Economia & Negócios

Crescimento da economia não será imediato, dizem analistas

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

O acordo firmado pelo governo brasileiro com o Fundo Monetário Internacional (FMI) já fez com que, ontem, o dólar recuasse um pouco - fechando em R$ 2,91 para venda -, as bolsas de valores registrassem alta e o risco Brasil tivesse queda. Mas para a população em geral, os reflexos positivos ainda não serão percebidos de imediato. Analistas consultados pela reportagem orientam cautela para que não se empregue uma confiança “exagerada” na retomada de crescimento da economia antes do mercado dar sinais reais de estabilidade.

Para os consumidores, a orientação do economista Said Yusuf Abu Lawi é de que o comprometimento da renda com prestações e compras a prazo seja evitado. Segundo ele, o “componente político” ainda tem peso muito grande sobre a situação econômica do País.

“Não se deve esquecer que, até o final do ano, está liberada a utilização de apenas US$ 6 bilhões do valor total do acordo (US$ 30 bilhões). Isso pode não ser suficiente para acalmar o mercado. O Banco Central já havia dito que seriam necessários US$ 15 bilhões (neste período) para deixar a situação um pouco mais tranqüila. Portanto, para o cidadão comum recomenda-se muita cautela. A situação ainda está muito sujeita a especulações e isso influencia demais o mercado”, diz Lawi.

De acordo com ele, diante do cenário de cautela macroeconômica que ainda predomina, a população, mais ainda, também deve agir com cautela. Além de orientar para que as pessoas evitem fazer compras a prazo, o economista diz que, se elas forem inevitáveis, que sejam feitas com parcelas fixas. “O período continua sendo de indefinição. É preciso aguardar as eleições”, observa Lawi.

Estabilização lenta

O economista e consultor Carlos Roberto Sette reforça que o mercado ainda levará alguns dias para se estabilizar. Alguns analistas já falam na possibilidade da taxa básica de juros da economia (Selic) - que está em 18% ao ano - registrar uma pequena queda. Na opinião de Sette, os primeiros efeitos em torno disso seriam muito lentos, começando com uma possível redução em cerca de 0,25%. Teoricamente, tudo isso levaria os bens a prazo a ficarem mais baratos.

“Alguns analistas acreditam que, até dezembro, a taxa básica de juros chegue a 17%. Mas ainda existem situações, principalmente o quadro político de sucessão presidencial, que ainda vão influenciar nesse possível resultado. Porém, é fato que, no momento, existe clima para o governo baixar essa taxa. Via de regra, quando o dólar se estabiliza os juros podem cair, porque não existe o perigo de fuga de capitais. Mas a cautela é fundamental nesse momento. É preciso esperar o mercado dar sinais sólidos de recuperação”, orienta Sette.

De acordo com ele, a teoria diz que, se a taxa básica de juros cai, diminui o custo financeiro das empresas que tomam capital de giro nos bancos e o valor das parcelas dos bens comercializados a prazo também cai. “Se a taxa de juros é menor, evidentemente o preço da parcela do financiamento dos bens a prazo fica menor. Esse cenário existirá, desde que o mercado comece a sinalizar que compreendeu o acordo e que existe uma certa estabilidade dos preços. Só assim a retomada do crescimento econômico ficará palpável”, afirma o economista.

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O acordo

Para o economista e consultor Carlos Roberto Sette, o acordo firmado entre o governo e o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi positivo, pelo fato do Brasil estar enfrentando sérios problemas de fluxo de caixa em dólar. Isso quer dizer que faltavam dólares no País para as empresas pagarem seus compromissos. As subidas da moeda americana resultaram na alta de uma série de produtos, desde o pão - já que grande parte da farinha de trigo é importada -, até matérias-primas industriais, plástico, entre outros.

“A economia é uma ciência social, e não exata, porque depende muito de expectativas. Com o acordo, as especulações recuam e o Brasil fica com um caixa em dólar para poder utilizar. Isso é benéfico para a economia brasileira, porque o País precisava superar aquela fase de turbulência. Nesse período, as empresas tiveram que pisar demais no freio, segurando investimentos e compras. Não se podia arriscar uma atitude mais ousada. A partir de agora, as linhas de crédito para exportações podem ser retomadas e isso gera bons resultados para o País”, afirma Sette.

Segundo ele, com as exportações sendo facilitadas aos empresários, as taxas de emprego podem ser, pelo menos, mantidas nesse setor. Outra conseqüência é que, com o aumento das vendas externas, a balança comercial pode voltar a registrar superávit. Essa é considerada a entrada mais “saudável” de dólares no País, que ocorre através de produção interna, e não de empréstimo.

Outra situação, apontada pelo economista e delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon) Reinaldo César Cafeo, é que o acordo faz com que a confiança no País aumente. “O raciocínio é simples. Se o FMI está disposto a injetar esse volume de recursos no País, é porque confia na economia do Brasil. Portanto, isso serve de estímulo para evitar a saída de dólares e ainda pode atrair novos investimentos”, avalia.

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