Tive o privilégio de ter sido aluno de três grandes poetas: Tasso da Silveira, simbolista de um subjetivismo quase hermético: “... Que temas modula o vento/ vagando por sobre o mar?/ Vento é, simplesmente vento/ mar é, simplesmente mar...â€; Jorge de Lima, de um lirismo espiritual muito pouco comum: “Não dividamos o mundo./ Dividamos Cristo:/ Todos ressuscitarão iguaisâ€; Manuel Bandeira - o poeta “capaz de transformar o humilde no sublimeâ€: “Quando eu tinha seis anos/ não pude ver o fim da festa de São João/ porque adormeci. Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo/ minha avó/ meu avô/ Totônio Rodrigues/ Tomásia/ Rosa... Estão todos dormindo/ estão todos deitados/ dormindo/ profundamente...â€
Não existe a morte absoluta. Realmente, não existe. É preciso acreditar nisto. Eugênio D’Ors afirma que “obra de arte é a vivência que se projeta numa matériaâ€. E, convenhamos, a obra de arte mais perfeita é o homem e o autor da obra é o artista perfeito - Deus. E porque a obra de arte é vivência projetada na matéria é que o homem é imortal. Porque chega o momento da missão cumprida e ele dorme, profundamente porque vai encontrar o artista que o criou na Eternidade e, quando a obra é, realmente, grandiosa ela fica eternamente por aqui como um rastro luminoso a resplandecer através dos tempos.
Todo homem que ama é feliz, todo o homem feliz deixa algo que uns chamam de saudade, outros chamam de lembranças mas, saudade ou lembranças, na verdade, nada mais são que a essência da imortalidade porque, saudade ou lembranças, de fato tornam quem as deixou, imortais. Imortais porque, ou através de lembranças agradáveis, queridas, alegres ou, ainda, por meio de saudade: falta dos bons momentos, ausência do que era (ou foi), presença constante ou mesmo, recordações de várias naturezas, a pessoa nos vem à mente e ao coração.
Estas considerações me vêm a propósito da partida de Hélcio Pupo Ribeiro, de cuja amizade tive o privilégio de partilhar e que considero uma das pessoas mais felizes que conheci por poder, diuturnamente, conviver com a música que é das mais fortes expressões de poesia.
E a conexão que tentei fazer com os poetas a que me referi no início é, justamente, a homenagem que pretendo prestar ao Hélcio, também poeta, e romântico, tanto que foi sepultado ao som dos acordes majestosos do grande romântico que foi Richard Wagner.
É mais um amigo que adormeceu e que, sem dúvida será muito bem lembrado. (José Benedicto Pinto - RG: 4.440.349)