Economia & Negócios

'Status' do R$ 1,00 se perde no cotidiano

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

O mote da campanha de lançamento do Plano Real, em 1994, era conscientizar o brasileiro de que a moeda era forte e que, mesmo os “centavinhos” de metal, poderiam ser trocados por muita coisa. Algo estranho à população acostumada, até então, a desembolsar valores como “100 mil” nas compras cotidianas, que confundia o nome da moeda corrente e recebia com naturalidade cédulas carimbadas indicando zeros recém-cortados.

Para convencer o brasileiro da estabilidade da moeda, a cédula verde de R$ 1,00 entrou em circulação com “status” de dinheiro forte, valendo em sua estréia - 1 de julho de 1994 - cerca de US$ 0,83. O próprio R$ 1,00 já surgiu sendo fruto de um indexador, a Unidade Real de Valor (URV), que no dia do câmbio de moeda valia CR$ 2.750,00.

Nos meses que se seguiram ao lançamento do Plano Real, as mercadorias e produtos corriqueiros foram naturalmente se ajustando ao R$ 1,00. O cachorro-quente, a lata de Coca-Cola, um número de rifa, o churro, a coxinha, o maço de cigarro no camelô. Além de facilitar o troco (pois moedas não eram objetos familiares), criava-se na cédula do beija-flor uma barreira quase intransponível.

Para o economista Reinaldo César Cafeo, delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), a alta cotação do real diante do dólar, que resultou numa certa paridade durante cerca de quatro anos, permitiu à moeda brasileira ser considerada forte.

“Quando houve sobrevalorização do real frente ao dólar, foi possível entender esse status. Tanto é verdade que nunca a Coca-Cola e outras empresas se enveredaram a instalar máquinas automáticas de refrigerante porque nós tínhamos desvalorização diária de quase 1% da nossa moeda”, observa Cafeo.

Gorjeta

Na última semana, mais de oito anos após o lançamento do real, o Banco Central apresentou uma série de três moedas comemorativas ao centenário de nascimento do ex-presidente Juscelino Kubitschek.

A única delas destinada ao uso corrente é, justamente, a de R$ 1,00, que teve tiragem de 50 milhões de unidades. “Se você der R$ 1,00 para um garoto que vigia o seu carro hoje, ele vai olhar feio. Há até dois ou três anos, isso era uma tremenda gorjeta”, declara Cafeo.

O menino que cuida do carro ilustra apenas um dos inúmeros exemplos do enfraquecimento do real não só no mercado financeiro, que rejeita a moeda brasileira, mas na mão da população que vai ao supermercado ou à padaria.

Assim como a campanha do “centavo vale muito” está esquecida, a ultrapassagem da “barreira psicológica” do R$ 1,00 pelas mercadorias do dia-a-dia, quando não ignorada, é percebida com indiferença como mais uma das contingências das “turbulências no cenário econômico mundial”.

“Já há uma tolerância do consumidor em entender que houve um resíduo inflacionário que foi repassado para os preços e, portanto, há um salto no pagamento dos bens. Então, esse R$ 1,00 vai para R$ 1,20, R$ 1,50”, ressalta Cafeo.

Na opinião do economista, foi no início de 1999 o momento em que o real começou a perder seu crédito. “O grande divisor para a perda do status do real, sem dúvida, foi o choque especulativo de 13 de janeiro de 1999”, afirma. Naquela época, a moeda norte-americana, que se mantinha estável na casa do R$ 1,21, saltou para R$ 2,17 com a adoção do câmbio flexível. Somente após seis meses o dólar voltou a baixar, estabilizando-se em R$ 1,86.

“O governo fez de tudo no início do real, até bancou importação e câmbio sobrevalorizado para manter esse status, porque eles diziam que o real era forte e estável. Se houvesse uma desvalorização acentuada, a falta desse status levaria a abandonarem de vez a moeda. É o que está acontecendo hoje: ninguém quer o real no mercado financeiro quer o dólar”, explica Cafeo.

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