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Trabalho é visto como única chance

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 4 min

A falta de oportunidades na vida, segundo os diretores do presídio, é a principal causa dos desajustes sociais que geram a criminalidade. Eles apontam que no caso de Bauru é pequeno o percentual de detentos que “nasceram para o crime”.

“Ao recebermos o preso, estudamos e trabalhamos o seu perfil e verificamos se ele consegue vir para fora do presídio sem fugir, mas essa liberdade só é adquirida com o tempo e tem uma série de requisitos”, explica Sílvio Requena, diretor de Produção da P2. Ele destaca que muita gente que habita o complexo jamais teve boas chances na vida, principalmente os condenados vindos da Capital. São filhos de famílias desagregadas, sem religiosidade ou afeto.

“A porta fechada lá fora fez com que ele cometesse o crime e viesse para cá. Aqui, muitas vezes ele tem a sua única oportunidade de sobrevivência, por isso se agarra ao pouco que conseguiu. Se ao sair as portas estiverem fechadas, faz-se a bola de neve, um ciclo vicioso. É isso que precisa ser trabalhado. Nós proporcionamos meios de sobrevivência mas a sociedade cerra as portas. Ele já cumpriu a pena ordenada pela lei, mas será eternamente condenado pela justiça moral da sociedade.”

A maioria dos presos que trabalham fora do presídio já foi agraciada com o regime semi-aberto. Mas não se transferiram por falta de vagas, problemas pessoais, ou porque querem continuar na penitenciária pelo fato de estarem trabalhando.

Liberdade?

“Eu tenho preso que não quer ir embora. Ele só quer sair se for de livramento condicional ou de liberdade plena. Para continuar condenado no semi-aberto, muitos pedem à Vara de Execução para que continuem aqui”, conta Requena.

Nesta condição, existem na P2 quase 50 detentos, que optam por permanecer e se profissionalizar dentro do presídio à espera de uma vaga no mercado. Muitos almejam e até conseguem vagas nas unidades externas das indústrias para as quais trabalhavam no cárcere.

É o caso do paulistano J.S.V., que ganhou o semi-aberto e solicitou sua remoção para o IPA de Franco da Rocha, mas como não há vaga optou por ficar na penitenciária. “Aqui pelo menos eu tenho uma chance de trabalhar. Agora vou fazer um curso e quero ver se consigo ficar na empresa. Já consegui duas saídas para ver minha família. Mas eu vou ficar aqui até o fim”, conta o serralheiro com 26 anos de profissão, que começou a trabalhar na área externa ainda no regime fechado.

Um soldador santista que veio para a P2 há seis anos, desde fevereiro de 1999 trabalha na área externa do presídio. Já perdeu dois semi-abertos, um livramento condicional e uma série de benefícios para ficar trabalhando numa indústria de pré-moldados. “Vale a pena o esforço de ficar aqui enquanto for possível” afirma.

A facilidade não é estímulo à fuga para quem trabalha na área externa. Muitos deles afirmam que se fugirem vão acabar voltando ao local e colocando todas as conquistas obtidas a perder. Muito além das celas, estão presos pela própria consciência.

Um exemplo é o jovem G., de 21 anos, que está na P2 há quatro meses e tem que cumprir 5 anos e 7 meses de pena. Sua função numa fábrica de estatuetas é pintar imagens de Santa Rita, a padroeira das causas impossíveis.

Quando questionado sobre a sua causa impossível, responde com a voz embargada: “A liberdade. Eu tenho fé em Deus, agora trabalho e vou cumprir minha pena. Mas eu vou ser preso para sempre... Mesmo quando sair daqui.”

Jogador investe na P1

O ex-volante do Palmeiras que hoje joga no São Caetano, Claudecir de Aguiar há um ano montou na penitenciária 1 uma fábrica de brinquedos ecológicos em pinus. Ele emprega dez detentos que são supervisionados por seu sogro bauruense, o marceneiro aposentado Odair de Carvalho. Juntos pretendem ampliar a produção de mil caminhões por mês para uma linha de jogos educativos.

Toda vez que vem a Bauru, o jogador de Barra Bonita que aprendeu futebol com Baroninho e foi levado à primeira divisão pelo ex-técnico do Norusca Luiz Carlos Martins, fiscaliza o trabalho de seus funcionários pessoalmente.

“Minha intenção é dividir com que não teve oportunidade, um pouco da oportunidade que tive e dos recursos que consegui capitalizar”, afirma Claudecir, que quando se aposentar da bola promete se dedicar ao trabalho assistencial.

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