Que nos desculpem os leitores, por acaso mais profundamente iludidos pela apregoação incansável das supostas insuperáveis virtudes do que tem sido denominado como democracia, aqui e em todo o mundo mas que, supomos, não passa de degradação lamentável e desrespeitosa do ideal democrático, este sim, universal e eterno. Ideal que, para ser atingido, exige, naturalmente, instituições e mecanismos aptos verdadeiramente a realizá-lo o mais e o melhor possível, descontadas as inevitáveis imperfeições resultantes da precariedade das nossas possibilidades de seres contingentes. E o que nos atrevemos designar como pantomimas são as encenações levadas a cabo, com base na confusão deliberadamente estabelecida entre mecanismos institucionais fundados em bases perigosamente equivocadas, e o ideal propriamente dito, ele sim, sagrado e universal, como já o assinalamos. Pantomimas que, alicerçadas na obrigatoriedade do voto, na verdade oferecem ao eleitorado a opção de escolha entre os candidatos que figuram em exígua lista, elaborada por cúpulas partidárias, que as impingem alegando que resultaram de convenções cujo número de participantes, se comparado a um eleitorado composto por dezenas de milhões de eleitores, só a mais rematada desfaçatez pode atrever-se a afirmar, de fato, representativo dos milhões que depois serão compelidos legalmente a votar.
Na nova pantomima em curso, o que pode ser identificado como algo que a caracteriza e diferencia de outras anteriores, é o fato de, mais do que em pleitos anteriores, a retórica dos candidatos enfatizar aspectos de, em tais aspectos de natureza econômica como resultado em tais aspectos e em outros, conduziu o nosso país e a nossa gente, o desastroso governo que agora vai chegando ao seu final, na incrível situação de comemorarem os seus corifeus, como uma vitória, a 3.ª falência, em apenas oito anos, a tanto nos conduziu à sua obstinada política em favor da banca rentista internacional. “Vitória†que acrescenta à opressão sobre o nosso povo, mais a dívida e respectivos encargos, da ordem de US$30 bilhões! É incrivelmente fantástico, mas rigorosamente verdadeiro; e tamanha é a sujeição àquela banca, a que nos conduziram, que os atuais principais candidatos, com maior ou menor habilidade, ao mesmo tempo em que lamentam o espantoso endividamento que agrilhoa e impede o nosso desenvolvimento, fazem o possível para “tranqüilizar†os implacáveis agiotas, assegurando-lhes, de uma ou de outra forma, que em seus eventuais governos “honrarão†as famigeradas dívidas e seus respectivos serviços, por meio dos quais já os principais foram pagos, não uma, mas numerosas vezes.
Até o candidato que, em pleitos anteriores, aparecia no papel de autêntico e sincero trabalhador braçal, surge agora, “produzido†por “marqueteirosâ€, como um elegante e sereno “gentlemanâ€, jogando com dados e números pertinentes à macroeconomia, com o que supõe, ou pretende, garantir-lhe o crédito de neo-â€expert†em tal domínio. Nós ousaríamos ponderar que, com isso, dificilmente fortalecerá a sua candidatura junto ao seu eleitorado tradicional e, ainda mais dificilmente, conquistará eleitores das áreas em que deseja penetrar, tanto mais que os seus dois principais adversários são economistas “de carteirinhaâ€, usam o mesmo domínio em seus discursos, sendo que um deles é um verdadeiro malabarista do discurso em “economês†o qual, somada à sua simpatia e da sua “namoradaâ€, caso vão os dois candidatos para o 2.º turno, deixarão o neo-gentleman em dificílima situação.
Não pense, por favor, o leitor, que estamos sendo parciais ou fazendo qualquer opção. Para nós, ao contrário, todos se equivalem, no sentido de que tecem as suas retóricas preservando intocadas, e não por ignorá-las, as questões realmente de fundo que vêm infelicitando o nosso e tantos outros povos. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC - www.jorgeboaventura.jor.br E-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)