A expressão “Ele é como um pai para mim!†não só diz muito sobre uma determinada relação com um grande amigo, mas é também uma das provas que ser pai não é somente um fenômeno biológico (gerar um ser), mas principalmente um fenômeno ético e cultural. Na verdade, ser pai é um relacionamento e este é construído e definido através de papéis e funções que são determinadas pela cultura e mentalidade do grupo social.
Por isso, a figura do “paizão†está sujeita a transformações dependendo da época e do local em que se vive. Ser pai no século passado não significava o mesmo que no início deste novo milênio. Sendo também um fenômeno cultural, o ser pai é vivido hoje de forma diferenciada nos diversos cantos do mundo apesar da atual globalização e virtualidade on-line.
Não há necessidade de ir para as tribos indígenas da Amazônia ou para países orientais, como Índia ou Japão, para encontrarmos diferentes formas de ser pai. Com toda a certeza, a alegria de ganhar um filho é normalmente a mesma tanto em uma cultura germânica (Inglaterra, Alemanha, Holanda ou Países Escandinavos) como em uma cultura latina (Portugal, Espanha, Itália ou Brasil).
Mas, a partir daí, começam a surgir as diferenças éticas que acabam caracterizando diferentes formas de ser pai. Por exemplo, a responsabilidade do pai em relação a seus filhos parece ser no Brasil mais prolongada do que na Alemanha. Os pais alemães sentem-se responsáveis pelos filhos durante sua infância e parte da juventude. Mas, quando os filhos atingem os seus vinte poucos anos já são convidados pelo pai a encontrarem seu próprio canto.
Aqui o tema ainda não é casamento, mas sim independência. Normalmente, um jovem de vinte e poucos anos é visto pelos pais como adulto e portanto não deve continuar morando junto com os pais. Já no nosso mundo latino a juventude parece ser mais longa, o que faz com que os pais sintam-se responsáveis pelos filhos por muito mais tempo. É claro que a situação sócio-econômica acaba levando a isso, pois quando o filho está desempregado o paizão é talvez a única ajuda.
Mas, se na Alemanha a independência do filho em relação ao pai chega mais cedo, o tornar-se pai demora um pouco mais. O jovem alemão normalmente torna-se pai depois dos trinta. A tendência na sociedade alemã é a dos jovens viverem sozinhos durante um bom tempo para depois resolverem se casar. Para o jovem é prioridade o curso universitário ou profissionalizante, as muitas viagens pelo mundo (dentre os europeus os alemães são os que mais investem em viagens) e a estabilidade financeira.
Outra forte tendência é a de namorados viverem juntos e só depois de alguns anos (cinco ou sete anos), quando há uma segurança na relação, tomarem a decisão de ter um filho. Aqui sim, entra em questão o tema casamento. Bem antes da gravidez é, então, oficializada a relação dos dois com o casamento civil e religioso. No nosso mundo latino ser pai chega muito mais cedo, apesar de muitas vezes os filhos não terem ainda a necessária maturidade e independência em relação aos pais (às vezes até a aposentadoria do paizão entra em jogo). Em muitos casos uma gravidez não planejada é a razão para o início de uma vida a dois. Por se casarem normalmente depois dos trinta, os alemães geralmente possuem poucos filhos (a média é de duas crianças), já no mundo latino famílias numerosas e a falta de planejamento familiar ainda predominam.
Outra diferença do ser pai é a expectativa em relação ao futuro dos filhos.
Como os alemães estabelecem bem cedo uma independência entre pais e filhos,os primei ros parecem não criar expectativas em relação ao futuro dos últimos.
Normalmente as decisões dos filhos sobre suas vidas são aceitas com grande liberdade pelos pais. Já na nossa mentalidade o ser pai possui a tendência de influenciar no futuro dos filhos, tornando-se este muitas vezes uma forma de realização dos sonhos dos pais. Se os pais alemães exigem dos filhos que tenham cedo sua independência, quando atingem a velhice não admitem também a dependência deles em relação aos seus filhos.
O número de asilos na Alemanha é impressionante. Apesar de serem condomínios de muito conforto, a solidão porém é companheira do dia-a-dia. Sem dúvida alguma, o aforismo de Marx não deixa de ser uma verdade: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, é o seu ser social que determina a sua consciência.†O importante é não esquecer que este ser social não é absoluto, mas sim mutável. Desejo a todos os pais as bênçãos do Deus da Vida.