JC Criança

Garotada aprende a ganhar tempo

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 5 min

Há bem pouco tempo, quando nossos pais eram crianças, parecia que o dia era mais longo, tinha a tarde inteirinha para brincar, às vezes até à noitinha. O Natal demorava para chegar e só as férias acabavam rapidinho.

Hoje, a gente percebe que tudo acontece mais depressa. A informação chega rapidinho e o ano passa voando. Dá para imaginar viver sem computador? Internet? Pois saibam que era assim mesmo. Não havia videogame, ICQ, compra via Internet, jogos interativos. Era só correr e brincar. O que as crianças faziam bastante, sem se preocupar em aprender computação, inglês, fazer academia, natação, era brincar em turma.

Agora, com o aumento da violência, fica difícil andar sozinho, brincar na rua, aprender a nadar no rio. Desde cedo, a moçada aprende a aproveitar o tempo livre, se organizando com horários de tarefas, atividades extraclasses, videogame, computador, brincadeiras.

Várias escolas oferecem diferentes opções de atividades, assim você pode escolher o que quer fazer e os pais ficam tranqüilos com a segurança. Natação, caratê, judô, basquete, futebol, vôlei, dança, música, canto coral e computação são sugestões de cursos que os alunos podem participar em horários diversos.

Participar dessas atividades já faz parte da rotina de muitos estudantes, que aproveitam para estar perto dos amigos e brincar, em quanto os pais não chegam para buscar. Aliás, quanto mais eles demoram, melhor, pois é possível ficar brincando até mais tarde.

O JC Criança conversou com uma turminha que aproveita sabe otimizar o seu tempo. Eles estudam, brincam e participam de atividades na escola.

O André Pavon Pires tem 10 anos, faz a 4.ª série no Seta no período da tarde e aproveita algumas manhãs e início da noite para praticar esporte. “Depois da aula, eu faço esporte, chego em casa, tomo banho e vou jantar. Antes de dormir, vejo um pouco de TV e a lição deixo para fazer no dia seguinte”, conta. Diferente da maioria das crianças, o André aproveita seus finais de semana em Iacanga, uma cidade bem pequena. “Lá é tranqüilo, todo mundo se conhece, a gente brinca na rua de pega-pega, solta pipa, joga bola, as brincadeiras são diferentes. Eu levo os meus jogos e ninguém conhece”, comenta.

Os pais do André, Juraci e José Carlos, acham importante estimular as atividades sociais, fazer amigos, brincar. “A gente procura estimular e acompanhar”, comentam. “Hoje é importante saber se relacionar, a parte intelectual flui naturalmente”, acrescentam.

A Júlia Duran Ticianelli, 9 anos, também aproveita os finais de semana em Iacanga. É lá que ela freqüenta a catequese, brinca com primos e amigos, anda de bicicleta e patinete na rua (o que é quase impossível em Bauru) e vai ao clube. A Júlia faz a 3.ª série no Colégio São Francisco de Assis e tem um dia cheio de atividades extraclasses. “Segunda e quarta tenho balé, terça, quinta e sexta faço natação e na quarta pela manhã participo do coral da escola”, conta Júlia. Ela diz que já está habituada à rotina e aproveita a horinha entre a aula e o balé para brincar com as amigas. â€œÉ gostoso, há várias crianças e a gente brinca de pega-pega.” Ela também já escolheu seu horário para fazer a tarefa, sempre à noite. “Só quando estou muito cansada, faço pela manhã”, diz Júlia.

Já a Isabella Maria Domingos Mastrangelli, 8 anos, ainda não se habituou à correria, mas adora ficar brincando em quanto espera a mamãe. “Eu faço coral e street dance (dança de rua) e a minha mãe sempre prepara um lanchinho reforçado. Ela pergunta: vai no coral hoje? Aí coloca mais uma fruta, bolachas ou bolo”, conta a garota. Ela só não gosta de esperar quando não tem ninguém para brincar: “aí a hora demora para passar”, diz.

A Jéssica Hilário Bonomo, 9 anos, faz a 3.ª série no Colégio Seta e já está acostumada às atividades diárias. “Desde o pré eu faço várias coisas, neste ano, estou no caratê, vôlei e street. Só não faço natação, que eu adoro, porque o horário não bateu com o que eu tinha livre.” Ela, como a Isabella, nunca deixa de levar um lanche reforçado nesses dias. “Enquanto espero, gosto de ficar treinando basquete”, comenta Jéssica.

O Alex Neme Marmontel, 8 anos, faz a 2.ª série no Seta e gosta quando o pai atrasa para buscá-lo na escola. â€œÉ quando eu fico brincando, batendo figurinha”, diz. Ele comenta que uma vez seu pai chegou exatamente depois da aula de vôlei e ficou muito bravo porque nem deu tempo para brincar. “Eu falei para ele: imagina só, eu sou seu pai e na hora que você vai brincar de queima com seus amigos eu chego e levo você embora. Você iria gostar?”, conta o garoto, que é craque em bater figurinhas.

Newton, pai de Alex, lembra que houve um dia em que o filho ganhou um monte de figurinhas no bafo de outro garoto. “Aí voltamos na escola e fiz ele devolver as figurinhas. O Alex não gostou”, lembra.

Gente grande sente saudade da infância

O professor de educação física Rodolfo Polonio aproveitou a infância, em Bariri, sua cidade natal. “Eu vivia jogando bola e brincando. Parecia que o tempo durava mais, não tinha rotina”, lembra.

Newton Ferreira Marmontel Júnior conta que vivia no campinho até à noitinha, quando sua mãe ia buscar. “A gente jogava bola e bets desde as duas da tarde, passava o dia brincando. Agora não deixo os meus filhos brincar na rua, é muito perigoso. Na escola é diferente, a gente sabe que eles estão seguros”, conclui.

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