Cultura

A dor e o prazer de existir

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez, a vela recebeu a visita do fósforo. “Cara amiga vela, eu recebi a tarefa de acendê-la”, disse o fósforo cordialmente. A vela então ficou apavorada e disse: “Não, por favor não faça isso! Se você me acender meus dias estão contados!”

O fósforo, com muita calma, perguntou: “Mas você quer ficar assim fria e dura pelo resto da vida?” A vela continuou: “Mas, se você me acender eu vou queimar. E isso com certeza vai doer.” “Este é o mistério da nossa existência”, explicou o fósforo, “o sentido da minha vida é levar a luz. A mesma coisa é contigo. Você dá sentido à sua vida se você levar luz e calor aos outros.

Caso contrário, sua vida não tem razão de ser. É claro que dar um sentido a nossa vida pode doer, mas esta é a única forma de vivermos realmente.” Então a vela compreendeu como é pobre uma vida marcada pelo medo e permitiu que o fósforo a acendesse.

O que define o ser humano, segundo Martin Heidegger, é a dinâmica de sua permanência em uma realidade concreta. Nós não possuímos um “ser” já pronto e acabado, mas este está em constante formação e sofre transformações através de nossas experiências, de nossa interação com os outros e com o meio ambiente.

Em outras palavras, o que caracteriza nosso ser é o “estar aqui”. Somente o “estar aqui” pode dar forma à nossa existência, ou seja, ao nosso ser. O conteúdo do ser é determinado pela maneira de estar. Uma pessoa humana possui uma existência única e particular graças à história que ela escreve durante sua permanência na realidade.

A nossa existência é boa ou ruim dependendo das limitações que devemos enfrentar em nosso “estar aqui”. A essência do “estar aqui”, por sua vez, não se constitui em algo abstrato, mas sim em um “estar-no-mundo”. Nós surgimos em uma certa família, em uma determinada sociedade e enfrentamos os problemas e as alegrias típicas do lugar onde vivemos.

Este “estar-no-mundo” significa conhecer o universo e interagir com este, o que faz com que o transformemos e ele, por sua vez, nos transforme. Este processo que vai constituindo nossa existência, o processo de estar aqui no mundo e interagir com ele não é algo pacífico, mas essencialmente conflitivo.

Aprender, conviver, partilhar, amar, enfim, viver nos traz não somente experiências prazerosas, mas também dolorosas. “Muitas vezes, a prova de coragem não é morrer e sim viver” (Alfieri).

Diante da realidade de “estar aqui”, de “estar-no-mundo”, o que mais amedronta o ser humano é a possível descoberta de que nada em sua existência é essencialmente absoluto. O que define algo como absoluto é a capacidade de ser auto-suficiente e de ser eterno.

O absoluto não necessita da existência do outro e não está sujeito a modificações. Ele seria para o ser humano a rocha, o alicerce, a sua segurança. Na filosofia romana (Cícero, Sêneca) o absoluto correspondia à idéia de perfeito e determinava a busca de uma vida feliz. Ele era entendido somente como uma utopia que podemos ter sempre diante de nossos olhos e que possui uma função regulativa de nossos pensamentos e de nossas ações.

Paz, felicidade, fraternidade, comunhão devem ser idéias absolutas e eternas que nos orientam para onde devemos caminhar. Mas mesmo estas idéias sofrem transformações quando nos perguntamos o que elas concretamente significam.

Paz, fraternidade ou comunhão podem ser imaginadas e podem se exteriorizar de diversas formas. Em seu conteúdo, até mesmo as idéias absolutas são modificáveis. Mesmo os princípios éticos e morais nunca foram e nunca serão absolutos, pois estão sujeitos a transformações nas diferentes culturas, mentalidades de nosso mundo.

“O fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável” (Hannah Arendt). A única forma absoluta que é possível possuir encontra-se no mundo do sagrado. Através da fé em um um Ser transcendente, o ser humano pode encontrar a possibilidade de ter algo imutável e permanente.

Deus é um ser que não está condicionado ao “estar aqui” e, portanto, não está sujeito a transformações. Mesmo assim, a imagem que o homem possui de Deus está dependente das experiências que este homem faz em seu “estar-no-mundo”. É por esta razão que a imagem de Deus possuiu na história da humanidade semblantes tão diversos e continua, neste século 21, a ser vista e compreendida de diversas formas.

Na verdade, o ser humano não possui alternativa no que se refere à existência. Sua única possibilidade é enfrentar a aventura do “estar aqui”, ou melhor, do “estar-no-mundo”. Neste vivemos a dor das transformações, mas também o prazer de novas descobertas.

Tentar fugir desta aventura cheia de alegrias e tristezas, amor e negatividade, vida e morte, é negar o sentido a vida: construir uma existência que seja luz e calor, ou seja, viver realmente. “Aprendi o segredo da vida vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar” (Raul Seixas).

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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