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Talentos tipo exportação

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Tiago Afonso Canola, 21 anos, e César Muniz, 23 anos, ambos estudantes de design industrial da Universidade Estadual Paulista (Unesp) câmpus de Bauru, embarcaram semana passada a Detroit a fim de participar, durante os próximos oito meses, de um curso avançado de design automotivo na Wayne State University.

Canola é um dos finalistas de 2002 do concurso nacional de design promovido anualmente pela Volkswagen, em que ele concorre com o desenho do “Citycar”. Já Muniz, graças a uma premiação obtida em 2001, na mesma competição, com uma picape conceito denominada “Kombo”, já foi um dos estagiários no setor responsável pelos desenhos dos carros da montadora. Neste, ele também desenhou um protótipo de Fórmula 1.

O concurso é realizado desde 1998 e, em todas as edições, a Unesp/Bauru teve estudantes selecionados entre os dez finalistas ou participaram dos estágios na Volkswagen, que são oferecidos sempre aos três primeiros colocados. A melhor participação foi em 1998, quando os três melhores foram da instituição local.

E foram justamente os trabalhos elaborados pelos alunos que atraíram a atenção do reitor americano, que os selecionou pessoalmente para o freqüentar o curso através de um convênio firmado entre a Wayne State e a Unesp/Bauru. “Levei sete estudantes para São Paulo, onde o reitor os entrevistou e aprovou cinco. Entretanto, em virtude de compromissos pessoais, apenas os dois puderam ir”, explica Osmar Vicente Rodrigues, professor de Canola e Muniz.

No fechamento do convênio, ficou estabelecido que a Wayne State e a Unesp dividirão parceiramente as despesas dos estudantes durante o curso. “A universidade americana está oferecendo boa parte do suporte e, principalmente, dos custos de manutenção. A Unesp se encarregou das passagens aéreas e da outra parte da manutenção”, afirma Rodrigues.

Expectativas

Para Tiago Canola, a oportunidade de freqüentar um curso fora do Brasil sobre design gera, ao mesmo tempo, ansiedade e certo medo. “Chega até a assustar participar de um curso desse nível. Persegui isso durante toda minha vida e desde que decidi seguir essa área. Agora me sinto privilegiado em ter uma chance dessa, pois nem todos a têm. Além disso, tal experiência irá contar muito para o currículo”, ressalta.

O estudante espera fazer muitos contatos e direcionar seu futuro profissional, que ele espera ser nos Estados Unidos. “Quero concluir o curso na Unesp e deixar algo encaminhado por lá, como fazer uma pós-graduação ou um colégio específico na área”, conta Canola.

Ansiedade e planos também não faltam para Muniz. Para ele, a chance de fazer o curso avançado na universidade de Detroit pode ser considerado como o topo de sua carreira acadêmica. â€œÉ um resultado significativo, visto que concorremos com alunos de todo o Brasil. Por isso, é importante conseguirmos bons resultados por lá para que possamos abrir as portas não apenas para nós, mas para os demais unespianos”, diz César Muniz.

Depois do curso, a intenção do estudante é voltar ao Brasil e fazer uma pós-graduação. Ao mesmo tempo, ele estuda outras possibilidades. “Há negociações com a Fiat, que ficaram em standy by para quando eu retornasse de Detroit, para conseguir uma bolsa de estudos na Itália”, revela Muniz. “Assim, enquanto estiverem me dando oportunidade vou aproveitar da melhor forma possível e tentar dar retorno para quem me oferece”, acrescenta.

Ele também destaca o apoio dado pela Unesp. “Não existiria condições de fazermos esse intercâmbio sem a contribuição dela e do Estado”, frisa César Muniz. Entre as dificuldades que ele espera encontrar, o fato de serem os primeiros a fazer o curso é uma delas. “Não temos parâmetros para nos basear. Há um aluno brasileiro que estuda na mesma universidade que já contatamos, mas não é nossa situação. Estamos indo em uma condição bem mais acadêmica.”

Entretanto, difícil mesmo para o estudante será superar a distância da família e da namorada. â€œÉ a primeira vez que viajo para o Exterior. Até hoje, o lugar mais longe que fui no Brasil foi Betim, em Minas Gerais, mas agora será um país diferente e deixar os parentes aqui será complicado”, conclui o estudante.

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Portas abertas

O professor Osmar Rodrigues considera que o convênio firmado fechou com chave de ouro um “namoro” existente há certo tempo entre as instituições. “Ambas possuem algumas afinidades, mas a trajetória de sucesso da Unesp no concurso de design da Volkswagen, que já premiou vários de nossos alunos, acabou aproximando e estreitando o relacionamento entre as universidades”, afirma Rodrigues.

Segundo o professor, o desempenho dos alunos da Unesp concretiza um trabalho de muitos anos desenvolvido no segmento de ensino. â€œÉ algo que chama a atenção da Volkswagen pelo fato de ser uma universidade distante mais de 300 quilômetros do eixo da indústria automobilística. Além disso, não temos professores ligados à montadoras. Para nós é gratificante, pois é um trabalho feito, ainda, sem contato com as fábricas”, diz.

Para o docente, o curso nos Estados Unidos pode ser o início de um futuro promissor entre a Wayne State e a Unesp e para os próprios alunos. “O interesse de ambos é grande nesse intercâmbio científico-cultural envolvendo não só os alunos, mas também professores e grupos de pesquisa.”

Osmar Rodrigues destaca que, após o término do curso no exterior, há a possibilidade de ambos serem absorvidos pelas montadoras. “Além disso, aqueles que a Volkswagen acaba não incorporando a seus quadros ficam à disposição de outras montadoras em uma espécie de banco de estagiários. Temos casos desses alunos que já foram para a GM e a Ford”, finaliza o professor.

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