Cultura

Construção/Des-Construção

Por José dos Santos Laranjeira | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

Durante as duas últimas décadas, Lairana, Yara Martini, Gisele Aidar e eu, Laranjeira, participamos do movimento artístico local dando a conhecer ao público - cada um dentro de suas características - nossas ações, obras e conceitos que consolidaram nossas trajetórias poético-construtivas.

Desde a organização de exposições até a criação de nossas próprias obras, nossas ações e decisões estéticas estiveram sempre direcionadas à conquista do espaço e à valorização das artes plásticas no nosso meio, tanto no âmbito público como no privado.

Hoje, com a finalidade de potencializar ainda mais nossa ação, reafirmando a importância da arte e sua reflexão na sociedade, resolvemos nos reunir em um projeto comum somando nossas experiências e nossas obras, nossas inquietudes e nossas sensibilidades num diálogo franco e amistoso.

Um projeto aparentemente singelo ao tempo que ambicioso. Singelo, porque nossas obras estão pautadas precisamente pela simplicidade e espontaneidade nas estruturas, como constructo tradutor “do pensamento à materialidade”.

Ambicioso, porque desejamos superar, entre outras coisas, o sentido confuso e tangencial deste tipo de experiência, num meio tão acostumado à negligenciar a crítica, com ausência de informações fluidas e coerentes a respeito do fazer artístico.

Estamos, portanto, tentando promover uma ruptura, uma abordagem consistente e madura, ou seja, abrindo a discussão à reflexão e até o estranhamento.

Este projeto nos permitiu confrontar diretamente nossos expedientes criativos, dialogando na construção/des-construção dos elementos e fundamentos que consolidam nossas tendências estéticas pessoais, partilhando mais profundamente a experiência artística na atualidade, amplificando nossa reflexão e nosso fazer na pós-modernidade .

Mantemos o intuito de buscar sempre novos caminhos e novas soluções para nosso fazer. Mesmo quando revisitamos algumas velhas trilhas da modernidade, nossa atitude justifica-se plenamente ao constatarmos que, todos os quatro, pertencemos a gerações que vivenciaram os avatares e rupturas mais significativos da criação na segunda metade do século XX, e isto não pode, nem deve, ser negligenciado.

Em termos conceituais, partimos da reflexão dos conceitos construção / des-construção. Construção é ato; efeito, modo ou “arte” de construir. Haja visto que construir é edificar; arquitetar; formar; dar estrutura a; organizar; dispor; traçar; dispor segundo regras de sintaxe.

É precisamente estes significados que suportam a trama do nosso fazer artístico individual e coletivo. Por outra parte, o Des é um elemento compositivo que denota negação ou inversão do significado simples; ainda em algumas ocasiões o prefixo “des” não implica necessariamente uma negação, mas uma afirmação.

De outro modo, a variante Dês se aponta para o significado desde; a começar de; o que de alguma forma também vem de encontro as possíveis leituras que nosso trabalho permite.

O processo criativo que o nosso grupo desenvolveu insere-se dentro duma metódica conhecida para estimular a criatividade, há mais de 400 anos na Índia como parte integrante duma técnica de ensino indiano (Prai-Barshana) e que, desde a década de 50, foi desenvolvida por A.F. Osborn e conhecida como “brainstorming”.

Entre as vantagens e os ótimos resultados que estas técnicas oferecem, talvez seja a possibilidade do cérebro atuar em seu estado natural e em suspensão crítica para conquistar a libertação emotiva o que nos permitiu continuar a sermos nós mesmos, elementos únicos de uma trama e ao mesmo tempo um grupo, a trama.

O interessante neste processo é que, não obstante, eu ter sido quem aportou as primeiras idéias, a paternidade da obra construída recai sobre o grupo e não sobre nenhum dos indivíduos em particular. Este processo exalta a criatividade porque o poder de associação entre uma idéia e outra “ é uma espécie de corrente em dois sentidos”.

Quando um de nós apresenta uma idéia, quase automaticamente estimula a própria imaginação em direção de outras idéias, ao mesmo tempo que também estimula a imaginação de todos os demais membros.

Durante a inauguração da mostra recebemos um insistente questionamento: De quem é cada obra? Quem fez o que? Qual é o seu trabalho? As perguntas revelam claramente o estranhamento intelectual ao mostrar que o pensamento que impulsiona a apreciação dos trabalhos não coincide com o espírito da exposição, pois responde a outro paradigma que não o da obra ora apresentada.

A pesar de não termos abandonado o expediente de desenvolver os nossos trabalhos pessoais - pois isto não teria sentido já que temos personalidades fortes e definidas claramente ao longo de toda nossa prática, que vem desde a infância - procuramos hoje trilhar na produção artística a inserção de alguns parâmetros que respondem a uma nova realidade na cultura universal: a compreensão do “outro”, a busca da identidade e a multiculturalidade.

Como manifesta o professor de filosofia Charles Taylor num recente artigo – “não podemos mais nos relacionar com nossa maneira de fazer ou construir as coisas como se ela fosse óbvia demais para ser explicada.

Não pode haver compreensão do “outro” sem uma compreensão modificada de si mesmo, uma mudança de identidade que altere nossa compreensão de nós mesmos, nossos objetivos, nossos valores.”

(José dos Santos Laranjeira é escultor, designer e professor do Departamento de Artes RG da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC), na Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru.)

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