Novamente os povos e governos de todo o mundo se reúnem no contexto da Organização das Nações Unidas (ONU) para discutir sobre os progressos em relação ao meio ambiente e à qualidade da vida, dez anos depois da conferência do Rio de Janeiro, realizada em 1992. Naquela ocasião, os representantes de diversos povos indígenas se reuniram na réplica de um hábitat tradicional brasileiro, a aldeia Kari-Oca, para debater sobre como contribuir, com base em nossas experiências e conhecimentos, com a defesa do meio ambiente e de nosso futuro comum.
Participaram 750 líderes dos quatro cantos do mundo. Procurávamos demonstrar ao homem branco que sua forma de construção do mundo só faz aumentar a distância entre os povos, a desconfiança, a insegurança e, principalmente, a destruição do meio ambiente. Assim nasceu a Carta da Terra, que nós, os cidadãos da selva, apresentamos durante a Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como Rio-92. Uma carta simples e profunda, que não admite interpretações sobre o meio ambiente e prescreve formas de respeitá-lo e protegê-lo. Todos ouviram a mensagem indígena, aplaudiram, emocionaram-se e depois voltaram a submergir em suas atividades cotidianas. Agora, a ONU, preocupada com os erros sistemáticos que continuam causando poluição, desmatamento e pobreza social, bem como com a falta de compromisso dos dirigentes dos países ricos, faz este novo chamado no sentido de enfrentar os mesmos problemas que discutimos na Rio 92. Não falta análise sobre o meio ambiente, mas ações concretas. Por isso, os povos indígenas oferecem a sabedoria de nossos anciãos para que o homem branco possa voltar a buscar a qualidade da vida.
Reconhecemos que em outros setores atendidos pela ONU temos obtido avanços, como a instalação de um Fórum Permanente para os Assuntos Indígenas e a Declaração Universal dos Direitos Indígenas, embora pouco tenha progredido a aplicação efetiva desses direitos em nossas vidas, como o reconhecimento, a demarcação e a proteção de nossas terras. Observamos que, ao contrário da Rio 92, a Cúpula de Johannesburgo mostra-se renitente em acolher o espírito de defesa da Terra e de seus povos. Talvez, a diferença resida em uma condução que prioriza os argumentos tecnológicos a favor do desenvolvimento material.
Nós indígenas sabemos que é difícil para os acionistas de Wall Street e para os cidadãos da União Européia compreender os valores de nossos povos, que relacionam o material com o imaterial. Entretanto, desejamos que nossa voz não seja ouvida apenas como bela poesia. São verdades que podem ajudar a estabelecer um equilíbrio entre modernidade e tradição, economia e ecologia. Não esqueçamos que o assédio da modernidade chegou às mais distantes comunidades sob o império da globalização.
Talvez nós, os povos da selva, sejamos considerados apenas como os “guardiões da terraâ€. Mas temos demonstrado durante longos séculos que sabemos conviver com a natureza. Por isso, dez anos depois da Carta da Terra indígena, reclamamos da Conferência de Johannesburgo que nos reconheça o papel de partícipes na construção do futuro comum a toda a humanidade. (O autor, Marcos Terena, é indígena da etnia terena, é membro do Comitê Intertribal e conselheiro da Comissão Indígena da Propriedade Intelectual do Brasil)