logo na sexta-feira fui buscar o carro, quando ele já havia se arrependido. Mas aí ele já era meu”, enfatiza ele, realizando um sonho acalentado desde a juventude.

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