Em uma linda manhã, uma aranha desceu de uma árvore bem alta até um arbusto através de um de seus fios. No arbusto então construiu uma grande teia, onde ela passou, todos os dias, a pegar boas presas. No final de cada dia, a aranha desmontava sua teia para, no dia seguinte, construir uma melhor. Assim, todos os dias ela passava a preocupar-se com o tamanho e a extremidade de sua teia no arbusto.
Certa tarde, quando estava a desmontar sua teia, encontrou um fio vertical que subia até a ponta da grande árvore, era o fio através do qual a aranha tinha chegado ao arbusto. Como ela já não se lembrava mais da finalidade daquele fio e o achando sem utilidade alguma para sua teia no arbusto, a aranha resolveu cortá-lo. Ao fazê-lo, toda a teia se desmontou e caiu ao chão levando junto a pequena aranha. A aranha foi, então, envolvida por toda a teia e acabou ficando presa sem poder mais se libertar.
Segundo o filósofo Karl Jaspers é impossível para o ser humano ter um conhecimento completo de si mesmo, pois este está em constante transformação. Na dialética com seu meio ambiente e com as novas situações do cotidiano, o ser humano sempre descobre novas facetas e potencialidades de si próprio.
A única certeza que possuímos sobre nós mesmos é que nosso “estar aqui†é sempre um desafio em realizar-nos, construindo, em liberdade, o que somos ou desejamos ser. Minha atual existência é, na verdade, tudo aquilo que caracteriza, neste momento, meu ser. Até mesmo características que ainda não são visíveis em nossa existência, ou seja, potencialidades de nosso ser que se tornarão notáveis no futuro pertencem desde já à nossa estrutura de pessoa.
Porém, neste caminho de descoberta de si próprio e de auto-realização, o ser humano confronta-se sempre com as limitações de seu contexto material, social e cultural: família, trabalho, desemprego, salário, analfabetismo, formação acadêmica, fome, criminalidade, etc. Estas podem até mesmo contribuir para a realização de nosso ser ou serem mesmo obstáculos quase intransponíveis. Em seu contexto social e cultural, na luta pelo dia-a-dia, o ser humano é, muitas vezes, levado a distanciar-se de sua essência.
Os dias vão passando, o tempo nos dá a impressão de realmente correr em alta velocidade e, por conseqüência, deixamos de prestar atenção naquilo que realmente interessa na vida. Vivemos, assim, até o momento em que somos obrigados a experimentar uma situação que mexa com nossa própria estrutura e nos faça (re-) lembrar de nosso próprio ser, tanto de suas várias limitações como de suas infinitas capacidades.
A esta situação que nos leva de encontro com o nosso núcleo fazendo-nos perceber o essencial da vida, Karl Jaspers deu o nome de “situação-limiteâ€: a morte de alguém que amamos, o sofrimento físico ou mental, uma determinada luta por algo importante, uma difícil doença, a culpa, o remorso, uma crítica extremamente dura, a solidão, etc. Nestas situações somos levados a reavaliar nossa escala de valores e a nos perguntar qual o “fio que mantém a nossa teiaâ€.
Exatamente a dolorida “situação-limite†é que nos faz perceber como vivemos na superficialidade da vida e nos preocupamos com o que é periférico sem percebermos o seu verdadeiro núcleo. “Tem gente que passa a vida inteira travando a inútil luta com os galhos. Sem saber que é lá no tronco que está o coringa do baralho.†(Raul Seixas)
Sem dúvida alguma, o ideal seria que não esperássemos por uma crise, por uma “situação-limiteâ€, para descobrir o que é importante em nossa vida. Para isso é necessário um exercício diário de atenção sobre nós mesmos e sobre nossa atividade. O filósofo italiano Giambattista Vico afirmava que o caminho para a verdadeira consciência de si mesmo constitui-se no conhecimento de nossa origem, ou seja, de nossa história.
Portanto, o primeiro passo para sair da alienação é o exercício periódico de recordação da nossa caminhada. Nossa história pessoal é o livro que escrevemos com a vida e o documento que revela quem, na verdade, somos e o que fazemos. Para jogar um olhar sobre nossos passos não é necessário o abalo de uma “situação-limiteâ€. Esta retrospectiva de vida pode tornar-se um hábito consciente que abre portas para um futuro melhor.
Na verdade, todas as noites, antes de mergulhar no sono, deveríamos assistir o “filme†de nosso dia e observar nossa atuação como protagonistas ou figurantes. No fim de cada semana deveríamos aproveitar o momento do domingo para analisarmos o que a semana trouxe de contribuição para nossa vida pessoal e para o nosso grupo.
Como também todo o aniversário deveria ser um momento de revisão de toda a nossa vida. Fundamental é não esquecer que a revisão do dia, da semana ou da vida não deve ser simplesmente um exercício de nostalgia, mas um sério questionamento sobre o nosso presente e as coisas que nos circundam. Pois, se não nos perguntamos o porquê das coisas, logo os outros estarão perguntando o porquê de nossa existência. “Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira†(Leão Tolstoi).
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