Ser

'Coleira eletrônica'

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 5 min

A violência, cada vez mais, faz parte do dia-a-dia de uma cidade como Bauru. Os perigos estão cada vez mais próximos das pessoas. Pais de adolescentes afirmam que nunca estão tranqüilos. “Sempre temos preocupações. Enquanto eles não crescem e têm responsabilidades, nós não nos tranqüilizamos”, diz uma mãe de dois garotos, um de 14 anos e outro de 16 anos. Para controlar melhor os filhos, a tecnologia deu uma mãozinha: a invenção do aparelho celular, que desde os anos 90 começaram a se popularizar no Brasil.

Os jovens se tornaram filão do mercado. As empresas têm realizado diversas campanhas voltadas para esse público, que vem aumentando a cada dia. Mas o fato de possuírem um celular nem sempre é porque eles querem, mas sim porque os pais querem monitorar os passos dos filhos. O Brasil contabiliza cerca de 30 milhões de aparelhos em funcionamento. De acordo com empresas da área, os jovens já representam de 10% a 20% desse mercado.

Os aparelhos preferidos dos pais são de sistema pré-pago. Isso também é uma forma de controle. “Se não for assim, não dá. Minha filha ganhou primeiro um telefone pós-pago, mas bastou a primeira conta para trocarmos o sistema. Quase caí dura quando vi o valor. Ela consegui gastar em um mês R$ 311,58. Tive que pagar a conta, não havia outro jeito, mas estamos descontando da mesada dela até hoje. Agora são R$50,00 por mês e nada mais”, explica Maria Aparecida Golveia Barriz, mãe de Joyce Golveia Barriz, 17 anos.

Mesmo assim, comparando-se os usuários de telefones pré-pagos, os adolescentes são os que mais recarregam o celular. Eles gastam, em média, R$50,00 por mês. Um usuário padrão, gasta, em média R$30,00.

Instrumento de monitoração

Vinicius de Carvalho Carreira, 14 anos, não tem mais sossego. Há oito meses ele ganhou um celular da avó. “Minha mãe que pediu para ela me dar. Eu nem queria. É uma ‘coleira eletrônica’”, conta. Ele diz que quem sempre liga para ele é a mãe. Quer saber onde ele está, com quem está. Mas isso não basta. Se Vinicius não ligar de meia em meia hora para a mãe para dizer que está vivo, é confusão na certa. “Às vezes, de uma em uma hora está bem, porque ela se tranqüiliza, mas isso é ruim porque estou numa festa e toda hora tenho que lembrar de ligar”, lamenta.

Ele, normalmente, atende todas as chamadas da mãe e explica: “Se não atendo, ela vai até onde estou para me buscar, então o melhor é atender mesmo. É ou não é uma coleira eletrônica?”. Para ele, a única vantagem de ter o celular, é poder ir a lugares que antes não tinha permissão.

Vinicius tem duas irmãs, de 9 anos, e aposta que logo, logo, elas ganharão aparelhos celulares de presente. “Minha mãe certamente também vai querer controlá-las”, afirma.

Rodrigo Valentim Trevisan, 12 anos, também é monitorado pela mãe. Há um ano ele é adepto do celular e a pessoa que mais recebe suas chamadas é a mãe. “Ligo para avisar onde estou para que ela não se preocupe ou para ela me buscar em algum lugar. O gasto maior do telefone é mesmo com ela. Eu ligo e ela liga, sempre. No mínimo uma vez.”, conta.

Ele acredita que o celular não faz muita diferença. “Se ficasse sem, até seria um sossego porque quando não tinha, eu não precisava ficar ligando para minha mãe o tempo todo, mas agora se não ligo, ela já fica preocupada”, reclama.

Os estudantes Rubens Chinali Canarim, 13 anos, e Marcelo Martins Insabralde, 12 anos, também possuem celular. Os dois gostam que as meninas tenham celular. “Assim, nós não temos problema em ligar para ela. Na casa dela, o pai pode atender e é ruim. No celular, você sabe que vai falar diretamente com ela”, explicam.

Marcelo é o namorado de Aline. Ele gasta todos seus créditos, R$50,00 ao mês, com ligações para ela. É a pessoa para quem mais liga. “Em casa, posso ligar a cobrar”, diz.

Rubens já usa mais o celular para ligar para os pais. Também gasta cerca de R$50,00 por mês. Ele e seu irmão, Renato Chinali Canarim, 11 anos, possuem celular há um ano. Os pais foram quem presentearam os filhos. A questão, mais uma vez, gira em torno da segurança. “Ligo sempre para os meus pais para dizer onde estou e para me buscarem em alguma festa. Acho que eles se preocupam”, afirma Rubens.

Na moda

Não basta ter celular. As meninas adoram, mas preferiam ter aparelhos menores. Normalmente, elas ganham os celulares dos pais, mas quase sempre são de modelos não tão modernos. Isso porque os aparelhos mais novos, menores, custam bem mais caro.

João Carlos Martins, pai de Bruna, 13 anos, e Bianca, 15 anos, diz que as filhas queriam um aparelho que custa, em média R$800,00 cada. “Impossível. Jamais poderia dar um aparelhos desses. Na verdade, comprei os dois numa promoção. Nem me preocupei com os aparelhos, mas elas reclamaram”, conta.

“Claro que eu queria um outro aparelho, afinal de contas o dele é daquele bem lindo, o Visium, da Samsung. Tudo bem que custa caro, mas eu também queria um”, reclama Bruna, mas o pai explica. “Eu preciso do celular para trabalhar, um pequeno posso colocar no bolso”. E Bianca contesta: “E nós, quando saímos temos que levar bolsa só para levar o celular”.

Natalia Martins Insabralde, 14 anos, concorda com Bruna e Bianca: “Nós não queremos tijolo. É horrível ter que levar bolsa em festas só por causa do celular”, diz.

Mas a mais patricinha de todas é Kamilla Alcântara de Oliveira Arruda, 15 anos. Ela troca a capa do celular a cada roupa que usa. “Acho o máximo poder combinar a cor do celular com a roupa que estou usando. Tenho sete cores diferentes”, conta.

Débora Fernandes Dezotti, 14 anos, Mariana Mayumi Yanaguihara, 14 anos, e Tainá Garcia Parra, 14 anos, também afirmam que preferiam outros aparelhos, mas como por hora não é possível, se contentam com os que têm.

Cinthia Aguiar Sanches, 14 anos, já não se importa com isso. “Acho que o meu está ótimo. O importante é ter um e poder ligar para as amigas”, diz.

Todas elas confessam que, quando podem, usam o telefone do pai. â€œÉ uma delícia poder usar o dele. De final de semana, sempre faço isso”, conta Natalia.

Comentários

Comentários