Polícia

Família é exemplo para menor infrator

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Crianças nascidas e criadas em ambiente marginal podem estar imitando o comportamento dos adultos. Esta é a avaliação da psicóloga Andréia George’s sobre a participação, cada vez maior, dos menores em ações delituosas. Em Bauru, de cada dez casos atendidos pelo Conselho Tutelar, pelo menos dois envolvem crianças de 0 a 12 anos.

Na opinião dela, além de imitar o adulto, a criança envolvida com a marginalidade não tem o referencial positivo. “A família oferece a primeira educação. Se a criança convive diariamente com a marginalidade, vai crescer achando que usar armas, assaltar e praticar delitos é uma coisa comum, natural.”

A psicóloga frisa que antigamente os adultos não permitiam que as crianças participassem do diálogo dos adultos. “Hoje, há uma convivência mais aberta e mais próxima. Os pais envolvidos com a marginalidade conversam abertamente com as crianças por perto. Isso faz com que elas percam o referencial positivo e adotem um padrão negativo.”

Usar armas, assaltar, planejar furtos e ser agressivo passa a ser um comportamento comum para as crianças em fase de aprendizagem. “Assim como os menores de famílias não marginais imitam o comportamento dos pais, querem ser como o pai, os filhos de famílias marginais imitam os pais, irmãos mais velhos e parentes que convivem com eles.”

Este comportamento infantil, segundo ela, pode gerar um adulto marginal. “A tendência da criança que convive no mundo do crime é seguir o mesmo caminho traçado pela família. As chances dela não ser um marginal são mínimas e dependem de uma série de ações por parte da família e da sociedade.”

A psicóloga alerta que o exemplo vem de casa, como se diz popularmente. “A criança admira o comportamento dos asultos que convivem com ela. Para ela, o que os pais fazem é certo, por isso ela segue.”

Revertendo a situação

Para reverter a situação e dar um basta na criminalidade, seria preciso que a sociedade e o governo investissem em projetos educativos, na opinião da psicóloga. “A criança precisa ter outras opções para não seguir o caminho da família marginal. Ela precisa ver que o crime não é bom e que é errado andar armado, ser agressivo e praticar delitos.”

Estimular o comportamento positivo rejeitando o padrão negativo adotado é uma das alternativas. “Os projetos educativos das Organizações Não-Governamentais e do próprio governo podem dar uma noção de cidadania. Essas crianças precisam ser estimuladas para atividades positivas.”

Ganhar dinheiro através de ação delituosas não pode ser regra, diz a psicóloga. “Elas precisam mudar a visão de mundo. necessitam aprender que para ganhar dinheiro há o trabalho e não o crime. Para reverter a situação é necessário que haja empenho da sociedade e do governo.”

Medida de proteção

A presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Darlene Martin Têndolo, diz que nos casos de crianças envolvidas em atos infracionais, os pais são chamados. “Na aplicação das medidas de proteção, adotadas para crianças de 0 a 12 anos, o importante é identificar o problema.”

De acordo com ela, é preciso saber se os pais estão sendo negligentes e se falta estrutura. “Nós passamos a acompanhar a família. Se a criança não está freqüentando a escola, nós a encaminhamos. Em último caso, os pais são advertidos.”

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Crianças que assustam

A comerciante Edinir Aparecida Arteiro de Lima viveu momentos de tensão e medo com três infratores na noite de segunda-feira, na sorveteria localizada no Parque Roosevelt. Ela julga que os assaltantes que levaram sua bolsa, eram crianças. “Um tinha no máximo 14 anos. O outro, 12 e um deles, 10 anos.”

A vítima não se conforma com a ação dos pré-adolescentes e da criança. “Eles chegaram no momento em que eu estava fechando a sorveteria, por volta das 22h40. Com as mãos sob as camisetas, simularam estar armados, para praticar o roubo.”

A comerciante, que teme represália, lembra que o adolescente maior a abordou enquanto os dois abordaram seus filhos menores. “As crianças ficaram assustadas. Minha filha ficou com medo que ele me agredisse. Eles agiram como marginais, mandando a gente ficar quieta e passar o dinheiro.”

A filha da vítima, segundo ela, chegou a pedir pelo amor de Deus para que o “pequeno” marginal deixasse sua mãe em paz. “Eu entrei em estado de choque. Foi uma situação difícil. Eles levaram minha bolsa contendo talão de cheques, R$ 3,50, cartão de crédito e cartão de supermercado.”

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