Articulistas

Travestis & travestidos


| Tempo de leitura: 3 min

Mais uma vez o Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga entidade de direitos humanos dos homossexuais do país, sai na frente e provoca polêmica: exibe farta coleção de fotos, gravuras, caricaturas e depoimentos de políticos, alguns presidenciáveis uns travestidos de mulher, outros beijados por travestis ou drag-queens, outros ainda travestis de verdade, assumidos, com peito de silicone e nome de mulher, que concorrem às próximas eleições como deputadas estaduais nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina. Mais de 95% dos políticos no Brasil são do sexo masculino. A política é um dos setores onde o machismo se manifesta com maior força: prova disto é a dificuldade de ser votado e aprovado no Congresso Nacional o Projeto de Parceria Civil entre Pessoas do Mesmo Sexo, que desde 1995 está engavetado na Câmara dos Deputados. Diversas vezes nossos parlamentares usam a tribuna para falar mal e insultar os homossexuais, não sendo rara a utilização da suposta homossexualidade dos adversários como estratégia de enfrentamento político. Homossexual político assumido é coisa rara na história brasileira: na década de 80, o deputado estadual João Batista Breda (PT/SP); em Colônia do Piauí, a travesti-vereadora Kátia Tapeti, do PFL; em Formiga (MG), a travesti Galo Veio, e em Tanguá, no Estado do Rio, Mary da Clínica, também travesti. Outro homossexual assumido foi o vereador Renildo José dos Santos, de Coqueiro Seco, Alagoas, brutalmente assassinado em 1995.

A exposição revela o quanto o travestismo invade o imaginário dos ilustradores de jornal e humoristas, que esperam provocar gargalhada nos leitores ao verem respeitáveis políticos vestidos de mulher. Entre os políticos travestidos representados nos principais jornais do país, incluem-se FHC, ACM, Collor, Lula, Paulo Maluf, Serra, Ciro Gomes, etc. Mulheres travestidas de homem é muito mais raro no humor político: só duas exceções - Marta Suplicy, representada como Che Guevara, e Roseana Saney ostentando enorme bigode igual ao do pai senador. O que provoca mesmo riso e deboche é atingir o machismo de nossos parlamentares, pois político algum quer carregar esta terrível fama de parecer-se com gay ou travesti.

Dois são os objetivos da exposição: 1) discutir e polemizar a questão da sexualidade e do “gênero” de nossos políticos, pois não há nenhuma incompatibilidade entre ser um excelente político e ser travesti ou homossexual - ou ser travestido numa caricatura no jornal. O prefeito de Nova York, Giulianni, apareceu vestido de sexy drag-queen num show beneficente na televisão e nem por isto deixou de ser um dos políticos mais respeitados e queridos nos Estados Unidos; 2) o Grupo Gay da Bahia deseja também chamar a atenção da população em geral e dos homossexuais em particular, para a importância de também os gays, lésbicas, travestis e transexuais disputarem cargos políticos e terem voz ativa em todos os níveis de representatividade política, a fim de defender a cidadania plena das minorias sexuais.

Até o presente, já são onze os candidatos assumidamente homossexuais concorrendo às próximas eleições: 5 gays, 3 lésbicas e 3 travestis, dos quais, 4 de São Paulo, 2 do Paraná e Minas Gerais, e um da Bahia, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Dentre estes, 8 concorrem a uma vaga para deputado estadual, 2 para deputado federal e uma senadora. (O autor, Luiz Mott, é professor titular do Departamento de Antropologia da UFBa e presidente do Grupo Gay da Bahia)

Comentários

Comentários