Dengoso, Baby, Paçoca, Mum-Rá, Gasparzinho, Azulão, Nina, Juninho, Oito Segundos e Flagrante. A escalação não é de nenhum time de futebol, nem os nomes dos bichinhos de pelúcia de uma criança cheia de brinquedos. Estes são alguns dos animais que fazem parte da cavalaria da Polícia Militar (PM) e que a partir de agora, passam a patrulhar o centro da cidade.
Todas as quartas-feiras e domingos, o patrulhamento montado percorrerá as principais vias centrais. Nos demais dias da semana, das 16h às 22h, a ação continua sendo feita na periferia, em bairros como Jaraguá, Santa Edwirges, Vila São Paulo, Pousada da Esperança, Ouro Verde e Bauru 2000, áreas com maior evidência estatística de furtos.
Dentro dos horários de pico, a cavalaria dá apoio ao policiamento desses setores. No centro, a patrulha atuará nas tardes inteiras em pontos estratégicos, como próximo aos Correios, igreja de Santa Terezinha e praça Rui Barbosa.
O efetivo da PM conta com 19 animais quarto-de-milha, crioulo e grande prêmio de hipismo que são adquiridos pelo Estado, se tiverem no mínimo 1,52m de dorso e três anos de idade.
A grande vantagem do cavalo no policiamento é justificada pela facilidade de locomoção do animal.
“Nós fazemos o patrulhamento a cavalo em lugares que uma moto ou carro não conseguem chegar. Já no centro da cidade, o policial tem a vantagem de estar sobre o cavalo numa altura privilegiada e avistar muito mais longe. O público também consegue nos visualizar melhor, pois nos vêem de longe e, numa ação de furto, enquanto o indivíduo está a pé, em uma quadra a gente consegue prendê-lo. A cavalo, conseguimos avistar da praça Rui Barbosa até a rua Azarias Leite e nos bairros com relevos diferentes conseguimos visão até um quilômetro de distânciaâ€, explica o sargento Mário Rodrigues de Souza Neto, que há nove anos está na cavalaria.
Os patrulheiros sempre andam em duplas ou trios para que quando precisarem adentrar em casas, lojas e pequenos espaços, tenham alguém para cuidar dos cavalos, fazer a segurança do policial e chamar as viaturas de apoio. Na ausência de todos os policiais, os animais são amarrados pelos estribos, de costas um para outro. Assim, não perdem os movimentos e não conseguem fugir, apenas andar em círculos.
Os policiais citar que atendimento também será agilizado com a doação de uma carreta feita pelos Grupos Prata e Cidade. O utilitário com capacidade para dois animais otimizará a finalização das ocorrências levando a equipe, os criminosos e os cavalos numa mesma viatura para o distrito policial.
Sem sujeira
A patrulha garante que faz de tudo para os cavalos não fazerem sujeira pelas ruas da cidade. Os animais são alimentados e cavalgam no quartel para acelerar o metabolismo e fazer as necessidades fisiológicas antes de sair. “Às vezes acontece, mas a limpeza pública se incumbe de limparâ€, comenta o sargento Neto.
Os cavalos também não comem durante o patrulhamento, nem quando se deparam com capim na periferia. Eles são condicionados a fazer as coisas no mesmo horário e a jornada de trabalho de seis horas se encaixa no horário biológico dos animais. Eles têm um dia de descanso após um dia trabalhado.
Além da alimentação, os cavalos são condicionados para as ações efetivas da tropa de choque em caso de greve, confrontos, entrada em penitenciária, policiamento de eventos. Eles se adaptam ao barulho de tiros, bombas, multidões, calor, fogo e água.
“Mas eles sempre se assustam, pois têm individualidade como a gente. Um tem medo do escuro, outro tem medo de carroça, mas é feito um trabalho para que eles se acostumemâ€, conta Neto, relatando que um dos animais afastava-se todas as vezes que se deparava com uma charrete.
Para aliviar esses temores, semanalmente é feito um treinamento no picadeiro com todos os elementos que causam pânico nos animais: fogo, fumaça, tiros, bombas e sirenes para que, em combate, tenham uma postura diferenciada.
“No Morumbi, quando há um clássico numa final de campeonato, o público supera 100 mil pessoas. São 20 cavalos que fazem o patrulhamento externo do estádio. Isso equivale a dez homens ou mais, cada animalâ€, cita o cabo Wellington Zorzetto, que atuou no Tático e, desde novembro de 2001, integra a polícia montada.
Ele revela que num congestionamento na Capital o cavalo tem habilidade maior que uma bicicleta ou moto, pela visibilidade e agilidade do animal, que galopa até 600 metros em velocidade média de 30 km/h no asfalto, mas tem grande performance na terra.
O número de acidentes é nulo e, até hoje, apenas um animal foi morto em ação.
“Tudo é feito para que o cavalo seja de máxima confiança do patrulheiro e da população durante uma ocorrência. Eles são treinados ao máximo para evitar problemasâ€, revela o 2.º sargento Deozildo Moschen, que há 15 anos se dedica à cavalaria, sendo responsável pelo programa de equoterapia.
Nesta relação de confiança, cada policial tem seu animal e só uma eventualidade separa a dupla. Os cavalos não puro sangue. Aliás, são denominados de SRZ: sem raça definida, mas os animais que se destacam no grupamento são os mais dóceis e os mais resistentes, capazes até de suportar o peso de um policial com 125 quilos.
São os patrulheiros que também zelam pela saúde do animal e batizam com nomes que revelam a personalidade e aparência do cavalo.
Segurança
Os policiais ressaltam que é diferente do sistema de policiamento, que corta a cidade com veículos rápidos, levando às vezes cinco minutos de um setor a outro. Com os cavalos sempre nas mesmas localidades, a população se sente protegida pela ação preventiva, que realmente diminui a incidência de delitos.
O cavalo, segundo eles, impõe respeito. Um policial sobre um cavalo consegue ver, por exemplo, tudo o que se passa no interior de um ônibus. “O impacto da altura é um grande diferencialâ€, salienta o sargento Neto.
Dentre as ocorrências mais freqüentes atendidas pela polícia montada estão furtos, porte e tráfico de entorpecentes e brigas de família.
O impacto deste trabalho e do benefício social da cavalaria é a tendência das pessoas em se aproximar desses policiais, ao invés de temê-los. Aos domingos é comum ver famílias inteiras ao redor das patrulhas no Parque Vitória Régia. As crianças chegam até a tirar fotos e montar os cavalos. Os patrulheiros brincam dizendo que, neste momento, viram celebridades.
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Terapia de crina
A equoterapia existe no destacamento de 1996 numa parceria da Polícia Militar do Estado de São Paulo e a Associação de dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). O tratamento é gratuito e todos os profissionais envolvidos são voluntários.
O projeto já atendeu quase 100 pessoas nesses anos e trabalha, atualmente, com 12 pacientes por ano, sendo seis da Apae e seis pessoas da comunidade, rigorosamente triadas.
“Priorizamos o maior grau de necessidade, sem exceçõesâ€, afirma o sargento Deozildo Moschen.
A equipe de trabalho é formada por policiais equitadores, que trabalham em dias de folga, além de médico, fisioterapeuta, professor de educação física, psicólogo e fonoaudiólogo, com o critério de sempre estar presente o equitador, o psicólogo e a terapeuta a cada sessão.
“O movimento do animal, que reproduz a andadura humana, vai proporcionar ao paciente os mesmos estímulos que irão melhorar a percepção cognitiva, a parte física e motoraâ€, define Moschen.
Para os pacientes que não podem ou não conseguem cavalgar, as brincadeiras com os animais e os estímulos ao acariciá-los, ganham outra conotação que irá beneficiar o deficiente físico ou mental.