Produtores de café, consumidores e representantes governamentais de 106 países se encontram em Londres, a partir de hoje, para discutir o que fazer com o excesso de 20 milhões de sacas do grão no mercado mundial. A questão será o principal tema do encontro da Organização Internacional do Café (OIC), entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), evento que se estenderá até o dia 27.
Um dos representantes dos produtores brasileiros no encontro, o vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, explica que, atualmente, há oferta em excesso de café no mercado mundial. “Devido à produção do Brasil, que é recorde em 270 anos, devem sobrar cerca de 15 milhões de sacas no mundo, que é o que prejudica o mercadoâ€, diz.
Além do Brasil, países como o Vietnã - segundo maior produtor mundial - estão a cada ano expandindo sua produção. “O Vietnã subiu, em dez anos, de 1 milhão para 10 milhões de sacas, e nessa década eles vão para quase 18 milhões de sacasâ€, relata Lima Verde.
Ao mesmo tempo, o consumo mundial de café não tem crescimento significativo, mantendo-se na média de pouco menos de 110 milhões de sacas. Daí que, mesmo com o aumento no valor da saca no último mês, o preço continua baixo na opinião de Lima Verde. “Nesse último mês, o café subiu 30% e a saca está valendo US$ 40,00. Historicamente, a saca tem de valer mais de US$ 100,00.â€
Nos estudos preparatórios para o encontro da OIC, Lima Verde afirma que a principal alternativa que será discutida em Londres é o estabelecimento de regras para a qualidade do café que entra no mercado internacional. “Existe um movimento, que começou na América Central, de não permitir exportação de cafés de baixa qualidadeâ€, diz.
“Como política universal da cafeicultura, o ideal é não deixar haver esse excessoâ€, explica. A ressalva, no entanto, fica por conta de países “paupérrimos†da África, por exemplo, que têm na exportação do café sua principal fonte de recursos - e não pode perdê-la, sob o risco real de enfrentar até revoluções civis. â€œÉ complicado, porque existem países que estão com a corda no pescoçoâ€, declara o cafeicultor.
Por outro lado, estimular o consumo poderia ser uma saída que contentaria os países produtores. O alvo principal seriam os mais de 1 bilhão de consumidores em potencial da China, que neste ano participa dos encontros da OIC como observador. “Se todo chinês tomasse uma xícara de café por dia, acabavam-se todos os problemasâ€, brinca Lima Verde.
Café brasileiro
O Brasil, maior exportador mundial de café, tem previsão de chegar até o final da colheita - que já está 90% concluída - com produção entre 45 milhões e 50 milhões de sacas do grão. O consumo interno se mantém em 15 milhões de sacas e as exportações passaram para cerca de 20 milhões. “O Brasil passou a ser responsável, do ano pasado para este ano, por 20% a 30% das exportações mundiaisâ€, declara Lima Verde.
Para o cafeicultor, a presença de produtores brasileiros no encontro da OIC permite discutir saídas diferentes da retenção subsidiada pelo governo, que pode ser arriscada se o preço do grão brasileiro se mantiver baixo em relação ao dos outros países.
“Qualquer tipo de atitude (no mercado mundial) sem o Brasil não vai para frente. Tem que haver o consenso e uma vontade política, porque se não fizer, vai ter prejuízoâ€, ressalta. E lamenta: “Parece uma incoerência: essa é a maior safra da história e a maior crise da história, uma junto da outra.â€