Mesmo com a energia elétrica de casa desligada há três meses pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) por falta de pagamento, o vendedor Denir Marques de Souza, 51 anos, teve uma estranha surpresa no início deste mês: recebeu uma conta de luz no valor de R$ 40,80, referente ao consumo de 137 quilowatt/hora (kWh).
Para Souza, o mais curioso é que o relógio de força de sua casa continua marcando o número 04515, estacionado desde que sua energia foi cortada, segundo diz. Na conta de luz, em contrapartida, a CPFL registrou como última leitura o número 04652.
O vendedor relata que suas contas de energia sem pagamento acumularam, em nove meses, uma dívida de R$ 394,70. Mas durante esse período ele tentou parcelar o montante com a empresa terceirizada pela CPFL para fazer cobranças. “Tentei por todas as vias um acordo com eles e não consegui resposta. Eles estão sendo autoritários, estão impondo o que querem e não o que eu quero como consumidorâ€, declara Souza.
De acordo com o vendedor, sua energia não havia sido desligada antes pois ele teria encaminhado à empresa um atestado de que um neto dele, de 6 anos de idade, que morava em sua casa na época, tinha problemas de saúde. “Após o corte, minha filha mudou, pois ela não poderia ficar com um garoto morando aqui sem luzâ€, conta.
Além de ficar sem energia e com uma dívida de quase R$ 400,00, Souza agora tem de provar que não consumiu os 137 kWh que a CPFL aferiu, mas seu medidor não marca. “Se tivesse só o corte, seria normal. O que eu não concordo é com essa leitura que não bate com o relógioâ€, reclama.
Na opinião do dirigente do Sindicato dos Eletricitários (Sinergia/CUT) Jesus Garcia, o episódio ocorrido na casa de Souza pode ser classificado de “lamentávelâ€. “Essa leitura é terceirizada. Eles foram à casa dele, que já havia ocorrido o corte e estava com uma leitura x, e fizeram uma leitura yâ€, indigna-se.
Segundo o sindicalista, a empresa contratada para fazer a leitura do medidor de energia é paga por “produtividadeâ€, o que pode dar margem a erros nas contas de luz.
Garcia também declara que a CPFL - assim como as empresas de cobrança terceirizadas - estão pouco abertas à negociação quando o assunto é parcelamento de contas. “Vamos ver se conseguimos fazer uma ação jurídica para religar a energia deleâ€, diz.
Resposta
Por meio de sua assessoria de imprensa, a CPFL informou que, nos próximos dias, um técnico da empresa irá até a casa de Souza para verificar o medidor e conferir a leitura. Se for constatado o problema, a conta de luz do mês de setembro será substituída.
De acordo com a assessoria, a CPFL possui “um dos melhores índices nacionais†de divergência de leitura: 1,17 a cada 10 mil contas. De fato, além de funcionários da própria empresa, há pessoal terceirizado que faz a medição do consumo.
A CPFL sustenta que há limites de leitura estabelecidos para cada funcionário contratado, e que “premia†as empresas que apresentam a melhor qualidade do serviço prestado, e não a maior quantidade.
Quanto ao parcelamento, a assessoria da CPFL diz que a cobrança de débitos é realizada também através de empresas terceirizadas. No caso, a prestadora chama-se Monreal.
A assessoria forneceu números de telefone da empresa de cobrança, localizada em São Paulo. No entanto, em contato, a reportagem foi informada de que o parcelamento só poderia ser acertado em outro telefone, em Campinas.
Naquele local, a atendente Andréia Vitor disse que o vendedor Souza foi contatado em 8 de julho para quitar seu débito, mas não houve acordo para “pagamento amigávelâ€.
Segundo a atendente da Monreal, a CPFL autoriza apenas um tipo de parcelamento: pagamento integral de 60% da dívida acumulada mais o restante dividido em três vezes. Mediante o comprovante de pagamento, a energia é religada em 24 horas.