Bairros

Moradores têm que brigar pelo básico

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Morar em um local distante da região central, sem asfalto, energia elétrica, esgoto, comércio, escola, creche e posto de saúde é como viver em uma ilha isolada do planeta. Até dois meses atrás, esse era o quadro vislumbrado pelos moradores do Jardim Manchester, um dos bairros mais antigos de Bauru (o loteamento foi liberado em 1966). A energia elétrica chegou em junho, depois de décadas de reivindicação. Mas o restante, continua do mesmo jeito.

Localizado na saída para Jaú, ao lado do Parque Santa Therezinha e do Instituto Lauro de Souza Lima, o bairro tem 94 casas e praticamente nenhuma infra-estrutura. Até dois meses atrás, os moradores utilizavam lamparinas e baterias para iluminar o ambiente e utilizar eletrodomésticos. “Nós sofremos muito para conseguir a luz. Tivemos que brigar, chorar, escutar muita besteira, até conseguir essa benfeitoria”, diz a moradora Sueli de Fátima Cordeiro Lúcio, que mora há quatro anos no local.

De acordo com ela, as pessoas que vivem no bairro sentem-se desprestigiadas pela administração pública. Ela salienta que todas as reivindicações dos moradores só são atendidas depois de muita luta. “Os políticos só aparecem aqui em época de campanha eleitoral. Depois, esquecem que a gente existe”, destaca.

A presidente da Associação de Amigos do Parque Industrial Manchester, Claudia dos Santos Tavares, salienta que os moradores só conseguem algum tipo de serviço público depois de brigar muito por isso. “Tem que ameaçar denunciar para a imprensa para ver um pedido nosso ser atendido”, diz.

De acordo com ela, depois da energia elétrica, a luta agora é para conseguir o esgoto. “Os canos já foram passados no bairro, mas até agora não foram ligados ao sistema de esgoto da cidade”, frisa.

Outro problema que atinge os moradores do Jardim Manchester é a falta de estabelecimentos de ensino. A escola mais próxima fica no Parque Santa Therezinha, ao lado do bairro. Mas lá são atendidos apenas alunos do Ensino Fundamental. Os do Ensino Médio precisam se deslocar até o Núcleo Octávio Rasi, onde fica a escola mais próxima - EE Professor Walter Barreto Melchert.

Até o início deste mês, os alunos contavam com um ônibus da prefeitura, que os transportava até a escola. Mas, agora, perderam o benefício e não sabem como vão fazer para estudar. “Tem que ir de bicicleta ou a pé, mas é muito longe e o caminho é perigoso”, explica o autônomo Anderson Cristiano dos Santos, um dos alunos que foram prejudicados pela decisão.

Ele diz que é “muito ruim” morar nessas condições e cobra mais empenho dos próprios moradores. “As pessoas deveriam se unir mais para buscar as benfeitorias”, ressalta.

Quem precisa utilizar o transporte coletivo também reclama da precariedade. Claudia, por exemplo, lembra que os ônibus só entram no bairro em três horários durante todo o dia: de manhã, no começo da tarde e à noite. “Fora disso, é preciso ir até o Santa Therezinha, faça chuva ou faça sol”, diz.

Parque Santa Cândida

No outro extremo da cidade, na saída para Marília, muda o nome do bairro e o rosto dos moradores, mas os problemas continuam muito parecidos. No Parque Santa Cândida, as ruas são de terra e as casas, muito simples. Quem vive no local reclama que falta tudo, até mesmo atenção por parte dos políticos da cidade. “Até para cobrar as benfeitorias para o bairro é difícil. Ninguém atende a gente”, destaca o pedreiro José da Silva, que mora há 6 anos no bairro.

Ele diz que para conseguir vaga em escola ou creche, os pais têm de passar a noite em filas na porta dos estabelecimentos. Outro recurso utilizado pelos moradores para cobrar obras no local é a produção de abaixo-assinados. “Foi assim que conseguimos o esgoto, há cerca de dois anos”, frisa o pedreiro.

A dona-de-casa Adriana Paula Alves destaca que “falta tudo” no bairro. Ela morava em Iacanga e mudou-se para Bauru depois que o marido conseguiu emprego na cidade. “Achei muito ruim mudar de cidade. Lá onde eu morava era melhor”, salienta.

Com três filhos pequenos, a dona-de-casa diz que encontra dificuldade em todos os sentidos. “Não temos posto de saúde perto, nem escola e comércio. A vida fica muito complicada para quem tem criança.”

O aposentado José André Montes de Amarins costuma dizer que ele não mora, esconde-se no bairro. â€œÉ um jeito divertido de esquecer o tanto de problemas que temos aqui”, destaca.

Ele lembra que, para conter a erosão nas ruas de terra, os próprios moradores plantaram grama nas laterais da via, a fim de controlar a força das águas. “Se a gente quiser alguma coisa, tem que fazer por conta própria. Ou então, lutar muito para que os políticos prestem atenção nas nossas necessidades”, salienta.

Parque Viaduto

Com características semelhantes a outros pontos da periferia de Bauru, os moradores do Parque Viaduto lutam para conseguir estudar, ir ao médico e chegar em casa sem correr o risco de ficar “atolados” no meio do caminho.

Localizado no final da rua Bernardino de Campos, em frente ao Núcleo Joaquim Guilherme, o bairro também está isolado do progresso da cidade.

A dona-de-casa Márcia Marcondes de Souza diz que anda cerca de 2 quilômetros todos os dias para levar os filhos na escola.â€É uma longa caminhada”, salienta.

Ela diz que o bairro não conta com escolas públicas e nem com posto de saúde. Há uma creche no local, mas que não atende a todas as necessidades dos moradores, segundo ela. “Nós nos sentimos esquecidos pelo Poder Público. Só lembram da gente na época de pedir votos”, reclama.

Quem quiser relaxar e passear aos finais de semana, também que enfrentar uma longa espera. A moradora Rosilda Clemente de Souza, por exemplo, conta que o ônibus circular que serve o bairro só passa a cada uma hora e meia. “A gente fica horas esperando e corre o risco de não ter como voltar à noite para casa”, diz.

Ela ressalta que os moradores sentem-se abandonados e sofrem até discriminação por viverem no bairro. “Já vi um político falar que não ia fazer nada pelo bairro porque nem no mapa de Bauru ele constava”, destaca.

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