Dizer que o Brasil possui uma vocação agroindustrial já não é mais novidade. No entanto, nossos governantes têm ainda revelado um desconhecimento do que isso realmente significa.
Persiste uma certa síndrome de jeca-tatu, cujo sintoma é o entendimento da agricultura como um setor marcado pelo atraso e pela baixa produtividade. Há, pois, uma desconexão entre a percepção e a realidade.
Os números são eloqüentes. Este ano os agricultores devem obter receita superior ao período anterior em R$ 10 bilhões e a renda agrícola está estimada por consultorias especializadas em R$ 46 bilhões, 25% a mais que os R$ 36,6 bilhões de 2001. Hoje, os indicadores econômicos da agricultura já são fantásticos.
A balança comercial agropecuária registrou saldo de US$ 14,74 bilhões de janeiro a dezembro de 2001, 28% a mais que o saldo do período anterior, de US$ 11,43 bilhões. Nesse mesmo espaço de tempo as exportações cresceram 14,73% em dólar e 30,95% em volume, resultando respectivamente em US$ 19,13 bilhões e 55 milhões de toneladas. Numa economia com números pífios de crescimento, a agricultura cresceu 8,65% em 2001. Nesse período vale destacar a performance do complexo soja, açúcar, couro, milho e algodão.
No primeiro trimestre de 2002 o PIB agropecuário cresceu 4,4% comparado com o ano anterior, número ainda mais expressivo ao se considerar que a indústria amargou queda de 3,9% em igual período.
Esses números, porém, não podem nos iludir. O setor tem um potencial muito maior e é preciso pensar o amanhã. O futuro do agronegócio esbarra em três questões que são essenciais: financiamento, tecnologia e infra-estrutura.
Em relação ao financiamento não é possível conviver com a taxa de juros que se pratica no Brasil. As taxas de financiamento agrícola são escorchantes e não se comparam com o que é praticado para financiar o setor em outros países do mundo.
No campo tecnológico nós temos ainda uma diferença de equipamentos, de cultivares, de sementes e defensivos muito acentuada em relação aos países desenvolvidos. A nossa geração, tecnologicamente, ainda está muita atrasada.
No que se refere à infra-estrutura temos grandes carências nos setores de transporte e armazenamento, o que causa um custo adicional e compromete nossa competitividade.
Some-se a tudo isso uma falta de agressividade do governo no sentido de abrir mercados e de negociar duro nos fóruns internacionais com o objetivo de derrubar as barreiras protecionistas para os produtos agropecuários.
Está aí traduzida a realidade a ser transformada para que o agronegócio vença o desafio do crescimento. E estamos falando do único setor com rápido potencial de crescimento, acompanhado de geração intensiva de empregos e o que é melhor, sem gerar pressão inflacionária.
Não tenho dúvidas de que os percalços a serem enfrentados são pequenos diante das potencialidades: o nosso agricultor é empreendedor e criativo como nenhum outro; os recordes de produtividade se sucedem ano a ano; temos avançado com a iniciativa privada, quer seja construindo hidrovias para escoamento da safra da soja, estruturando reservas estratégicas de álcool combustível ou demonstrando uma capacidade de preencher estes vazios estratégicos com o objetivo de ganhar produtividade, mercado e agregar valor aos produtos.
Sou um entusiasta do setor agrícola e não tenho dúvida de que neste momento crucial da história, onde se desenha uma nova ordem econômica internacional, o Brasil deve mais do que nunca reafirmar o agronegócio como o seu passaporte internacional para a integração, o desenvolvimento e a prosperidade. (O autor, Arnaldo Jardim, é deputado estadual)