Tribuna do Leitor

NÓS E O OUTRO


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Quando Aristóteles atribuiu ao homem a característica de “político”, quis dizer ser ele da “pólis”, da cidade. O homem, pois, no dizer do Estagirita, era um ser gregário, isto é, fazia parte da grei, do rebanho, vivia em bando. E é assim mesmo que somos. Precisamos sempre do Outro. Para tudo e para nada. Para ouvir um disco, para construir cidades. Para escrever uma crônica e para ter leitores das crônicas que escrevemos. Para fazer uma caminhada, para trocar idéias sobre o último filme assistido, para silenciar até. Quando estamos em outro país, até mesmo em outra cidade, em meio à acabrunhante solidão de um restaurante ou de uma rua, e, ao erguer os olhos, deparamos em meio a outras tantas cabeças com um rosto conhecido, vamos ao encontro dessa alma como se fosse nós próprios. Ainda que entre nós não haja uma intimidade, que nunca estivéssemos ligados estreitamente por uma afeição ou uma relação, é bom ver a fisionomia do conhecido, daquele que já dividiu conosco o mesmo chão ou já tenha compartilhado, um dia, as nossas emoções, sentimentos ou esperanças. Sentimos que já não estamos sós.

Somos eternamente crianças assustadas, medrosas, que, sozinhas, sucumbiriam ao vento mais gelado ou ao sol causticante. É a mão do Outro que nos ampara, segura, serve de muleta. Não adianta rugir que somos independentes ou auto-suficientes. Por mais que tentemos iludir por algum tempo nosso isolamento, na primeira oportunidade nos agarraremos ao próximo como o náufrago se agarra à tábua de salvação. As experiências meio ridículas do apaixonado, as trocas de confidências com os amigos, os discursos candentes dos políticos aos correligionários, as lições orais passadas em classe pelo professor aos alunos, tudo não passa de um mero ensaio de convivência.

Que seria do apaixonado sem a namorada? Do amigo sem o companheiro? Do político sem os prosélitos? Do professor sem os discípulos? Mesmo que o Outro nos decepcione - e sempre decepciona - mesmo assim, nunca descremos totalmente do próximo. Haverá sempre um serviçal, um vizinho, um parente distante a quem possamos recorrer e amenizar as tristezas de uma noite amarga. O mais renhido misantropo, na hora de tomar o café da manhã e dividir o pão, sabe inconscientemente quantos colaboraram para transformar em alimento aquele trigo e que, por isso, a vida longe da sociedade não passa de reles utopia. Deixemos um pensador mais lúcido e inteligente falar por nós: “Ninguém consegue jantar com um teorema ou passar uma noite de núpcias com uma idéia.” (Maria da Glória De Rosa - RG: 1.946.380)

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