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Área contaminada com chumbo está desvalorizada

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Além da incidência de chumbo, do risco de recontaminação, do sacrifício de animais e da precariedade de infra-estrutura urbana como falta de iluminação, asfalto, galeria para águas pluviais e postos de saúde próximos, os moradores das áreas próximas à fábrica de baterias Ajax, como Jardim Tangarás, agora têm mais um motivo para reclamar: seus imóveis perderam valor depois do conhecimento dos altos índices de chumbo na área.

Os interessados em adquirir terrenos e casas na área do Núcleo José Regino, Jardim Tangarás, Parque Bauru e proximidades do Country Club agora estão preferindo áreas um pouco mais afastadas, como o Bauru 22.

Os proprietários que pensam em sair da região pelos problemas causados pelo chumbo já não conseguem mais obter o valor venal do imóvel. Os planos de venda da casa e mudança têm que ser adiados.

“Eu penso em sair e a casa está à venda, mas ela já não vale mais o que eu paguei no ano passado. Na cabeça do povo, essa terra já não vale para mais nada”, diz Zaqueu Vieira da Silva, do Jardim Tangarás.

Para o morador Lucas José de Medeiros, a desvalorização foi de 50%. “O preço caiu pela metade.

“Agora, o pessoal está preso ali”, enfatiza Mathias Geraldo Muniz, presidente da Associação de Moradores do Jardim Carolina e região.

Simone Goiás, moradora da rua Naoki Shinohara, no Jardim Tangarás, estava construindo uma casa para morar no bairro mas parou as obras. “Agora perdeu o valor. Se nós quisermos vender a casa, ninguém vai dar o preço que vale”, observa.

Ela conta que sua vizinha mudou e está alugando uma casa no Geisel, mas não conseguiu vender aquela em que morava.

Vanderlei Batista de Paula é outra vítima da desvalorização. Ele está tentando vender sua casa há seis meses. “O que você empatou na casa jamais a gente vai pegar de volta”, afirma.

Os moradores do Núcleo José Regino também sentem o problema, ainda que com menor intensidade, já que as ruas são asfaltadas. “Já teve gente que deixou a casa para vender e foi embora mesmo assim porque não conseguiu passar para frente”, diz Sônia Vieira de Freitas.

O problema também foi sentido pelas empresas que trabalham com locação e venda. João Parreira, proprietário de uma imobiliária em Bauru, explica que, como há muita oferta e pouca procura, os preços de venda das casas caíram.

“Algumas pessoas, assustadas, decidiram vender suas casas mas não conseguiram por falta de interessados, pelo mesmo motivo”, expõe.

“Entre o José Regino e o Tangarás, parou tudo. O povo já não está querendo mais ali. Tinha tantos compradores e agora a turma está dispensando”, afirma João Vieira, de outra imobiliária.

Luiz Roberto Belini, proprietário de uma terceira imobiliária, garante que alguns clientes chegam a desligar o telefone quando o corretor menciona o nome do bairro.

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Crianças continuam brincando na terra

As crianças moradoras do Jardim Tangarás continuam brincando na terra, apesar dos altos índices de chumbo encontrados no local.

As mães alegam que não conseguem manter seus filhos em casa por muito tempo, já que não há opções de lazer no bairro, como praças ou parques.

“Eu não consigo segurar o meu menino 24 horas dentro de casa”, diz Patrícia Bonifácio, preocupada com a situação e com a saúde do filho de 7 anos.

“Eles são crianças e têm de brincar. Vão brincar onde?”, questiona o morador Lucas José Medeiros.

Andando pelas ruas do bairro, não é difícil encontrar grupos de meninos jogando bola descalços, empinando pipa e caindo com freqüência no piso de terra. “Eles voltam cheios de terra para casa todos os dias”, diz Renata Ribas Mendes, mãe de uma criança que está com alto índice de chumbo no sangue.

Os pais tentam amenizar os riscos de recontaminação orientando as crianças a não colocar as mãos na boca para evitar a ingestão de terra com chumbo.

“Mesmo que eles não coloquem as mãos na boca, toda hora passam carros que levantam a poeira e contaminam o ar. As crianças e nós respiramos isso tudo”, destaca Patrícia. “Não é só a terra”, pontua.

Uma das soluções apontadas pelos moradores é a pavimentação das ruas. Além de diminuir os riscos para as crianças, poderia contribuir para a revalorização dos terrenos e casas no mercado imobiliário.

“A população quer melhorias no bairro para reverter o problema. Esse asfalto tem que vir sanar o problema”, diz Medeiros.

“O que queremos é solução. Queremos que eles coloquem asfalto nessa terra de uma vez”, reforça Patrícia.

Na opinião de Medeiros, a Ajax deveria arcar com os gastos. “A responsável está aí, impune. Nós não temos culpa nenhuma do que acontece. Ela tem que arcar com os custos e com a responsabilidade”, diz.

A Secretaria Municipal de Saúde e a Direção Regional de Saúde (DIR-10) ainda não divulgaram quando terá início a execução das medidas recomendadas para evitar que a população continue sendo exposta a riscos.

A diretoria da Ajax informou que está aguardando reuniões com os órgãos de saúde para que sejam tomadas providências.

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