Tiago Afonso Canola, 21 anos, e César Muniz, 23 anos, ambos estudantes de design industrial da Universidade Estadual Paulista (Unesp) câmpus de Bauru, embarcaram semana passada a Detroit a fim de participar, durante os próximos oito meses, de um curso avançado de design automotivo na Wayne State University.
Canola é um dos finalistas de 2002 do concurso nacional de design promovido anualmente pela Volkswagen, em que ele concorre com o desenho do “Citycarâ€. Já Muniz, graças a uma premiação obtida em 2001, na mesma competição, com uma picape conceito denominada “Komboâ€, já foi um dos estagiários no setor responsável pelos desenhos dos carros da montadora. Neste, ele também desenhou um protótipo de Fórmula 1.
O concurso é realizado desde 1998 e, em todas as edições, a Unesp/Bauru teve estudantes selecionados entre os dez finalistas ou participaram dos estágios na Volkswagen, que são oferecidos sempre aos três primeiros colocados. A melhor participação foi em 1998, quando os três melhores foram da instituição local.
E foram justamente os trabalhos elaborados pelos alunos que atraíram a atenção do reitor americano, que os selecionou pessoalmente para o freqüentar o curso através de um convênio firmado entre a Wayne State e a Unesp/Bauru. “Levei sete estudantes para São Paulo, onde o reitor os entrevistou e aprovou cinco. Entretanto, em virtude de compromissos pessoais, apenas os dois puderam irâ€, explica Osmar Vicente Rodrigues, professor de Canola e Muniz.
No fechamento do convênio, ficou estabelecido que a Wayne State e a Unesp dividirão parceiramente as despesas dos estudantes durante o curso. “A universidade americana está oferecendo boa parte do suporte e, principalmente, dos custos de manutenção. A Unesp se encarregou das passagens aéreas e da outra parte da manutençãoâ€, afirma Rodrigues.
Expectativas
Para Tiago Canola, a oportunidade de freqüentar um curso fora do Brasil sobre design gera, ao mesmo tempo, ansiedade e certo medo. “Chega até a assustar participar de um curso desse nível. Persegui isso durante toda minha vida e desde que decidi seguir essa área. Agora me sinto privilegiado em ter uma chance dessa, pois nem todos a têm. Além disso, tal experiência irá contar muito para o currículoâ€, ressalta.
O estudante espera fazer muitos contatos e direcionar seu futuro profissional, que ele espera ser nos Estados Unidos. “Quero concluir o curso na Unesp e deixar algo encaminhado por lá, como fazer uma pós-graduação ou um colégio específico na áreaâ€, conta Canola.
Ansiedade e planos também não faltam para Muniz. Para ele, a chance de fazer o curso avançado na universidade de Detroit pode ser considerado como o topo de sua carreira acadêmica. â€œÉ um resultado significativo, visto que concorremos com alunos de todo o Brasil. Por isso, é importante conseguirmos bons resultados por lá para que possamos abrir as portas não apenas para nós, mas para os demais unespianosâ€, diz César Muniz.
Depois do curso, a intenção do estudante é voltar ao Brasil e fazer uma pós-graduação. Ao mesmo tempo, ele estuda outras possibilidades. “Há negociações com a Fiat, que ficaram em standy by para quando eu retornasse de Detroit, para conseguir uma bolsa de estudos na Itáliaâ€, revela Muniz. “Assim, enquanto estiverem me dando oportunidade vou aproveitar da melhor forma possível e tentar dar retorno para quem me ofereceâ€, acrescenta.
Ele também destaca o apoio dado pela Unesp. “Não existiria condições de fazermos esse intercâmbio sem a contribuição dela e do Estadoâ€, frisa César Muniz. Entre as dificuldades que ele espera encontrar, o fato de serem os primeiros a fazer o curso é uma delas. “Não temos parâmetros para nos basear. Há um aluno brasileiro que estuda na mesma universidade que já contatamos, mas não é nossa situação. Estamos indo em uma condição bem mais acadêmica.â€
Entretanto, difícil mesmo para o estudante será superar a distância da família e da namorada. â€œÉ a primeira vez que viajo para o Exterior. Até hoje, o lugar mais longe que fui no Brasil foi Betim, em Minas Gerais, mas agora será um país diferente e deixar os parentes aqui será complicadoâ€, conclui o estudante.
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Portas abertas
O professor Osmar Rodrigues considera que o convênio firmado fechou com chave de ouro um “namoro†existente há certo tempo entre as instituições. “Ambas possuem algumas afinidades, mas a trajetória de sucesso da Unesp no concurso de design da Volkswagen, que já premiou vários de nossos alunos, acabou aproximando e estreitando o relacionamento entre as universidadesâ€, afirma Rodrigues.
Segundo o professor, o desempenho dos alunos da Unesp concretiza um trabalho de muitos anos desenvolvido no segmento de ensino. â€œÉ algo que chama a atenção da Volkswagen pelo fato de ser uma universidade distante mais de 300 quilômetros do eixo da indústria automobilística. Além disso, não temos professores ligados à montadoras. Para nós é gratificante, pois é um trabalho feito, ainda, sem contato com as fábricasâ€, diz.
Para o docente, o curso nos Estados Unidos pode ser o início de um futuro promissor entre a Wayne State e a Unesp e para os próprios alunos. “O interesse de ambos é grande nesse intercâmbio científico-cultural envolvendo não só os alunos, mas também professores e grupos de pesquisa.â€
Osmar Rodrigues destaca que, após o término do curso no exterior, há a possibilidade de ambos serem absorvidos pelas montadoras. “Além disso, aqueles que a Volkswagen acaba não incorporando a seus quadros ficam à disposição de outras montadoras em uma espécie de banco de estagiários. Temos casos desses alunos que já foram para a GM e a Fordâ€, finaliza o professor.