O 11 de setembro passou sem novos atentados aos Estados Unidos. Seria mesmo muita tolice achar que os fatos se repetiriam em data marcada. O sentimento do povo americano pelos seus mortos foi demonstrado em todos os veículos da mídia.
Curiosamente, pois não é possível saber se intencionalmente ou não, um dos canais de TV paga exibiu um documentário sobre crianças afegãs afetadas pela guerra entre a milícia Taleban, na época apoiada pelos americanos, e o exército russo. As imagens foram cruéis ao mostrar doenças de pele, desnutrição, a tristeza das crianças e seus familiares e mortes infantis ao vivo.
Foi impossível não associar as imagens à Etiópia, ao interior do nordeste brasileiro, à periferia das cidades brasileiras, aos moradores dos viadutos. Não há nenhuma diferença entre a impotência da morte pela fome e a da causada pelo terrorismo. A expressão dos que escapam é a mesma: incredulidade, desespero, revolta, choro, desejo de vingança eventualmente.
As mortes pela fome, sobretudo de crianças, estão acontecendo neste momento em muitos países, talvez contadas em milhões. As do terrorismo, contadas em milhares, acontecem vez ou outra. Por uma ou outra causa são injustificáveis, aterrorizantes, covardes.
Mas, o mundo como se acostumou às primeiras. De tão comuns, as vítimas só têm a oração de seus pais e de alguns mais próximos. A cova rasa é quase sempre seu abrigo último, talvez melhor do que o desfrutado em vida. A imprensa já as relegou a pequenas notas em cadernos secundários de jornais.
As do terrorismo, não porque as pessoas mortas não sejam importantes ou humanas, causam impacto, são relembradas quase permanentemente. A solidariedade da oração emerge do interior da alma, flores são depositadas, bandeiras são desfraldadas. Os dois tipos de morte são evitáveis. A Humanidade, através das nações ricas, sabe como combatê-las. As causas estão à vista. As hecatombes inevitáveis são as da natureza. São os terremotos, os maremotos, as tempestades. As hecatombes da fome e do terrorismo são culpa de todos os habitantes do planeta. (Luiz Fernando Ribeiro é médico)