Augusto Boal, nosso famoso teatrólogo, foi vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e, certa feita, ficou indignado quando aquela casa de leis aprovou uma lei isentando companhias privadas do pagamento de impostos devidos. Pediu a palavra e bradou da tribuna:
- “Vossas Excelências que votaram essa indignidade são todos ladrões, ou são burros.â€
Recebeu uma avalanche de insultos, protestos generalizados, vindos de todas as partes. Um deles, mais comedido, disse:
- “Sua Excelência exagerou dizendo que todos que votaram a favor da isenção são todos ladrões ou são burros. Sua Excelência sabe muito bem que aqui ninguém é burro.â€
E o assunto foi encerrado, com mais ninguém conseguindo contestar tão convincente afirmativa. Esse mesmo argumento usado em tribuna tão distante, serve muito bem para ilustrar acontecimentos em tribunas bem mais próximas de nós. Afinal, só mesmo ali, em quase 90 dias não se chega a nenhuma conclusão sobre tão aviltante diferença de valores em compra de materiais. Fosse numa firma comum qualquer, em questão de dias tudo seria esclarecido, pois as evidências são claras; ou foi por ali, ou foi por aqui. Não tem como fugir disso. Ouço agora, no rádio, denúncias sobre a existência de funcionários fantasmas e não me assusto, pois com o valor dos vencimentos de dois assessores, dá-se muito bem para pagar quatro ou cinco. Dá-se para colocar esses servidores a serviço de campanhas eleitorais e servicinhos particulares. Tudo dentro da normalidade.
Transparência é necessário, sempre. Quanto mais demora existir na obtenção e identificação dos faltosos, maior será a descrença e a perda da credibilidade da classe política, como um todo. E depois, eles não querem que ocorra generalização, quando são feitas citações desairosas aos políticos. Quem também sabe de alguma coisa e não se manifesta, mesmo não participando de nada, pela simples conivência é co-partícipe. Afinal, a que conclusão podemos chegar: serão eles burros ou ladrões? (Henrique Perazzi de Aquino - RG. 9.710.205-2)