O coordenador político nacional da campanha de Ciro Gomes, João Herrmann Neto, ambos do PPS, afirmou ontem, em Bauru, que o presidenciável da Frente Trabalhista (PPS, PDT e PTB) vai para a reunião com o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) amanhã, em Brasília (DF), para ouvir e não para falar. Herrmann deixa claro que o candidato do PPS vai manter a distância necessária de qualquer compromisso com o governo.
Herrmann fez campanha ontem em Bauru para a reeleição a deputado federal, acompanhado do coordenador regional de campanha de Ciro, Duda Trevisani, de Edson Tayar e do vice-prefeito de Presidente Alves, Fernando Gil. O coordenador contou que preferiu distribuir o espaço regional da legenda mesmo sendo candidato à reeleição, garantindo duas vagas na disputa para a Assembléia Legislativa na região e uma para a Câmara dos Deputados. Contudo, Herrmann afirmou que a cidade terá grande ascendência sobre o Governo Federal se Ciro vencer as eleições. Leia os principais pontos da entrevista:
Jornal da Cidade - O senhor recebe o título de cidadão bauruense no dia 28. Como lida com o bairrismo sobre a representação regional? João Herrmann - Eu desautorizo isso e é uma prática que eu nunca comunguei. O maior passaporte que você pode dar a alguém dentro das câmaras municipais é a configuração de cidadão. O documento oficial da cidadania é feito assim. Não sou de Piracicaba, mas recebi o título de cidadão, até porque fui prefeito. Da mesma forma aconteceu em Presidente Alves, porque minha família está aqui. Em Avaí aconteceu o mesmo e, agora, em Bauru. Estou há 38 anos na vida pública. Sou de Campinas, lido bem com essas questões regionais e tenho laço com todas essas comunidades. Em relação ao título, agradeço a iniciativa do vereador Paquito e aceito porque ele comemora o que eu acredito e comungo.
JC - Qual será a postura de Ciro Gomes na reunião com o presidente FHC amanhã? Herrmann - Acho um gesto democrático e civilizado do presidente da República chamar os candidatos para conversar. Considero que ele dá um tom maduro ao seu governo, demostrando que todos os quadros são capazes de assumir a sua sucessão. A única pergunta que fica é se o Serra fosse o primeiro lugar nas pesquisas, se o presidente chamaria os outros três para conversar. Eu falo oficialmente em nome do Ciro, porque ele vai entrar calado e sair calado da reunião. Ele vai lá para ouvir o que o presidente quer dizer. Se o presidente pedir que ele fale alguma coisa ele falará, porque é cidadão brasileiro, mas vai resguardar seu papel de candidato de oposição.
JC - O Ciro Gomes repete que vai precisar de três entre cada cinco deputados. Como fazer, se isso significa querer mudar o Brasil com o apoio da ala conservadora? Herrmann - O que o Ciro está dizendo com esta questão é que, primeiro, não precisa de uma base parlamentar extensa. Ele precisa de uma base parlamentar com uma massa de deputados e senadores que possam conduzir os projetos do Executivo de interesse nacional. Isso nós precisamos e minha tarefa é correr pelo Brasil ajudando a desempenhar esse papel. Estou conversando com os segmentos dos nossos 26 estados e o Distrito Federal, discutindo a agenda nacional. De outro lado, há questões nacionais que não são mais só do Congresso, mas são da sociedade brasileira. Temas como reforma tributária, previdenciária, fiscal e política definem o rumo do País. Aí sim eu preciso dos três quintos do Congresso para mudar o rumo do País. Agora, isso quer dizer um concurso de todas as forças da sociedade e essa será a grande tarefa negocial. E os deputados sabem que vamos discutir reformas que vão punir alguém e aliviar alguém, no caso da reforma tributária. E aí vamos discutir se o modelo é para deixar de punir a imensa maioria para equilibrar essa relação, ou não.
JC - Como o senhor vê a relação Lula-CUT e Ciro-Força Sindical? Herrmann - É um discurso esquizofrênico feito por alguns setores. Porque a partir do momento em que a organização dos trabalhadores é tutelada por partidos políticos, deixa de servir só aos interesses dos trabalhadores. As centrais sindicais não podem ser correntes transmissoras de interesses dos partidos políticos. As centrais têm que ser autônomas e independentes. Qualquer atrelamento fere o esforço da luta pelo trabalhador em função de um benefício partidário, e essa minha avaliação vale para todas as centrais sindicais, para a CGT, CUT, Força e demais. O atrelamento cria dificuldades enormes para a luta dos trabalhadores.
JC - O senhor inclui a discussão sobre o uso da Base de Alcântara pelos EUA como assunto de soberania? Herrmann - Sim. Aliás, a proposta é minha, eu fui relator desse processo. Quando chegou à Câmara dos Deputados a discussão do acordo para uso da base de Alcântara no Maranhão, eu disse que não se tratava só de discutir a cessão de um quadrado de terras. Ali é área de interesse que permite o lançamento de foguetes a um custo muito menor. Se nós temos a condição de ter essa base e há interesse nela, por que não podemos nos apropriar da tecnologia para isso? É o mínimo para discutir a cessão. Sou favorável que tenhamos uma base de lançamento de foguetes, mas com um sistema tecnológico sob domínio brasileiro. Sem isso, é atentado à nossa soberania.
JC - Mas o discurso é que a base de Alcântara é o pé dos EUA na Amazônia e o Sivam é o olho? Herrmann - Aí é um discurso que força um pouco a barra. Vejo questões distintas de análise de área de interesse americana nos territórios. Se os EUA não fizerem uma base aqui, vão por na África. Lá tem mais dificuldade e aqui há estabilidade política para eles instalarem. Mas eu só aceitaria se nós tivéssemos o acesso à tecnologia que vai se instalar. A Amazônia é diferente. Os EUA falam em transformar a Amazônia em área de interesse internacional desde o século XIX. Antes eles compravam terras, como o canal do Panamá. Agora, é conquista política baseada no lastro econômico. Eles tentaram expandir a guerrilha da Colômbia para a Amazônia com o discurso da invasão do narcotráfico. Se fosse isso, se justificaria discussão de intervenção americana sobre a cocainização da Amazônia. Como eles não conseguiram isso, o discurso estancou. O terceiro ponto é que não dá para perder o controle estratégico da Amazônia através do Sivam. Pode ter irregularidades na compra dos equipamentos, mas o projeto é necessário para o controle da região amazônica.