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'Casos e A...Casos da Adoção'

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 9 min

A psicóloga Maria José Barbosa de Gobbi lançou ontem seu livro “Casos e A...Casos da Adoção”. Há 25 anos trabalhando com pais e filhos adotivos, ela decidiu escrever um pouco da experiência que tem para orientar famílias que têm casos de adoção.

A principal novidade do livro é tratar o tema da adoção sob o prisma de “Pinóquio”, a primeira fábula da literatura infantil a ter um personagem que é filho adotivo, imortalizada pelo filme de mesmo nome produzido pelos estúdios de Walt Disney, na década de 40.

A fábula conta a história de um boneco de madeira, criado e adotado por Gepeto, que deseja ser criança de verdade. “Assim como o processo de adoção na vida real, a escolha das características do boneco de madeira durante sua fabricação e até a transformação dele em uma criança espelham etapas da adoção. O marceneiro Gepeto é um pai adotivo”, interpreta Maria José, que é orientadora do Grupo Amigos da Vitória, que reúne pais adotivos de Bauru.

Escrito em linguagem simples e objetiva, o livro tem como público-alvo pais, filhos e profissionais que vivenciaram ou vivenciam a experiência da adoção. “A escolha de uma linguagem mais acessível teve por objetivos orientar os leitores sobre os principais pontos relacionados à adoção, algo que envolve muito medo, dúvidas e curiosidades, e desmitificar o papel do terapeuta como um profissional elitizado”, afirma Maria José, que já atendeu mais de 40 casos de crianças adotadas.

Parte dos casos desses pacientes são resgatados por eles mesmos a partir de histórias que escreveram no consultório e estão publicadas no livro. “A idéia foi mostrar por meio da visão da criança adotiva como ela trabalha o seu universo de sentimentos”, explica a autora.

Leia a seguir a entrevista completa com a psicóloga Maria José:

Jornal da Cidade - Você acaba de lançar um livro sobre adoção. Como surgiu essa idéia? Maria José – A idéia do livro surgiu com 25 anos de experiência em psicologia clínica e com os vários casos de adoção que eu atendi ao longo desta jornada, claro que os “A ... Casos”, como eu coloco no meu livro, que são os chamados divinos, que nos fazem realizar sonhos que não sabemos explicar o porquê; eu explicaria dizendo que este livro surgiu da vontade de deixar escrito e passar para as pessoas um pouco do que sei quando não estiver mais aqui.

JC - O livro é direcionado apenas para famílias que têm casos de adoção ou é importante para todas as pessoas? Maria José – O livro é importante para todas as pessoas, porque fala de amor, doação, sentimentos que hoje o mundo está precisando, para reavaliar sua própria condição de humano e para pais e filhos adotivos e profissionais das áreas de psicologia, serviço social e direito que trabalham com esta clientela. É um livro simples para pessoas que ainda conseguem ver o mundo através dos contos de fadas que tão bem retratam o nosso cotidiano.

JC - Você usa a fábula da Disney do Pinóquio para fazer um paralelo com o livro. Como acontece isso? Maria José – O Pinóquio é um filho adotivo, e o que me encantou nesta fábula foi o amor do Gepeto em construir um filho de madeira, já que não teria um filho biológico. A transformação através do amor de Gepeto, do pedaço de madeira em humano, a relação afetiva do pai e do filho, mesmo diferentes. O despojamento do Gepeto em não ter nenhum tipo de preconceito em relação ao filho. A luta de Pinóquio em corresponder às expectativas do pai indo à escola e experimentando todos os preconceitos por não ser igual aos outros meninos. É a transformação do Pinóquio em menino de verdade, quando reconhece o amor do pai, indo ao encontro deste no fundo das águas para salvá-lo. O ápice do encontro entre pai e filho adotivo.

JC - As crianças também devem ler o livro ou é mesmo só para os pais? Maria José – Todas as crianças devem ler o livro, independente de ser adotivo ou não, pois ao lê-lo compreenderá e fará parte do universo mágico de ser ou ter um irmão adotivo.

JC - No livro também há histórias escritas por crianças que você atendeu no consultório. Como é esta parte de seu lançamento? Maria José – Contado. No “Contos E Contos” eu quis compartilhar com pais e filhos adotivos a experiência, a vivência e o aprendizado que tivemos durante esta nossa caminhada. Estes contos são como se cada pai e cada criança tivesse estado comigo durante todas as noites e dias em que eu passava escrevendo.

JC - Sabemos que a maioria dos casos de adoção são positivos, mas já tivemos conhecimento de casos que, por algum motivo, foram traumáticos. O livro aborda esses dois aspectos na relação entre pais e filhos adotivos? Maria José – Eu não abordo esta questão porque não avalio a adoção sobre aspectos positivos e negativos. Penso que pais, independente de serem adotivos ou não, sempre enfrentarão dificuldades quanto à questão da educação, pois educar, hoje, significa estar preparado para os dois lados, tanto positivo quanto negativo. Quanto a isto, todos os pais têm que passar por esta experiência, mesmo que os filhos sejam biológicos. Encaro com preconceito, e mito, dividir, classificar, adoção em traumática e não traumática.

JC - Onde os interessados podem encontrar o livro e qual é o preço? Maria José – Os livros estarão à venda na Javoli e em outras livrarias de Bauru, no site do livro. E as pessoas que não tiverem acesso às livrarias e ao site, poderão adquirí-lo através do telefone 230-6096, com Itamar.

JC - Como você começou a trabalhar com pais de filhos adotivos? Maria José – Comecei a trabalhar com pais e filhos adotivos, atendendo o primeiro caso, e me questionando como, através dos contos de fadas, eu poderia entrar no mundo da criança adotiva, foi uma experiência fascinante, que até hoje (25 anos de profissão) cada vez que entrevisto pais adotivos, vejo o quanto tenho de bagagem e amor para poder ajudá-los a compreender e entender o universo da criança adotiva.

JC - Na sua família, há filhos adotivos? Maria José – Não. Mas acho que logo terá.

JC - Como é trabalhar com crianças adotivas e seus pais? Maria José – Trabalhar com pais e filhos adotivos é muito gratificante porque eles chegam cheios de dúvidas, temores e questionamentos que só nós, psicólogos, conhecedores da alma humana que somos, podemos responder e amenizar essas ansiedades. Dentro da técnica da psicologia eu trabalho com ludoterapia, orientação dos pais e famílias e, claro, os contos de fadas.

JC - Quais são os principais pontos de discussão apresentados por esse tipo de paciente? Maria José – Primeiro ponto: Contar ou não. Segundo: como contar. Terceiro: Dizer se os pais biológicos são vivos ou não. Quarto: O mito de dizer a verdade para o filho adotivo e perdê-lo. Quinto: Preparar a criança adotiva para o mundo da exclusão, orientar a família para educar sem culpa a criança adotiva.

JC - Os pais devem contar a seus filhos que são adotados? Em que fase da vida isso deve acontecer? Por quê? Maria José – Os pais devem contar que os filhos são adotivos desde o momento da adoção. Se isso não acontecer, a minha experiência tem sido com crianças que iniciam a fase pré-escolar, quando precisam estar preparadas para enfrentar o mundo tal qual a fábula do Pinóquio, quando ele descobre que é diferente a caminho da escola.

JC - Há uma característica comum às famílias com filho(s) adotivo(s)? Quais são? Maria José – Não percebo características comuns em famílias adotivas porque não só os pais que são impossibilitados de ter filhos da barriga adotam. Existem pais que têm filhos biológicos e também adotam. Só uma característica me chama a atenção em famílias que adotam “o amor incondicional”.

JC - Como você vê a adoção, hoje, no Brasil? Maria José – A adoção no Brasil ainda é complexa, principalmente no que diz respeito à adoção tardia, adoção inter-racial e adoção ilegal. A maioria dos casais não quer crianças maiores de 1 ano de idade, não aceitam crianças negras ou deficientes e não querem enfrentar as filas da adoção legal porque acham que é mais difícil. O que na minha opinião é arriscado, pois eles não têm o amparo legal para legitimar esta adoção.

JC - Você acredita que ainda há pessoas que têm vontade de adotar, mas falta incentivo? Maria José – Não acredito que falte incentivo para a adoção. Quando um casal se propõe a adotar, não precisa de incentivo, mas de amor, iniciativa e orientação. Quanto à orientação, existem os grupos de pais adotivos onde esses casais são recebidos, orientados por pessoal especializado como é o caso dos “Amigos Da Vitória” de Bauru, fundado em 2001. A sede fica na rua Rio Branco, 22-26, telefone, 224-2555 e 227-2519, do qual participo como psicóloga orientando e atendendo pais que querem adotar e pais que já adotaram.

JC - Você, que trabalha diretamente com adoção, saberia dizer, aproximadamente, a quantidade de crianças adotas que temos em Bauru? Maria José – No ano de 2001 foram 21 adoções em Bauru. Nove meninas e 12 meninos.

JC - Quais os principais ou mais comuns motivos de um casal que resolve adotar uma criança? Maria José – Motivo que um casal opta pela a adoção é a impossibilidade de ter filhos biológicos e outros por amor e opção quando tem filhos biológicos.

JC - Que conselhos você daria para quem está pensando em adotar? Maria José – Adote, não tenha medo, pois ser pais tanto adotivos quanto biológicos é conhecer um universo de possibilidades boas e ruins e trabalhar essas possibilidades com amor e dedicação e paciência.

JC - Você trabalha também com o Grupo Amigos da Vitória, que reúne pais adotivos de Bauru. Como é esse trabalho? Maria José – Sim. É um trabalho de orientação com pais que estão na fila de espera para adoção, e pais que já adotaram. O grupo se reúne uma vez por mês trabalhando questões de interesse do próprio grupo.

JC - Quantos pais participam do Grupo? Maria José – Em média 50 pais.

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