Bairros

Periferia se diz esquecida pela prefeitura

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Longe do Centro da cidade, sem asfalto e equipamentos públicos, como escolas e creches, os bairros da periferia de Bauru reclamam que estão “esquecidos” pelo Poder Público. Os moradores dessas localidades vivem de forma precária e sentem-se isolados do restante da cidade devido à falta de infra-estrutura, comércio e, na maioria dos casos, de transporte conveniente.

A reportagem do JC nos Bairros visitou quatro pontos da cidades, distantes cerca de dez quilômetros da região central e com características comuns: falta de atendimento básico, como asfalto, postos de saúde, creches e escolas. Em todos, a reclamação é a mesma: “Estamos esquecidos pelo Poder Público”, dizem os moradores.

O Jardim Manchester, localizado às margens da rodovia Bauru-Jaú, próximo ao Instituto Lauro de Souza Lima, só conseguiu energia elétrica há cerca de dois meses, depois de décadas de reivindicações feitas pelos moradores. “Do jeito que demorou a chegar a luz por aqui, eu nem sonho com o dia que vão asfaltar o bairro”, diz a moradora Sueli de Fátima Cordeiro Lúcio, tesoureira da Associação de Amigos do Parque Industrial Manchester.

O bairro é considerado um dos mais antigos da cidade, mas pouco se desenvolveu nesses quase 40 anos de fundação. As ruas são de terra, há apenas 94 casas e em muito lembra uma área rural. Para quem vive no local, é bastante complicado não ter acesso à escola, transporte e esgoto. â€œÉ ruim morar aqui. Falta organização e a gente fica isolado”, diz o autônomo Anderson Cristiano dos Santos.

Do outro lado da cidade, na saída para Marília, o Parque Santa Cândida tem problemas semelhantes. Os moradores dizem que só conseguem obter melhorias para o bairro quando denunciam o descaso à imprensa. “Se não fizer escândalo, a gente não consegue nada”, diz o pedreiro José da Silva.

No Parque Viaduto, o desenvolvimento ainda está longe de ser satisfatório, mas houve alguns avanços com a construção do Núcleo Habitacional Joaquim Guilherme, entregue há três anos pela Companhia Habitacional de Bauru (Cohab). O bairro foi servido por mais linhas de ônibus e está prestes a conseguir mais um benefício: a pavimentação da rua Bernardino de Campos, principal via de acesso ao Centro da cidade.

Mesmo assim, os moradores sentem-se abandonados e reclamam que nem uma luz no poste conseguem, mesmo fazendo vários pedidos. “Aquele poste no final da rua está sem um bico de luz e fica um breu naquela área. Já pedimos várias vezes, mas ninguém atende aos nossos apelos”, diz a dona-de-casa Márcia Marcondes de Souza.

Apesar de ter asfalto na entrada do bairro, água e energia elétrica, a Vila Serrão ainda se sente um local esquecido pelo restante da cidade. O bairro é formado por cinco ruas e fica encravado em meio aos eucaliptos que margeiam a avenida Comendador José da Silva Marta, nas proximidades do Bauru Tênis Clube (BTC de campo).

De acordo com os moradores do local, nenhum tipo de benfeitoria chega até o bairro. “Tudo fica muito longe para nós, desde o ponto de ônibus, até comércio e escola. Ficamos isolado do restante da cidade”, reclama a dona-de-casa Carmelita Soares da Silva.

Infra-estrutura

O chefe de Gabinete da Prefeitura Municipal de Bauru, Antonio Sérgio Marsola, salienta que não há descuido nenhum com a periferia por parte da administração municipal. De acordo com ele, o órgão está trabalhando para manter a cidade e fazer melhorias nos locais mais afastados da região central. No entanto, confirma que nem sempre é o suficiente para satisfazer a todos. “Há muito o que ser feito e não podemos fazer tudo de uma vez”, ressalta.

Ele explica que os problemas da periferia da cidade nasceram há muitos anos, quando a cidade passou a ser ocupada de forma desordenada. Atualmente, uma lei municipal determina que nenhum loteamento seja criado sem a implantação de infra-estrutura. “O crescimento da cidade está sendo acompanhado de perto pela prefeitura”, destaca.

A secretária municipal do Planejamento, Maria Helena Rigitano, ressalta que o grande “boom” de crescimento da cidade se deu a partir dos anos 50. “Naquele tempo, o único trabalho do loteador era abrir ruas no local onde iria comercializar os terrenos. As pessoas foram se instalando nesses locais sem nenhuma benfeitoria”, ressalta.

O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, confirma essa tese. Ele explica que há muitas empresas especializadas em vender terrenos com preços baixos, parcelado em vários pagamentos, localizados em pontos distantes da cidade. “Sem condições de adquirir a casa própria, muitas pessoas acabam migrando para esses lugares”, destaca.

Como estão localizados em pontos muito distantes, o investimento para levar rede de água e esgoto para esses bairros acaba sendo muito alto. “O custo da infra-estrutura fica alto e demora muito mais tempo para as melhorias chegarem até lá”, esclarece Brito.

Uma lei municipal, que tem 20 anos de existência, obriga os loteadores a providenciar toda a infra-estrutura antes de comercializar os terrenos. A fiscalização é feita pela Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan), que garante que atualmente nenhuma empresa imobiliária consegue vender sem cumprir a legislação. “No começo, eu admito que houve falhas. Mas, aos poucos as coisas foram se acertando e, hoje, a lei é cumprida à risca”, afirma a secretária Maria Helena Rigitano.

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