O mote da campanha de lançamento do Plano Real, em 1994, era conscientizar o brasileiro de que a moeda era forte e que, mesmo os “centavinhos†de metal, poderiam ser trocados por muita coisa. Algo estranho à população acostumada, até então, a desembolsar valores como “100 mil†nas compras cotidianas, que confundia o nome da moeda corrente e recebia com naturalidade cédulas carimbadas indicando zeros recém-cortados.
Para convencer o brasileiro da estabilidade da moeda, a cédula verde de R$ 1,00 entrou em circulação com “status†de dinheiro forte, valendo em sua estréia - 1 de julho de 1994 - cerca de US$ 0,83. O próprio R$ 1,00 já surgiu sendo fruto de um indexador, a Unidade Real de Valor (URV), que no dia do câmbio de moeda valia CR$ 2.750,00.
Nos meses que se seguiram ao lançamento do Plano Real, as mercadorias e produtos corriqueiros foram naturalmente se ajustando ao R$ 1,00. O cachorro-quente, a lata de Coca-Cola, um número de rifa, o churro, a coxinha, o maço de cigarro no camelô. Além de facilitar o troco (pois moedas não eram objetos familiares), criava-se na cédula do beija-flor uma barreira quase intransponível.
Para o economista Reinaldo César Cafeo, delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), a alta cotação do real diante do dólar, que resultou numa certa paridade durante cerca de quatro anos, permitiu à moeda brasileira ser considerada forte.
“Quando houve sobrevalorização do real frente ao dólar, foi possível entender esse status. Tanto é verdade que nunca a Coca-Cola e outras empresas se enveredaram a instalar máquinas automáticas de refrigerante porque nós tínhamos desvalorização diária de quase 1% da nossa moedaâ€, observa Cafeo.
Gorjeta
Na última semana, mais de oito anos após o lançamento do real, o Banco Central apresentou uma série de três moedas comemorativas ao centenário de nascimento do ex-presidente Juscelino Kubitschek.
A única delas destinada ao uso corrente é, justamente, a de R$ 1,00, que teve tiragem de 50 milhões de unidades. “Se você der R$ 1,00 para um garoto que vigia o seu carro hoje, ele vai olhar feio. Há até dois ou três anos, isso era uma tremenda gorjetaâ€, declara Cafeo.
O menino que cuida do carro ilustra apenas um dos inúmeros exemplos do enfraquecimento do real não só no mercado financeiro, que rejeita a moeda brasileira, mas na mão da população que vai ao supermercado ou à padaria.
Assim como a campanha do “centavo vale muito†está esquecida, a ultrapassagem da “barreira psicológica†do R$ 1,00 pelas mercadorias do dia-a-dia, quando não ignorada, é percebida com indiferença como mais uma das contingências das “turbulências no cenário econômico mundialâ€.
“Já há uma tolerância do consumidor em entender que houve um resíduo inflacionário que foi repassado para os preços e, portanto, há um salto no pagamento dos bens. Então, esse R$ 1,00 vai para R$ 1,20, R$ 1,50â€, ressalta Cafeo.
Na opinião do economista, foi no início de 1999 o momento em que o real começou a perder seu crédito. “O grande divisor para a perda do status do real, sem dúvida, foi o choque especulativo de 13 de janeiro de 1999â€, afirma. Naquela época, a moeda norte-americana, que se mantinha estável na casa do R$ 1,21, saltou para R$ 2,17 com a adoção do câmbio flexível. Somente após seis meses o dólar voltou a baixar, estabilizando-se em R$ 1,86.
“O governo fez de tudo no início do real, até bancou importação e câmbio sobrevalorizado para manter esse status, porque eles diziam que o real era forte e estável. Se houvesse uma desvalorização acentuada, a falta desse status levaria a abandonarem de vez a moeda. É o que está acontecendo hoje: ninguém quer o real no mercado financeiro quer o dólarâ€, explica Cafeo.