“Se hay govierno, soy contra†é a célebre frase do mais admirado guerrilheiro de todos os tempos, Che Guevara. Argentino, médico, guerrilheiro, mas acima de tudo revolucionário. A noção crítica fundamental para abalar as estruturas é questionar o sistema, o modo das coisas, as práticas e os interesses. É difícil compreender como muitas pessoas ainda fundamentam suas idéias e sua maneira de agir, de uma forma tão adequada a um sistema antiquado, em um novo tempo, a saber, os dias da revolução digital.
Falar em revolução tecnológica, digital ou seja lá o que for, deixou de ser uma paranóia para cair no esquecimento das pessoas que, não sei por que cargas d’água, insistem em tratar o mundo da mesma maneira chinfrim de sempre. A maneira capitalista de encarar o mundo, em que o poder econômico está sobre todas as coisas. Isso pode até ser realidade hoje, mas quando nossos filhos, netos e bisnetos estiverem vivendo seu presente, muito provavelmente essa lógica não seja mais vigente sobre os seres pensantes do planeta.
Vivemos os dias da transição, e mais que ninguém temos a possibilidade de pensar o mundo de amanhã com um pé no mundo de ontem. Porém, muita gente (articulistas e mais articulistas de plantão) vivem querendo repassar velhas fórmulas para um mundo que, a bem da verdade, deve e está sendo recriado. Um sistema que não preza direita ou esquerda, azuis ou vermelhos, capitalistas ou comunistas. Um sistema que tende a erradicar as massas disformes e os números de série.
Sem dúvida alguma, estamos frente a frente com o novo, com a possibilidade do resgate, da reconstrução. Um tempo em que matéria e pensamento se fundem em um poder de concepção quase divino, que nos é permitido graças a um conhecimento que o homem jamais almejou alcançar. A multiplicação do saber tem alcançado até os mais incautos, ignorantes e estúpidos. O conhecimento é o novo poder monetário e a troca, o escambo desse conhecimento, a forma como os mercados irão interagir daqui para frente.
Essa maneira de pensar pode nos conduzir a uma concepção errada, falsa de um certo futuro que idealizamos. Nossas mentes ainda estão arraigadas de tal forma nos sistemas de produção e consumo que realmente parece ser impossível imaginarmos o que essa revolução que vivemos hoje realmente significa. E qual será o legado que deixaremos para as gerações futuras, quando as interconexões entre as mentes consistem em um valor de maior riqueza que bens duráveis e relações comerciais e pessoais sintéticas?
O poder das idéias passa a ser um poder gerador, mais que o próprio trabalho. E a informação, seja ela qual for (desde o noticiário mais fútil a informação genética mais imprescindível), deve permear a consciência da democratização, da desmonetarização, e estar acessível e disponível a todos os seres humanos de forma livre, independente do meio por qual ela se propaga e se propagará em um futuro não muito distante. Os valores (morais, financeiros, estéticos etc.) estão sofrendo uma mutação profunda, mudando não apenas a maneira de pensar, mas a vida e a formação da sociedade de um ponto de vista global.
“O meu reino por um cavaloâ€, bradava Ricardo III em Shakespeare, desvendando a relatividade entre os valores socialmente estabelecidos. Ora, qual será a nossa riqueza para o futuro? Que regras são verdadeiramente imutáveis? Na falta de uma frase de efeito para terminar esse texto, só é possível dizer: prever o futuro é tarefa para poucos, especialmente quando ele chega tão depressa e voraz nos dias de hoje, colocando em choque os valores, jargões e lugares comuns que nos protegem da mudança. (H. Guther Faggion (gutherf@terra.com.br) é jornalista, formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), e editor especial da revista Nova-e (www.nova-e.inf.br).