Cultura

Poetas da Vila

Irineu Azevedo Bastos (especial para o JC)
| Tempo de leitura: 3 min

Estou escrevendo uma história do Distrito de Vila Falcão. Recentemente, conversando com o jornalista B. Requena, que dela é oriundo, relembramos sobre a predestinação da Vila receber como seus moradores, alguns de nossos melhores poetas.

O potiguar Helvécio de Barros, trovador de muitos prêmios nacionais recebidos, durante o exercício de sua arte, morou na Travessa Polido, depois que casou com dona Durvalina, filha do ferroviário André Rodrigues. Eis um trecho de sua poesia “Bauru”:

Do âmago verde das matas delineia-se a nascente vila de Bauru Surgem as primeiras casas de pau a pique Pelas ruas arenosas entre barracas improvisadas e turgidos cargueiros Já se vêem alguns hotéis plebeus Pontuando uma fila reduzida de lojas de armarinho...

Outro poeta vinculado à Vila Falcão foi o bauruense Martinho Abreu Carvalho, que residiu durante algumas décadas na Rua Altino Arantes. Sobre ele, outro poeta que durante anos residiu na Vila, na Rua dos Andradas, o barretense Nidoval Reis escreveu: Abreu Carvalho é poeta, pois revestindo-se de inspiração, carregando cardos na alma, mas respirando sonhos, caminha sob estrelas faiscantes para nos dar beleza. Transmuda-se, apesar da dor, em sublime apologista da verdade poética. No quotidiano faz poesia, quando mensageiro do sonho, diz: “Por isso os magos do verso/Trazem nos olhos tristonhos? Diante do mundo adverso/Saudade dos próprios sonhos”. Carvalho, irremediavelmente doente, vaticinou:

Sim, meu mal não tem cura... E com certeza, Em breve partirei, com a tristeza de os deixar sozinhos nesse mundo!

Nidoval trabalhou durante muito tempo no Sanatório “Manoel de Abreu”. Residiu também na região do Jardim Terra Branca e, dentre sua volumosa produção poética escreveu o “Poema lírico de Bauru”, do qual transcrevo um trecho sobre a Noroeste, ferrovia alma e coração de um Bauru que não mais existe: Se ruas da minha infância, em sua ruas houvessem, eu não seria (Quem sabe?) o seu menino de agora:

Buscando terras distantes Bolívia ou Paraguai rodando por pantanais onde há sangue de ancestrais como caminhos de ferro desta heróica Noroeste!

Quando a Globo adquiriu a TV da Praça Expedicionário, que pertencia à Organização Victor Costa, minha mulher, Janira, ali trabalhava. Nidoval era o relações públicas da empresa e um dia disse a ela que sua mulher, Hilda, era baiana, e fazia um gostoso vatapá. De tanto a Janira insistir, ele acabou entregando-lhe, incrédulo, uma receita escrita por sua mulher, garantindo-lhe que ela não seria capaz de cozinhá-la, pois era bastante complicado. Enganou-se, felizmente.

O outro poeta... morou na Rua Regente Feijó, veio de Sasaoka, no Japão, em 1927: Nenpuku Sato, mestre de referência internacional na poesia estilo haikai, também conhecido como haiku, foi criado no País do Sol Nascente há mais de trezentos anos. Tradicionalmente, os haikais são escritos com pincel, num sistema misto de ideograma chinês e silabário japonês, sempre dentro do estilo poético.

Numa morna noite de verão, provavelmente olhando para as plantações de nossa roça, escreveu: A lua se insinua na alvura perfumada do cafezal florido.

Ou numa noite, solitário, ouvindo o respingar da chuva, no telhado: soa tristeza essa noite de chuva bebendo cerveja sozinho.

(Irineu Azevedo Bastos escreve para o Projeto Vivaldi)

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