Economia & Negócios

Fim do álcool líquido elimina 50 mil empregos, diz associação

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 5 min

A proibição da venda do álcool etílico em estado líquido desde ontem por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão ligado ao Ministério da Saúde, provoca estranheza e reclamação nos consumidores, mas pode causar um efeito colateral ainda mais grave. Mais de 50 mil empregos, diretos e indiretos, estão em risco em todo o País.

A afirmação é do diretor-presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Envasadores de Álcool (Abraspea), José Carlos Rezende, que declara ter feito a estimativa levando em conta não só a produção e o engarrafamento, mas também a produção de frascos e tampas, por exemplo.

O argumento da Anvisa para proibir a venda é que o álcool líquido é prejudicial à segurança das pessoas, pois é apontado como responsável por um grande número de acidentes domésticos. A apresentação do produto em forma de gel e com embalagens de 500 gramas poderia evitar queimaduras.

Por enquanto, a Abraspea conseguiu uma liminar na Justiça desobrigando as empresas associadas de cumprir a determinação da Anvisa. No Brasil, há 71 engarrafadores de álcool, segundo Rezende, mas apenas 12 empresas são filiadas à associação. Entre elas, a Usina da Barra, a Usina Nova América e a Companhia Nacional de Álcool. “Tivemos que entrar judicialmente para ver se sobreviveríamos”, diz Rezende.

Na Usina da Barra, em Barra Bonita, ninguém foi encontado para se pronunciar sobre o assunto.

Para o presidente da Abraspea, o consumidor será prejudicado com o álcool gel. Em primeiro lugar, devido ao preço: de duas a três vezes maior para uma quantidade menor que a das embalagens de um litro do líquido. A segunda questão, diz Rezende, se refere à concentração: enquanto o líquido tem 96% de álcool e 4% de água, o gel tem 65% de álcool e 35% de água em sua composição.

“A nossa tônica é que o grande vitorioso (com a liminar) é o consumidor, que vai conseguir continuar comprando um litro de álcool no supermercado por R$ 1,60, por exemplo”, declara Rezende.

Embalagem

De acordo com o presidente da Abraspea, a associação sugeriu à Anvisa modificações para dar mais segurança às embalagens de álcool líquido. “Propusemos colocar tampa americana, que crianças não conseguem abrir”, revela Rezende.

Segundo ele, os frascos de álcool líquido já seguem as determinações de segurança do Instituto de Metrologia (InMetro), como resistência da embalagem a quedas. “Desde 1999 as embalagens estão certificadas”, diz Rezende.

Na opinião do presidente da Abraspea, o Ministério da Saúde deveria alertar a população para o risco de acidentes, e não proibir. “Precisava o Ministério da Saúde fazer um programa como fez com o cigarro. Proibiram o cigarro? Não, fizeram uma campanha”, observa.

Plantações

Na opinião do presidente da Associação de Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana), Paulo Brandão, as plantações da região não devem ser prejudicadas com a proibição do álcool líquido, pelo menos por enquanto.

Para Brandão, no entanto, há o risco do consumidor deixar de comprar o produto em forma de gel. “Onera muito. Hoje se compra um litro de álcool por pouco mais de R$ 1,00, e agora o preço (do gel) vai para mais de R$ 3,00”, diz.

Na opinião de Brandão, a Anvisa poderia ter tomado outro tipo de medida para prevenir queimaduras antes de decidir pela proibição. “Foi uma medida muito radical. O risco de pegar fogo é uma coisa muito complexa”, observa. E completa: “Faz ‘500 anos’ que o álcool é líquido, porque agora vai ser gel?”, questiona.

____________________

Supermercados e consumidores

Os supermercados de Bauru já estão se preparando para o fim do álcool líquido nas prateleiras, mas os consumidores - pegos de surpresa - ainda estão receosos quanto ao uso do gel.

O gerente de supermercado Alexandre Bernardino Fernandes Júnior, diz que sua loja já trabalhava com álcool em gel antes da determinação da Anvisa. Segundo ele, o consumidor deve se acostumar com a nova apresentação. “Depende muito do público, até o consumidor se acostumar ao produto. Álcool é um produto que todo mundo usa”, diz.

Na opinião de outro gerente de supermercado, Sebastião da Silva, o álcool em gel deve provocar estranheza entre os clientes. “O consumidor está acostumado a comprar isso no supermercado. Vai ter reclamação sim”, declara. Segundo ele, a loja já estava se preparando para a proibição e segurou as vendas.

“Depois de tanto tempo, agora que foram achar problema, que tem perigo? Deixa os dois. Quem tem preferência por comprar o gel, compra. Quem não tem, compra o líquido”, opina a secretária Valquíria Querubim, 36 anos, que afirma nunca ter experimentado o gel na limpeza doméstica.

Por outro lado, a professora Veralice Leutwiler, 40 anos, afirma que seu consumo de álcool é muito grande. Além disso, conta, ela trabalha em uma creche onde são utilizados de três a quatro frascos de álcool por dia para limpeza e assepsia. “Na minha opinião, a diferença de preço é muito alta. Para quem tem um consumo grande, como vai fazer para comprar o álcool em gel?”, questiona.

O professor Antônio Miguel Garcia, 44 anos, concorda que o preço deveria ser mais acessível, mas procura ver os benefícios da proibição. “Vem bem menos no gel e é bem mais caro. De qualquer forma, como é para evitar acidentes, eu acho válido”, observa.

A auxiliar pedagógica Maria Capossi, 49 anos, admite que o argumento de evitar acidentes domésticos é suficiente para incentivar a compra de álcool em gel. “Em termos de segurança é o melhor, mas eu ainda não pesquisei preços porque nunca comprei o gel”, declara.

Comentários

Comentários