Articulistas

Para acabar com o terrorismo


| Tempo de leitura: 4 min

Há um ano, duas datas marcaram um continuado ciclo de violência e contra-violência: o ataque do 11 de setembro ao World Trade Center e ao Pentágono, com cerca de três mil civis mortos, e o início do ataque contra o Afeganistão, em 7 de outubro, com aproximadamente seis mil civis mortos até agora. Como podemos romper este círculo vicioso?

Alguns dias depois do 11 de setembro, um psicólogo deu conselhos pela CNN aos pais com filhos que fazem perguntas difíceis. Uma das crianças havia perguntado: “O que fizemos para que eles nos odeiem tanto a ponto de fazer tais coisas?” Esta era uma pergunta madura, ao contrário da resposta do psicólogo, que aconselhou: “Você pode dizer ao seu filho que no mundo há pessoas boas e más...”. Essa criança chegou ao estado da reciprocidade, segundo a escala do desenvolvimento infantil do psicólogo Jean Piaget, pois via as ações dos outros, pelo menos parcialmente, influenciadas por nossas próprias ações (e vice-versa). |Já a resposta do psicólogo, pelo contrário, situava-se no estado imaturo do autismo, que presume que as más ações dos outros não são influenciadas por algo que temos feito.

Os meios de comunicação norte-americanos nunca mencionaram o terrorismo de Estado realizado pelos Estados Unidos contra outros países. Desde 1945, os Estados Unidos intervieram no estrangeiro 67 vezes, e com essas intervenções causou 12 milhões de mortes, a metade delas com ações abertas (Pentágono) e encobertas (CIA). Estes fatos são praticamente desconhecidos da maioria dos norte-americanos e raramente mencionados. Os alvos do ataque terrorista do 11 de setembro foram simbólicos: o Pentágono e o World Trade Center, representação de um sistema econômico mundial que acumula incontáveis riquezas em poucas mãos e que, ao mesmo tempo, empobrece milhares de milhões de pessoas no Terceiro Mundo.

A declaração de Bin Laden, transmitida pela TV Al Jazeera pouco depois do 11 de setembro, dizia: “Nossa nação experimentou esta humilhação e esta degradação durante mais de 80 anos”. Desse modo ele se referia à traição de Sykes-Picot (tratado secreto anglo-francês sobre a futura divisão do Império Otomano) de 1916, que deixou a Arábia sob o governo dos infiéis depois de rompida a promessa britânica de dar a independência às nações árabes em compensação por terem colaborado na derrota do Império Otomano, e também fazia referência à Declaração Balfour, de 1917, que apoiava a criação de um Estado judeu na Palestina.

O terrorismo (realizado por homens e mulheres sem uniforme) e o terrorismo de Estado (realizado por homens com uniforme, uma diferença pouco importante para as vítimas) possuem em comum as seguintes características: ambos usam a violência com fins políticos, causam danos a pessoas não diretamente implicadas na luta, e estão desenhados para semear o pânico e o terror objetivando a capitulação do adversário.

O wahabismo, um ramo integrista do Islã, religião de Estado da Arábia Saudita, e o puritanismo, religião cívica dos Estados Unidos, também compartilham algumas características comuns: o dualismo, que divide o mundo em NÓS contra ELES, sem aceitar a existência de neutros; o maniqueísmo, segundo o qual NÓS somos os bons e ELES os maus, e a crença em uma inevitável batalha final para “sufocar” ELES, os maus, e a crença nas três religiões abrahamíticas - judaísmo, cristianismo e islamismo -, também compartilham os conceitos de ser o Povo Eleito de Deus com uma Terra Prometida e de ter um glorioso passado e/ou futuro, bem como de ter sofrido um trauma. Estes conceitos encontram-se na retórica tanto de George W. Bush quanto de Osama bin Laden.

Se os Estados Unidos tivessem se limitado a realizar uma campanha militar e deixado a tarefa de polícia ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e à Organização da Conferência Islâmica, sem estabelecer bases militares norte-americanas, deixando os direitos sobre os oleodutos ao povo afegão, poderiam, inclusive, terem ganho sua guerra. Mas agora está perdida. A meta a longo prazo dos fundamentalistas islâmicos parece ser a obtenção do respeito pelas sensibilidades religiosas. Os Estados Unidos buscam o livre comércio e a proteção militar. Um comércio com a prioridade na cobertura das necessidades básicas, junto com o respeito pelas sensibilidades religiosas poderia servir a ambos. (Johan Galtung é professor universitário de Estudos sobre a Paz e diretor da Transcend, organização que se ocupa da paz e do desenvolvimento. Dietrich Fischer é catedrático na Pace University e co-diretor da Transcend)

Comentários

Comentários