O “Corriere della Seraâ€, famoso matutino italiano, na coluna de Paolo Mieli, que estampa cartas selecionadas dos leitores, de tempos em tempos alguma respondida por ele, no dia 15 de junho de 2002, publicou uma, escrita por uma senhora da cidade de Bari, com o título “Votos da filha pelo aniversário do paiâ€.
Narra Glória Smaldini, como se apresentou a remetente, e escreve: “Caro Mieli, hoje meu pai faz 67 anos. Separou-nos a vida e, no meu coração, vivo uma relação conflitual, porque me considero a sua filha ‘não aproveitada’. Aos 3 anos, fui levada a um colégio interno, onde permaneci até a maioridade. Meu pai deixara minha mãe para tornar a casar com uma senhora. Não conheço seus dois outros filhos, porque, no dizer dele, a segunda mulher, ‘não quer misturar as famílias’.
Faz 30 anos que nos relacionamos à distância, vemo-nos esporadicamente, e presumo que isso ocorra sem que saiba a segunda mulher. Esperava que a velhice lhe trouxesse sabedoria e bom-senso, dissipando antigos rancores. Hoje, aos 39 anos, encontro-me ainda a esperar. Como meu pai é leitor do Corriere, peço-lhe abrigar em suas páginas meus cumprimentos para meu pai que ‘não aproveitei’.â€
A velhice é como a neblina, vai aparecendo e tomando conta de tudo. Ser velho hoje é diferente de outros tempos, mesmo porque envelhecer sempre foi um problema, já que ninguém nos ensina a ser ancião. A começar, dando um difícil adeus ao trabalho, sem neurose.
Em busca de um caminho, a liberdade, para que a semente dela possa germinar, e aquele que adentra à terceira idade não pode deixar de olhar dentro de si mesmo, para cultivar a sua alma e encontrar, enquanto puder, meios de utilizar o tempo. Pode ser um tempo para crescer, longe do falso ócio e perto de outras pessoas: coisa difícil de ser imaginada na juventude.
Pois é tempo de amor, também. E nada, nada mesmo substituirá certos laços, sobretudo sabendo que o idoso é mais vulnerável, por isso, nessa época, a vida pode ser mais cruel. O amor dos filhos pode existir ou não, mas o dos pais nunca deverá apagar, nem deixar que ele apague, porque, sobre todas as coisas, os filhos são o verdadeiro valor eterno. É neles que a família permanece. É no amor que se funda a família.
E, ao desejo da filha Glória em cumprimentar o pai “não aproveitadoâ€, trago as sábias palavras do escritor italiano, Arrigo Levi, que escreveu um livro impecável: “A velhice pode esperar†e, aos pais, ele recorda: “Inútil lamentar-se; este é o tempo da história que nos toca. Procuremos vivê-lo com os olhos abertos, com fantasia e coragem. Procuremos, antes de tudo, conhecê-lo e entendê-lo. No fundo, conhecer-se a si próprio é o mais importante para os velhos, ou também para os anciãos, do que para os gerontólogos: eles têm uma certa maneira de dizer-nos e ensinar-nos, ainda que às vezes, lendo o que escrevem, faz-nos pensar que eles têm ainda muito a aprender de nósâ€.
É o que Glória ainda espera de seu pai, que não a aproveitou, nem experimentou o seu amor, seu afeto, suas palavras de carinho e seus gestos de expressar felicidade. Sabe de que Deus concede força mesmo quando chega a velhice (Sl. 91,11). (O autor, Jayme Vita Roso, é advogado)