O painel sobre toxicologia do chumbo, realizado ontem à tarde na Câmara Municipal de Bauru, demonstrou que a legislação brasileira está defasada na adoção de parâmetros internacionais para o controle do saturnismo, doença provocada pela contaminação com chumbo. O presidente da comissão municipal de saturnismo, vereador José Humberto Santana (PV), realizou o ciclo de palestras para informar a população dos problemas da contaminação com o produto.
O painel foi ministrado pelo mestre em medicina e doutor em saúde coletiva pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Eduardo Mello De Capitani, e a bióloga Mônica Maria Bastos Paoliello, doutora em saúde coletiva na área de toxicologia ambiental e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), do Paraná.
Os especialistas afirmaram que os critérios adotados para estabelecer limite na contaminação de chumbo no sangue estão defasados no Brasil. “O índice de 15 microgramas de chumbo por decilítro de sangue usado aqui já não é mais tolerado em muitos países onde o processo está avançadoâ€, diz. Já sobre a contaminação do solo a realidade é diferente. Os palestrantes informaram que os Estados Unidos atuam com 400 miligramas por quilo, enquanto que a Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) utiliza padrões inferiores a 350 miligramas.
A referência indica o estágio de contaminação. Em análises de solo realizadas em frente à fábrica de baterias da Ajax em Bauru, por exemplo, as concentrações encontradas ultrapassam o valor de intervenção, que é de 350 miligramas de chumbo por quilo de solo. Neste local, foram encontradas 2.660 miligramas de chumbo por quilo de solo.
Os professores tomaram cuidado ao comentar o caso de Bauru. Mello disse que a contaminação é elevada em algumas situações (como as crianças por exemplo) mas, por outro lado, disse que não há motivos para pânico com a adoção das providências necessárias. “A média encontrada nos laudos é elevada e, na média, já seria se indicasse algo em torno de 12 miligramas. Aqui existem extremos de contaminação próxima de 40. Tomadas as providências o problema é controlávelâ€, disse.
Contudo, o professor informou que as crianças terão que se submeter a novos exames de sangue em cerca de seis meses. “Pelo menos mais uma sessão de exames tem que ser realizada para acompanhar o caso. A área, mesmo sendo limpada, também só vai deixar de ter os índices atuais de contaminação com o tempo. Será um processo prolongado para a recuperação do localâ€, informou.
Segundo ele não há critério técnico definido para os casos de mães grávidas. “Já se sabe que a contaminação passa de mãe para o filho através da placenta, mas não há índices. A recomendação genérica é para a mulher que está grávida não se expor ao chumbo durante o períodoâ€, citou Mello.
Outro aspecto defasado da legislação nacional, segundo os especialistas, é em relação ao limite de contaminação para os trabalhadores de fábricas que usam o chumbo. “Na lei brasileira é 60 microgramas por decilítro. Está errado. Está comprovado que os adultos apresentam problemas com a contaminação já a partir de 35 microgramas no sangue. Tem até tese de doutorado demonstrando isso. A lei precisa ser modificadaâ€, afirmou.