Política

Partidos carecem de posições ideológicas

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 2 min

A carência de uma posição ideológica clara e definida nos partidos brasileiros faz com que o eleitorado perca a confiança e caminhe para a desilusão política.

Para a historiadora Sônia Mozer, essa constatação pode ser comparada de maneira simples.

â€œÉ muito difícil uma criança corintiana tornar-se um adulto palmeirense. Somos firmes na escolha do nosso time de futebol. Perdendo ou ganhando, nós estamos com ele”, exemplifica.

Ela afirma, porém, que essa fidelidade em relação ao partidos políticos não existe.

“Nossos partidos não têm essa definição ideológica e nem existe essa fidelidade partidária. É impossível que uma pessoa seja de esquerda hoje, de direita ontem e de centro amanhã”, diz.

Sônia avalia que o grande eleitorado não consegue fazer essa leitura política.

“A política é muito personalista. As pessoas estão acostumadas a votar não em partidos, idéias ou programas, mas em pessoas.”

Ela não acredita que uma eventual reforma político-partidária consiga inverter a atual situação.

“Uma definição ideológica dos partidos é mais importante do que uma reforma partidária que diminua ou aumente o número de legenda.”

A historiadora defende que, “aparentemente”, a definição de esquerda e direita perdeu força após o esfacelamento da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

“Entretanto, ainda continua a haver posições de mudanças e posições conservadoras, que vulgarmente você pode chamar de esquerda e direita”, avalia.

Crise de identidade

Já o historiador João Francisco Tidei de Lima acha que o País atravessa uma crise de identidade política. “O Brasil não tem uma tradição democrática. Nossa tradição é oligárquica e autoritária”, opina.

Ele diz que o funcionamento dos partidos brasileiros com suas respectivas plataformas, desde à esquerda até a direita, foi muito breve.

“Ele se deu durante intervalos entre regimes autoritários, de uma forma sem continuidade, atropelado por golpes, crises institucionais.”

O historiador diz ter dúvidas de que a bagunça ideológica que assola o País tenha como protagonista a globalização.

“Muitos falam da globalização, encarada como uma nova divisão internacional do trabalho, falam das fronteiras nacionais que estão sendo ignoradas, que o nacionalismo está em baixa”, analisa.

Mas Lima lembra que as últimas eleições na França foram marcadas “profundamente” pela ideologia.

“Foi uma eleição ideologizada. Então, eu discordo de que as ideologias não existem mais.” Ele complementa argumentando que a França também está sob os efeitos da globalização e é de primeiro mundo.

“A França não está fora da globalização. E no entanto, as eleições francesas revelaram uma profunda ideologização.”

Para o historiador, não é possível atribuir o atual quadro político brasileiro a uma nova realidade. “Eu acho que o principal problema é a falta de uma cultura democrática que nós não temos.”

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