Articulistas

O umbigo de Adão


| Tempo de leitura: 3 min

Um cientista muito popular nos Estados Unidos chamado Martin Gardner, escreveu dezenas de livros que discutem basicamente o mesmo tema: o tradicionalismo que tomou conta do nosso tempo. Uma das suas obras lançadas agora no Brasil busca uma resposta para a pergunta: Adão e Eva tinham umbigo? Se não tinham umbigo não eram seres humanos perfeitos e se tinham aquele meandro ou nodosidade que chamamos umbigo, sua presença implicaria em um parto pelo qual jamais passaram. Adão foi feito de barro à semelhança de Deus e recebeu o sopro divino que lhe deu a vida. Eva veio de uma costela daquele primeiro homem, portanto, nenhum dos dois dependeu de uma placenta. Então, para que umbigo?

Michelangelo foi encarregado pelo Papa Julio II de pintar o teto da Capela Sistina com cenas da Criação, assim como o Juízo Final, na parede do fundo. Um dia o Papa foi espionar a obra - isso por volta de 1510 - e notou que o Adão criado por Deus da pintura de Michelangelo tinha (e tem) umbigo. Chamou o artista de blasfemo, disse que a obra era um absurdo. O gênio, lá de cima do andaime atirou um martelo em Sua Santidade. Se pega na testa iria fazer sair fumacinha branca, aquela que anuncia a eleição de um novo Pontífice pelo colégio cardinalício. Aos berros Michelangelo expulsou o invasor dizendo que aquele Adão era “mio”, criado por ele e não por Ele. A maioria dos pintores posteriores acompanhou Michelangelo, mas a discussão durou séculos. Para os que acreditam que a Bíblia é um livro historicamente exato o casal deveria ter abdômens perfeitamente lisos.

Há alguns anos, o problema teve uma engraçadíssima ressurreição no Congresso norte-americano quando três senadores protestaram contra um folheto do Public Affairs sobre “As raças da humanidade”. A capa era ilustrada pelas figuras de Adão e Eva com pontinhos pretos nas barrigas. A polêmica nem emergiu pela falta da folha de parreira. Parou no umbigo. A publicação foi considerada um insulto para os fundamentalistas. Outro parlamentar rebateu perguntando se as árvores dos Jardins do Éden tinham aqueles anéis concêntricos na madeira. Cada anel representa um ciclo de existência da árvore e, se foram criadas num só dia, não deveriam ter os anéis. Sem eles as árvores do Criador nada tinham a ver com as que vemos hoje. Portanto, uma simples visão do Paraíso sem nada a ver com a Terra. O pau comeu dentro e fora do Plenário.

Quando vejo na televisão os candidatos discutindo suas plataformas políticas, querendo traduzir o intraduzível e explicar o inexplicável, a arenga recheada de promessas de soluções para todos os nossos males, lembro-me da discussão sobre o umbigo do Adão. Totalmente inútil. Assim como não se pode provar a evolução das espécies a não ser por provas circunstanciais, os criacionistas não podem provar a criação a não ser pela palavra de Deus. Ser cristão exige um importante elemento chamado fé... Agora... não dá para botar fé nos políticos. O voto sempre será uma loteria com poucas chances de dar certo pela eleição de alguém realmente preocupado com o povo.

Amigo meu, dono de respeitável pança estufada pela cerveja, disse que assiste ao Programa Eleitoral Gratuito deitado no sofá, tomando uma gelada. Assegura que o umbigo é útil para se colocar as casquinhas do amendoim enquanto a patroa não providencia algo mais funcional. Está pouco se lixando. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC).

Comentários

Comentários