Cultura

Andar com fé, eu vou...

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

Em um circo famoso trabalhavam dois amigos. Um deles era o trapezista e o outro vendia pipocas ao lado da bilheteria.

Certa vez, o trapezista convidou o vendedor de pipocas para sair do circo e juntos fazerem o seu próprio negócio. O amigo concordou. Os dois então montaram um espetáculo em pleno centro de São Paulo.

O trapezista atravessava todos os dias por um cabo de aço a Avenida Paulista, indo de um edifício a outro. O vendedor de pipocas ficava embaixo arrecadando o dinheiro das pessoas que admiravam o espetáculo. Depois de alguns meses o trapezista teve outra idéia. Eles se mudaram para Foz do Iguaçu.

Mandando esticar um cabo de aço, entre o Brasil e a Argentina, sobre as Cataratas do Iguaçu, o trapezista fazia a travessia de um lado para o outro puxando um carrinho de mão. Enquanto isso o vendedor de pipocas arrecadava os dólares dos turistas. E assim, os dois ganharam muito dinheiro e estavam muito felizes. Em uma tarde, os dois amigos estavam descansando na varanda do hotel, quando o trapezista perguntou ao colega: “Você confia mim?” O vendedor de pipocas respondeu: Ora, mas que pergunta, é claro que confio em você. Se não confiasse não teria deixado o circo para te acompanhar. Se não confiasse não estaria agora aqui com você.”

Então o trapezista perguntou novamente: “Mas, você é realmente meu amigo?” O vendedor respondeu: “Que pergunta, rapaz! É claro que sou teu amigo. Se eu não fosse teu amigo não estaríamos mais trabalhando juntos. Se eu não fosse teu amigo eu não dividiria corretamente o dinheiro que ganhamos. Você sabe que eu faço questão que você ganhe mais do que eu, pois você arrisca sua vida. É claro que sou teu amigo.”

O trapezista voltou novamente a perguntar: “Mas..., você confia mesmo em mim? O vendedor respondeu: “Se eu confio em você? Mas é claro que confio. O que você fizer eu apoio. Para onde você quiser ir eu vou contigo. Eu confio em você plenamente.” “Então amanha”, respondeu com um sorriso o trapezista, “você vai subir no carrinho e vamos juntos fazer a travessia das cataratas!”

O vendedor de pipocas, porém, respondeu assustado: “Rapaz, você é meu amigo, eu confio em você. Mas subir no carrinho eu não subo não!”

A palavra “fé” é talvez uma das expressões mais utilizadas em nossa sociedade, mas também uma das menos compreendidas. A primeira confusão que fazemos em relação à fé é identificá-la com a palavra “certeza”. Quantas vezes, não afirmamos que Deus existe, com o desejo de expressar que temos a certeza de sua existência.

O problema é que, se Deus fosse uma certeza, a fé se tornaria simplesmente dispensável. Caso tivéssemos a certeza da existência de Deus, não precisaríamos da fé e a religião se tornaria uma ciência. Para afirmar que este jornal existe, não necessito de fé, pois posso provar sua existência, sem me preocupar com argumentos que possam mostrar o contrário.

Com Deus é bem diferente. O Ser que gerou este universo não se revela aos homens da mesma forma que este jornal. Infelizmente, Deus nunca bateu à minha porta, nunca sentamos juntos para tomar um cafezinho ou uma cervejinha. Como cristão, eu posso apresentar argumentos lógicos e prováveis sobre a existência de Deus, como também um ateísta pode apresentar argumentos lógicos e prováveis sobre a sua não existência. Todos os argumentos apresentados permanecerão teses abertas à contra-argumentação. Justamente quando a razão perde o domínio sobre determinada realidade, podemos recorrer ao auxílio da fé. Esta não se reduz a um conhecimento e muito menos é uma certeza, conseqüência de um raciocino lógico.

A fé é, acima de tudo, uma atitude, um estilo de vida marcado pela coragem. Fé significa ter a coragem de assumir um relacionamento com um Ser superior que chamamos de Deus, diante do qual não temos a certeza de sua existência. Ela é sinônimo de coragem, pois a base deste relacionamento é a completa confiança, ou seja, jogar-se totalmente nas mãos deste Deus.

Este estilo de vida, nem sempre é idêntico a expressões religiosas. Muitas vezes, a procura de uma religião ou a prática de determinada religiosidade é sinal de medo ou de fuga da realidade. Quantas pessoas voltam-se para Deus e constantemente imploram Dele milagres, em vez de viver sua fé com a confiança plena de que Deus nos conhece e sabe profundamente o que necessitamos.

Muitas pessoas confiam em Deus desconfiando ou buscam a Deus porque não possuem coragem, ou seja, fé diante da vida. Ao observar a atitude de muitos “religiosos”, Nietzsche chegou à conclusão de que a religião é algo para os fracos.

Porém, se sabemos o verdadeiro significado da palavra fé, compreendemos que religião é para os fortes, aqueles que se reconhecem como filhos de Deus e vivem como tal, ou seja, pessoas que não possuem medo de “subir no carrinho e fazer a travessia”. Ter fé é viver a convicção de que “seja você quem for! Movimento e reflexo tem lugar especialmente para você, é por você que o divino barco singra o divino oceano” (Walt Whitman).

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