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Cárcere abriga '4º distrito industrial'

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 4 min

São 49 empresas e 1.861 sentenciados trabalhando. Mais de 75% da população carcerária que cumpre pena no Complexo Penitenciário de Bauru (Penitenciária 2 “Dr. Alberto Brocchieri”, Penitenciária 2 “Dr. Eduardo de Oliveira Viana” e Instituto Penal Agrícola “Professor Noé Azevedo”) movimenta um parque produtivo que pode ser considerado o quatro distrito industrial da cidade.

O projeto de levar empresas para dentro dos presídios existe desde a inauguração do complexo, há 11 anos, e está inserido dentro da política de administração penitenciária. A própria política de execução moderna prega o respeito à dignidade aos direitos do homem, além de acreditar no seu potencial de aperfeiçoamento.

“O objetivo é tratar e assistir o preso e o internado, prevenindo o crime e proporcionando-lhes a reintegração à convivência em sociedade”, explica Plínio Martins Moreira, diretor técnico da divisão de Reabilitação da Penitenciária 2, onde existem 680 sentenciados de um total de 889 abrigados trabalhando nas 12 empresas e 49 frentes internas e externas. Elas envolvem desde a manutenção do prédio à confecção de produtos cuja patente foi desenvolvida dentro do presídio.

Segundo o advogado Ricardo Soubhie, que coordena a subcomissão de Assistência Carcerária da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a secretaria de Estado quer colocar em prática as propostas do Programa Nacional de Direitos Humanos, adotando medidas para a humanização das unidades prisionais visando a reabilitação do preso através da oferta de trabalho, profissionalização e educação, além do comprometimento da sociedade com a questão penitenciária. “As pessoas acostumaram a ver Carandiru, mas a sistemática aqui é diferente e a comunidade não tem esse conhecimento.”

Pensando na mudança de comportamento e qualidade de vida, existem nos presídios de Bauru agremiações esportivas, núcleos de ensino e hortas sem agrotóxicos cultivadas pelos detentos, em parceria com a Secretaria municipal da Agricultura. As hortaliças fazem parte da alimentação dos presos, são vendidas para os funcionários e encaminhadas para entidades assistenciais. O dinheiro arrecadado vai para a compra de sementes e pecúlio dos sentenciados.

Já a remuneração dos presos que trabalham nas indústrias, varia de R$ 40,00 a R$ 150,00. Em média, recebem do salário mínimo. Quem trabalha há bastante tempo e cuida de uma linha de produção chega a ganhar bem mais que o mínimo.

“Nós procuramos não trabalhar com chefe. Estamos tentando adaptar um modelo de não-existência de subordinação. Um representante da empresa dá as coordenadas e, mesmo alguém tendo uma certa liderança pela produtividade, nós procuramos não mexer com hierarquia entre eles”, explica Plínio.

Sucesso

É possível encontrar nas penitenciárias hortas, lavanderias, confecções, metalúrgicas, fábricas de brinquedos, bolas, artefatos de madeira, pré-moldados, artigos em couro, descartáveis e até imagens de santos e símbolos de todas as religiões.

O empresário Manoel Guimarães Neto, dono de uma fábrica de produtos descartáveis, ressalta que a parceria com a P2 nasceu há dois anos e meio. “Não é realmente muito fácil montar uma empresa aqui dentro. A grosso modo, a seleção é a nossa maior dificuldade. Mas se você faz um trabalho de base, vê que a facilidade de trabalhar com eles é muito grande. Alguns empresários não conseguiram manter o trabalho. Mas não acredito nisso”, aponta.

Foi no presídio que ele desenvolveu a patente de um cinzeiro descartável utilizado nas grandes redes de hotel e fast-food, como Habbib’s e McDonald’s.

Neto já teve 48 funcionários, hoje tem pouco mais de 20 trabalhadores, mas anuncia para o próximo ano a ampliação de sua fábrica na área externa da penitenciária.

O artista plástico Gastão Debreix, que há seis anos desenvolve trabalho com presidiários ministrando oficinas de marchetaria e serigrafia na penitenciária de Pirajuí, abandonou seu ateliê no centro de Bauru e virou “empresário” na P2.

Desde janeiro, ele trabalha com dois funcionários na construção de um barracão e há 40 dias iniciou sua produção. Os sentenciados aprendem a lixar, colar e montar tampas e fundos de caixas confeccionadas com pequenos pedaços de madeira de diferentes formas e cores.

O material produzido em Bauru é vendido em lojas de decoração em São Paulo. Aliás, o trabalho de Debreix é citado nas grandes revistas femininas e de arquitetura.

Apesar de ter perdido o glamour dos amigos no ateliê, o telefone e o computador, o artista não lamenta a troca. Diz que é muito viável ter uma oficina no presídio e ensinar seu ofício a outras pessoas. “Mas com o tempo espero reverter este quadro, trazer os amigos e fazer novos artistas.”

Marco Antônio Greggio é um dos mais antigos empresários que acreditaram no trabalho dos detentos. Ele tem um reflorestamento no Mato Grosso e queria uma alternativa para as sobras de madeira. Começou com a produção de caixas para frutas, depois vieram os paletes e agora estuda um novo passo.

“Os sentenciados têm interesse em aprender uma profissão, e não só na remuneração. Não tive dificuldade nenhuma. Os presos são respeitadores e no caso da minha empresa têm o prazer de trabalhar fora das grades”, afirma.

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