Turismo

Expedição Ilhabela

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

O batismo do mergulho é uma aventura inesquecível. Envolve momentos muito diferentes com sensações distintas. Não é uma regra, mas geralmente a ansiedade é a principal emoção, porque traduz o mistério que o iniciante no mergulho vai poder desvendar, é a primeira vez. Um grupo de Bauru foi atrás dessa aventura no dia 31de agosto. O clima nublado indicava que poderia ser uma decepção a Expedição Ilhabela principalmente se o mar não estivesse para mergulho.

Ilhabela é um paraíso preservado no Litoral Norte do Estado de São Paulo. O arquipélago de Ilhabela convida para caminhadas, mergulhos, cachoeiras, trilhas, pescarias e para velejar. De um lado, o mar; de outro, uma das maiores reservas de Mata Atlântica do Estado de São Paulo.

Quem busca o fundo do mar passa por um teste de nervos e resistência física num ambiente desconhecido. No final da manhã do sábado, o momento do primeiro mergulho autônomo se aproximou para Giulli Travain, 23 anos, e Alexandre Silveira, 29 anos, de Agudos e para os outros participantes. O destino do grupo era um ponto próximo da Ilha das Cabras, um ilhote do arquipélago que forma um canal de pequena extensão com a ilha. Ao longe se avista São Sebastião, no continente. No ônibus, a expectativa pela experiência do mergulho toma conta de todos. Giulli e Alexandre demonstram domínio, apesar de não saberem o que lhes espera. Ela comenta o fato de ser a única mulher do grupo a mergulhar.

Para calibrar tanta emoção vale a experiência de 20 anos de mergulhos do instrutor Luiz Carlos da Silva Jr., que já formou 970 mergulhadores. Luiz forma uma equipe com Carlos Eduardo Parisoto.

O ponto do mergulho é muito próximo da praia, dispensando o uso de um barco. Minutos antes do casal embarcar em um bote, Luiz faz uma sondagem para saber como está o nível de adrenalina. Numa rápida troca de palavras, Giulli confessa sua ansiedade. Alexandre não disfarça a tensão pelo momento. Luiz pergunta como estão. Apenas Giulli retruca reafirmando sua expectativa pela hora agá. Luiz lembra que não há nenhum problema quando se está ansioso, sentimento que o experiente instrutor considera como positivo para marcar a experiência.

Até aquele momento, o tempo estava nublado, mas havia sol e até podia se prever que o tempo abriria.

Durante cerca de 40 minutos o casal permaneceu no fundo do mar, mergulhando a uma profundidade entre seis e oito metros. Para desfrutar desse momento único em suas vidas, Alexandre e Giulli se dedicaram durante 16 horas de curso de mergulho em Bauru, divididas igualmente entre orientações teóricas e orientação prática na piscina.

Talvez, se imaginassem que a sensação seria tão boa tivessem feito a aventura submarina antes. Na volta, ao pularem do bote, caminhavam lentamente como se estivessem se adaptando a um novo ambiente. “Uma das coisas mais maravilhosas que já fiz”, descreve Alexandre. Ele garante que só ficou ansioso no começo, mas depois que tomou contato com os peixes e com o roteiro do passeio passou a curtir o momento. “Tinha peixe que come na mão”, comenta Giulli. Ela destaca que ficou com receio quando os peixes maiores se aproximavam.

Quem passa pela experiência do batismo traz do fundo do mar dois sentimentos estampados no rosto. Euforia e o desejo de repetir o mergulho. Alexandre teve o bônus de não se sentir bem submerso a mais de sete metros. Depois de conduzir os dois novatos, Luiz explicou que Alexandre estava um pouco nervoso, por isso, apresentou a sensação de desconforto. Mesmo assim, aproveitou o roteiro do fundo do mar. Com visibilidade de aproximadamente 10 metros, foi possível visualizar um circuito formado por uma estátua, uma âncora e um chassi de caminhão. Além dos cardumes de peixes que foram alvo de elogios dos mergulhadores da Ilha das Cabras.

Clima

Quando o casal de Agudos retornou de seu primeiro mergulho, o tempo estava mudando rapidamente. Grande concentração de nuvens escondeu o sol, o vento estava forte e o mar um pouco remexido. Luiz, percebendo a rápida alteração das condições climáticas, inverteu o roteiro das equipes de mergulho que se revezavam. Optou por priorizar quem ainda não havia feito sua estréia no fundo do mar. Nessa, o fisioterapeuta José Bassan, 24 anos, teve que aguardar para realizar seu segundo mergulho, que lhe credenciaria. Em maio, Bassan fez seu batismo, também em Ilhabela.

Quando Bassan retornou do fundo do mar, o comentário era um só. O mar estava exigente. A correnteza forte prejudicava a movimentação.

Interação

Do meio da tarde até a madrugada de domingo, só choveu em Ilhabela. Intervalos com respingo e chuva densa se intercalaram. A Expedição Ilhabela já tinha um dia inteiro de mergulhos e histórias para contar. Luiz e Carlos promoveram um churrasco, momento quando se fala de tudo e o clima ganha ar de família. A chuva obrigou alguns improvisos que não prejudicaram em nada o andamento do churrasco. Nessa hora, as mais engraçadas histórias divertem enquanto a carne fica no ponto. Passado a expectativa de mergulhar, todos se soltam e aproveitam a noite de sábado. No domingo não choveu, mas também o tempo estava de ressaca. Até nessa hora Ilhabela é fantástica pelos atrativos.

O centro de Ilhabela

O lugarejo chamado de Vila possui a maior concentração de infra-estrutura turística do arquipélago. Num pequeno espaço tendo como referência a Praça da Bandeira está agrupado um centro comercial e turístico. Pode-se descontrair no pier, passear por lojas e cafés – indica-se um na rua dr. Carvalho,146 –, ir à igreja. Visitar a Fundação de Arte e Cultura de Ilhabela (Fundaci), onde uma futura big band ensaia para daqui há um ano passar a fazer parte do roteiro cultural da cidade. Na Fundaci também é possível aproveitar alguma exposição em cartaz.

A cidade tem uma população de cerca de 22 mil habitantes que incha no período de temporada chegando a 150 mil pessoas. Um tráfego pesado e muito agito típico de cidades do litoral.

Dupla de mergulho revela grande entrosamento

Em condições desfavoráveis para a prática do mergulho livre e autônomo recreativo – modalidade para qual se preparam os iniciantes –, a experiência de Luiz Carlos da Silva Jr., 44 anos, garante ao grupo estabilidade e segurança quando alguém se assusta com o mar inquieto. Ele e seu parceiro Carlos Eduardo Parisoto, 29 anos, demonstram entrosamento afinado. Enquanto Luiz guia os mergulhos, Carlos faz a coordenação de apoio para a montagem e para a preparação do pessoal para mergulhar. Um trabalha submerso e descansa a cada retorno. O outro fica em terra, mas é responsável pela preparação. Os dois conhecem bem o fundo do mar, apenas se diferenciam pelo tempo de mergulho.

Chama a atenção essa distância que equilibra a dupla. Luiz trabalha com toda a situação sob controle o tempo inteiro. Evidente que para os imprevistos é necessário psicologia até debaixo d’água. “Conta os 20 anos de experiência de mergulho que tenho e que dá um peso para a coisa funcionar. É preciso passar confiança e regras claras”, define.

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