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Os azares do Dudu


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Ninguém poderá negar que o presidente Fernando Henrique Cardoso é um homem de sorte. Chega ao fim do mandato com o Brasil pentacampeão no futebol. Conseguirá transferir para o próximo governo o pagamento das dívidas e os problemas maiores. Estará isento de responsabilidade se não fizer o sucessor e já tem emprego assegurado na ONU. Sequer está ameaçado de fazer companhia a milhões de pessoas que perderam seus postos de trabalho durante os oito anos do seu mandato.

Na história da República nem todos puderam usufruir do mesmo glorioso destino. Jango, Jânio e Collor tiveram que sair antes de completar o período. Getúlio foi deposto quando ditador e levado ao suicídio depois de eleito pelo voto livre. Na República Velha, Deodoro renunciou. O paulista Rodrigues Alves, eleito para suceder o mineiro Venceslau Brás, morreu de gripe espanhola antes da posse. Outros desditosos presidentes poderiam ser citados aqui, mas preferimos fechar o foco em Hermes da Fonseca, chamado de Dudu pelos íntimos. Passou para a história como um grande azarado, o rei da urucubaca. Tinha azar e ainda dava azar. A própria figura já era caricata – careca, baixinho, bigodes espetados para cima, quando vestia o uniforme de marechal perdia em imponência para qualquer porteiro de hotel. Virou até letra de uma mazurca (ainda não haviam inventado a marchinha e nem o carnaval): Ai, Filomena/Se eu fosse tu,/ Tirava a urucubaca/ Da cabeça do Dudu.

Antes de ser leito presidente, Dudu era ministro da Guerra de Afonso Pena. Baixinho invocado e gaúcho da fronteira, praticava gestos largos, falava alto e tinha repentes emocionais. Um dia, irritado com a decisão do governo de cortar verbas da sua unidade para poder pagar o Banco da Inglaterra (esse endividamento vem de longe), invadiu o gabinete do presidente, jogou a espada com sua bainha de prata sobre a mesa de despachos de Afonso Pena e pediu demissão. Foi estilhaço do vidro do tampo para todo lado. O velho presidente, assustado, sentiu-se mal e saiu carregado, direto para o hospital. Um mês depois morreu de enfarto mas a oposição diagnosticou “traumatismo moral”.

Logo depois de eleito presidente da República, em 1910, Hermes da Fonseca decidiu fazer uma visita ao rei de Portugal, D. Manuel II. Foi devidamente homenageado com um banquete no Palácio das Necessidades. Sentiu-se tão honrado que quis retribuir tanta nobreza com outro jantar, agora por sua (nossa) conta, em um palácio alugado. Cometeu a gafe de mandar servir vinho importado, ignorando que o vinho português é dos melhores do mundo. Como se isso não bastasse, chamou o rei D. Manuel de “D. João” no discurso e, na hora em que o rei falava em agradecimento, seu ordenança interrompe, esbaforido: - Majestade, uma desgraça! Vossa majestade acaba de deixar de ser majestade!

A monarquia portuguesa foi derrubada. O azarento Dudu sugeriu ao azarado ex-rei que se refugiasse no seu paquete. Era assim que chamavam os navios a vapor naquela época. Por causa da bandeirinha vermelha permanentemente hasteada no mastro principal, a palavra ganhou outra conotação no Brasil.

El-ex-rei declinou do convite. Vai que esse troço afunda. Preferiu refugiar-se em Gibraltar. Dudu também não deu a mínima. Aproveitou sua estada na Europa para contrair novo empréstimo na Inglaterra de 2 milhões e meio de libras para ser pago em 60 anos. O FMI da época era mais generoso mas a safadeza dos governantes era igual a de hoje. O presidente mandou depositar a metade em seu nome, em um Banco da Rússia, paraíso fiscal de então. Veio a revolução bolchevista de 1917, o tal banco foi encampado e seus fundos expropriados.

Dudu-presidente conseguiu atrair as atenções da belíssima Nair de Teffé, mulher além do seu tempo, jóia da sociedade do Rio de Janeiro. Fazia caricaturas para as revistas cariocas e assinava-se “Rian”. Alta, esguia, sempre alegre, educada em Paris, Nair casou-se com Hermes, o baixinho invocado. Um dia, ela que preferia o automóvel para passear, entrou na charrete com o marido para satisfazer os seus gostos fora de moda. O cavalo assustou-se com uma pigarreada escandalosa do Dudu, disparou, caiu em um buraco e Nair foi cuspida longe. Quebrou uma perna que ficou mais curta que a outra, maculando a sua formosura e joie de vivre..

Dudu, depois de deixar o mandato ainda foi preso, acusado de alta traição, por se envolver com a revolta de 1922 que exigia a restauração do poder dos militares.

Que o futuro presidente do Brasil seja feliz e possa compartilhar com nós todos a sua felicidade. Nem azarado e nem azarento para, pelo menos, livrar o povo brasileiro da urucubaca. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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