Economia & Negócios

Reunião mundial debate o excesso de café no mercado

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

Produtores de café, consumidores e representantes governamentais de 106 países se encontram em Londres, a partir de hoje, para discutir o que fazer com o excesso de 20 milhões de sacas do grão no mercado mundial. A questão será o principal tema do encontro da Organização Internacional do Café (OIC), entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), evento que se estenderá até o dia 27.

Um dos representantes dos produtores brasileiros no encontro, o vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, explica que, atualmente, há oferta em excesso de café no mercado mundial. “Devido à produção do Brasil, que é recorde em 270 anos, devem sobrar cerca de 15 milhões de sacas no mundo, que é o que prejudica o mercado”, diz.

Além do Brasil, países como o Vietnã - segundo maior produtor mundial - estão a cada ano expandindo sua produção. “O Vietnã subiu, em dez anos, de 1 milhão para 10 milhões de sacas, e nessa década eles vão para quase 18 milhões de sacas”, relata Lima Verde.

Ao mesmo tempo, o consumo mundial de café não tem crescimento significativo, mantendo-se na média de pouco menos de 110 milhões de sacas. Daí que, mesmo com o aumento no valor da saca no último mês, o preço continua baixo na opinião de Lima Verde. “Nesse último mês, o café subiu 30% e a saca está valendo US$ 40,00. Historicamente, a saca tem de valer mais de US$ 100,00.”

Nos estudos preparatórios para o encontro da OIC, Lima Verde afirma que a principal alternativa que será discutida em Londres é o estabelecimento de regras para a qualidade do café que entra no mercado internacional. “Existe um movimento, que começou na América Central, de não permitir exportação de cafés de baixa qualidade”, diz.

“Como política universal da cafeicultura, o ideal é não deixar haver esse excesso”, explica. A ressalva, no entanto, fica por conta de países “paupérrimos” da África, por exemplo, que têm na exportação do café sua principal fonte de recursos - e não pode perdê-la, sob o risco real de enfrentar até revoluções civis. â€œÉ complicado, porque existem países que estão com a corda no pescoço”, declara o cafeicultor.

Por outro lado, estimular o consumo poderia ser uma saída que contentaria os países produtores. O alvo principal seriam os mais de 1 bilhão de consumidores em potencial da China, que neste ano participa dos encontros da OIC como observador. “Se todo chinês tomasse uma xícara de café por dia, acabavam-se todos os problemas”, brinca Lima Verde.

Café brasileiro

O Brasil, maior exportador mundial de café, tem previsão de chegar até o final da colheita - que já está 90% concluída - com produção entre 45 milhões e 50 milhões de sacas do grão. O consumo interno se mantém em 15 milhões de sacas e as exportações passaram para cerca de 20 milhões. “O Brasil passou a ser responsável, do ano pasado para este ano, por 20% a 30% das exportações mundiais”, declara Lima Verde.

Para o cafeicultor, a presença de produtores brasileiros no encontro da OIC permite discutir saídas diferentes da retenção subsidiada pelo governo, que pode ser arriscada se o preço do grão brasileiro se mantiver baixo em relação ao dos outros países.

“Qualquer tipo de atitude (no mercado mundial) sem o Brasil não vai para frente. Tem que haver o consenso e uma vontade política, porque se não fizer, vai ter prejuízo”, ressalta. E lamenta: “Parece uma incoerência: essa é a maior safra da história e a maior crise da história, uma junto da outra.”

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