Tribuna do Leitor

37 anos


| Tempo de leitura: 2 min

A bolsa dela é um autêntico “Tem de Tudo”. Contém desde notas amassadas, moedas e tíquetes de supermercado até agulhas de crochê e um pequeno canivete suíço. Mas ela não admite ninguém mexendo ali. É muito teimosa.Lembro bem de quando o nosso filho nasceu e ela não permitiu que se chamasse a mãe dela para acompanhar aquele que foi seu primeiro parto, realizado naturalmente. E ela ainda era bem jovem. Mesmo agora, ela não gosta de partilhar dificuldades nem mesmo com os amigos mais chegados, acha que cada um deve se esforçar para “ir tocando a vida”, sem incomodar os outros. E olha que temos enfrentado umas barras bem pesadas... então, quando as coisas ficaram muito, muito difíceis, enquanto eu procurei manter o equilíbrio apegando, principalmente, na minha exagerada racionalidade, ela perseverou em flexionar os joelhos em busca do auxílio divino.Penso que é por tudo isso que nossos filhos sempre querem falar primeiro com ela, quando estão com alguma dificuldade. Por exemplo, em casa, se o telefone toca e eu atendo, é quase sempre a mesma pergunta:

- “Pai, a mãe tá aí? Deixa eu falar com ela”. A minha auto-estima, às vezes, fica meio machucada mas não há como negar: seja lá qual for o assunto, a primeira instância a ser consultada é sempre ela.Ainda não a vi procrastinar uma visita para alguém que, doente, necessitasse. E nunca são visitas do tipo “de buscar fogo”, não. Sei muito bem disso, pois, às vezes, ela acaba me puxando para acompanhá-la. Procurei nas Escrituras Sagradas um personagem que pudesse ser um paradigma para o seu modo de viver.

Consegui enxergar alguma semelhança dela com uma das irmãs de Lázaro, Marta, que trabalhava enquanto sua irmã permanecia aos pés do Mestre. Aquela que - no meu entender de forma algo equivocada - é sempre mencionada nos sentido negativo, como se Jesus, com suas palavras elogiosas a Maria, estivesse condenando todos os que, além de devoção, também se dedicavam ao trabalho. (Ele não ordenou que ela parasse de fazer o que estava fazendo).

É isso, minha mulher - que não quer ver o seu nome publicado - é uma espécie de Marta, sempre discreta em seu labor.

Eu acho que sua principal virtude é a paciência, que ela tem exercido com este velho aprendiz de cristão, seu bem aventurado marido, a quem ela tem suportado durante estes trinta e sete anos de casamento. (Oscar Camaforte - RG. 3.640.192)

Comentários

Comentários