Saudades do Mestre Hélcio P. Ribeiro!
O dia amanheceu quase perfeito. O friozinho do inverno tardio nos torna mais reflexivos. As chuvas do fim de semana limparam o ar e tornaram a paisagem mais nítida, mais verde, as flores mais coloridas, o céu de brigadeiro, típico de dias frios.
O prof. Hélcio não está mais conosco. Ouvi a notícia no rádio logo cedo. A visita, sempre adiada, não chegou a acontecer.
Quem conviveu as segundas feiras com o prof. Hélcio e d. Irmã, que abriam sua sala de audição para receber os Amigos da Boa Música, sabe quantas saudades ele nos deixa. Quantos momentos bons! Com sua voz rouca, cansada, ele nos explicava parte por parte cada obra, cada peça. Parecia ter convivido junto com o compositor, tamanha sua intimidade com os grandes mestres. Quanta generosidade, que espírito nobre tinha esse Homem! Trabalhou e muito pela Cultura! Fazia sua parte e não escondia sua decepção com a política cultural de nosso país. Em sua casa acolhia curiosos, amantes da boa música, estudantes, intelectuais, que recebiam e partilhavam informações sobre tudo, mas principalmente sobre música, nas suas mais diversas nuances.
A pausa sagrada para a água fresca que d. Irma servia com tanto carinho, o Jornal da USP que o sr. Paulo trazia, amigos estrangeiros abrasileirados, a assinatura do livro de presenças, o certificado de assiduidade...
A última vez que o vi foi no dia de seu aniversário, 11 de abril. Dia de grande movimento de pessoas, inúmeros telegramas, telefonemas e homenagens. Levei à ele um vinil de Música Colonial Brasileira. Uma singela lembrança diante de tamanho conhecimento. Ainda hoje vi um artesão do sul das Minas Geraes vendendo suas esculturas em madeira nas ruas de Bauru. Carregava nas mãos um lindo São Francisco em cedro. Prof. Hélcio foi um precioso instrumento de paz através da música. Que suas sementes lançadas no Clube Amigos da Boa Música dêem frutos.
A arte vive! Professor Hélcio vive em nossos corações. Pensando bem, o dia amanheceu perfeito: uma enorme festa o espera no Céu, na Glória de Deus, juntamente com Mozart, Carlos Gomes, Wagner, Villa-Lobos, Bach, Tom Jobim, Radamés, Chopin... À d. Irma, nosso abraço fraterno, nosso carinho, nosso respeito. (Claudinei Ferreira Lima - RG 17.158.114-3)