É uma verdade implacável: nada é igual desde os atentados de 11 de setembro. O que não está tão claro é se a frase refere-se comparativamente ao contexto anterior à tragédia ou se se aplica ao período que se segue imediatamente após a fatídica terça-feira até um ano depois. Paradoxalmente, a rigor, a psique política dos Estados Unidos segue igual à do meio da manhã do dia do atentado. Ainda está congelada pelo que os especialistas chamam de “excepcionalíssimoâ€, com fronteiras opacas e impenetráveis para a ameaça externa.
Pelo menos, este seria o diagnóstico adequado no que se refere à reação política de sua classe dirigente e ao sentimento de comoção experimentado pela maioria silenciosa. Com a exceção de uma minoria (também dividida, e não exatamente nas linhas tradicionais de direita e liberais), o grosso da sociedade norte-americana parece não saber bem o que aconteceu. É certo que nas proximidades de onde desapareceram as torres gêmeas existe um maior sentimento de solidariedade e de sentido associativo, precisamente em uma cidade que se orgulhava de ser meca do individualismo.
No restante do país, entretanto, com exceção das semanas em que se acrescentou o uso de bandeirinhas nas casas e nos automóveis (muito mais percebido nos bairros da classe operária do que em outros), pode-se dizer que a sensação de incredulidade e insensibilidade não foi superada. Ainda não foi decididamente vencida a etapa posterior à experiência de um trauma, de uma tragédia pessoal, sem cruzar a barreira da negação da evidência. O país oficial nunca conseguiu assumir a diferença entre a urgente identificação do que havia ocorrido, quem o executou e, o mais importante, por qual motivo.
Diante do espetacular desastre da defesa (US$ 7 bilhões) e da inteligência (os espiões, não os intelectuais) norte-americanas, dispersas em uma dezena de aparentemente inúteis agências que competiram entre si (a CIA e o FBI tiveram de firmar uma paz explícita) apenas em sua incapacidade de intuir o que vinha por cima, o sistema reagiu da mesma maneira que os malogrados bombeiros. Estes, nos primeiros minutos da tragédia, apressaram-se heroicamente em cumprir a única tarefa para a qual estavam preparados: identificar o fogo, dominá-lo e salvar as possíveis vítimas, sem fazer mais perguntas. A tragédia foi dupla: não somente morreram milhares de cidadãos anônimos como também centenas de bombeiros e policiais que nunca souberam o que enfrentavam.
No fundo, é o que está ocorrendo à América do Norte oficial. Nos primeiros minutos, registrou o que havia ocorrido, identificou os culpados e colocou-se como missão aniquilá-los. A qualquer preço. Como, no momento, esse custo parece ser acessível para a maioria, não houve reação. Em todo este ano, pouco se moveu na sociedade norte-americana. Gerou-se a inércia, apesar das aparências provocadas pelas sucessivas ações e ameaças da Casa Branca e do Pentágono, e o giro profundo sofrido pelo mundo com relação à angustiante presença dos Estados Unidos e seu insubstituível papel nas crises que se produzem ou são produzidas por ele.
No fundo, a tragédia continua sendo vivida como um fenômeno da esfera de assuntos externos. “Foreign Affairs†é para o norte-americano médio simplesmente uma revista especializada em um campo exótico. “Foreign†soa como na Legião Estrangeira. Um “affairâ€, em inglês dos EUA, é uma palavra que se refere a uma relação sentimental ilícita. A esse terreno pertence ainda a tragédia do 11 de Setembro. (Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami - jroy@miami.edu)