A imprensa internacional pouco se ocupa do subcontinente ibero-americano. É uma lástima. Depois da feliz queda das desastrosas ditaduras ibero-americanas - na década de 80 -, o início do século XXI pode ser testemunha, impotente, da destruição das economias nacionais da região e, em conseqüência, de uma grave crise de suas próprias democracias.
A ibero-América é uma região que apresenta características próprias e possui um imenso potencial de riquezas tanto materiais quanto humanas, entre elas uma mescla étnica de grande diversidade e enorme valor multicultural. Suas elites intelectuais competem, em todos os campos, com as melhores do mundo. E, ainda assim, trata-se hoje de uma região à deriva, afetada muito negativamente por uma globalização que beneficia sobretudo seu grande vizinho do Norte e corre o risco de destruir a estabilidade do continente americano. Neste panorama ibero-americano, o Brasil é um caso singular mas cuja situação não deixa de ser notavelmente preocupante. Trata-se de um país-continente por sua dimensão geográfica e demográfica (170 milhões de pessoas de língua portuguesa). E, além disso, a oitava economia mundial (com um produto interno bruto de US$ 840 bilhões) cuja moeda sofreu por duas vezes ataques especulativos consideráveis. E resistiu.
Apesar desse balanço otimista, o Brasil enfrenta enormes desequilíbrios sociais e regionais e o chamado “contágio†da Argentina pode afetá-lo perigosamente. O FMI, alarmado com essa situação, acertou com o governo de Fernando Henrique Cardoso um empréstimo de US$ 30 bilhões, dos quais US$ 6 bilhões serão efetivados no final do ano.
O Brasil está atualmente em pleno período eleitoral. Há quatro candidatos principais: Luiz Inácio Lula da Silva, Ciro Gomes, José Serra e Anthony Garotinho. Num contexto econômico-social tão delicado, as eleições presidenciais de outubro entram agora em um período decisivo. Quem vencerá? Curiosamente, depende de quem chegar em segundo lugar no primeiro turno. O primeiro, ao que tiudo indica, será Lula. Mas quem será o segundo? Se for Ciro Gomes, Lula deve ser eleito presidente, porque Serra e o próprio presidente Fernando Henrique se verão obrigados, no segundo turno, a fazer campanha em favor de Lula para barrar o populismo de Ciro. Se Serra conseguir chegar em segundo lugar, então o caminho estará livre no segundo turno e ele ainda terá chances de ser presidente.
Fernando Henrique, diante da incerteza eleitoral, adotou uma iniciativa política inédita: convocou os quatro candidatos presidenciais para explicar-lhes detalhadamente o recente acordo com o FMI para garantir sua continuidade, seja quem for o novo presidente. Inicialmente, os quatro se mostraram reticentes ao convite, mas todos acabaram aceitando o convite. Não poderiam agir de outra maneira. Foi uma jogada de mestre que demonstra um grande sentido de Estado em um momento muito complexo da vida do Brasil e da ibero-América. Poderá o Brasil ainda superar esta crise e, assim, contribuir para ajudar a resolver os gravíssimos problemas que condicionam, tão negativamente, a ibero-América? (O autor, Mário Soares. foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)